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Jovem procura pai e irmã em parte incerta desde que eclodiu a guerra civil em Moçambique

Benedito Afonso, de 27 anos de idade, tem memórias trágicas do último confronto armado decorrido entre 1976 e 1992, que opôs a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) ao governo monopartidário vigente na altura, sob a direcção da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo). Aos dois anos, em 1988, ele e a mãe Luísa Tomas foram capturados pelos guerrilheiros do movimento que pretendia forçar a mudança de regime no sistema de administração do país.

O jovem guarda recordações tenebrosas da guerra que o separou do pai e da irmã. Tanto ele como a progenitora nunca mais viram Afonso Bernardo e Julieta Afonso, e não sabem em que local do país se encontram, há 25 anos. O jovem e a sua mãe residem na vila-sede do distrito de Chibabava, na província central de Sofala. Em 1988, foram raptados e viveram quatro anos numa base militar controlada pelo exército da Renamo.

Durante esse tempo, testemunharam actos brutais de assassinatos, torturas e humilhações perpetrados pelos soldados de quem eram reféns. Bendito nasceu a 9 de Maio de 1986 naquele distrito e, para além da irmã que anda em parte incerta com o pai, tem uma outra de 30 anos de idade chamada Melinha Ibrahimo, fruto de um outro casamento seu.

Não moram junto mas mantêm contacto, à semelhança do que acontece com os parentes maternos, os únicos que conhece. Segundo nos contou, no dia em que a sua mãe foi presa, com ele no colo, o pai, que fazia parte da guerrilha da Frelimo, mobilizou um contingente de homens fortemente armados e foi atrás da família na tentativa de resgatá-la, mas sem sucesso.

Nessa época, a sua progenitora era parteira no Cen- tro de Saúde de Chibabava. Volvidas duas décadas e meia sem nenhuma notícia dos parentes desaparecidos, o jovem e a progenitora continuam a procurar, incansavelmente, por eles.

Mãe e filho andam desesperados porque não sabem se Afonso e Julieta estão vivos ou mortos, se estão juntos, ou também se perderam um do outro durante a guerra. Todavia, eles guardam esperanças de vê-los um dia. A senhora alimenta a mesma expectativa de rever o marido e a filha.

“Quando os homens da Renamo nos capturaram tentámos fugir mas não foi possível. Mas algumas pessoas que não tinham crianças conseguiram escapar”, afirmou o rapaz com um timbre de voz de consternação.

O nosso interlocutor disse igualmente que até hoje a sua mãe ainda lhe narra episódios horríveis vividos durante os quatro anos em que estiveram retidos numa zona montanhosa, agreste e recôndita na província de Manica. Benedito e Luísa estão nas estatísticas horrendas das vítimas da guerra que durou 16 anos em Moçambique.

De acordo com o filho, apesar de que na altura ainda era criança, para além do que a mãe lhe conta sobre os traumas a que as pessoas eram submetidas, das ameaças de morte, das agressões físicas e psicológicas, do abuso sexual, dentre outras atrocidades, recorda que passou fome e sede.

Desse momento em diante, a sua vida transformou-se num pesadelo. Quatro anos depois de muito sofrimento, em 1992, Benedito e Luísa foram soltos pelos guerrilheiros da Renamo, uma vez que o Acordo Geral de Paz, rubricado em Roma, na Itália, impunha um cessar-fogo entre aquela força beligerante e o Governo.

“Mandaram-nos embora da base militar e levámos cerca de duas semanas a caminhar no mato. Durante o percurso, trabalhámos para algumas famílias em troca de acolhimento. Atravessámos vários rios até encontrar a localidade de Macate, no distrito de Gondola, onde ficámos por algum tempo até conseguirmos dinheiro para voltar à casa”, recordou o nosso entrevistado.

Quando Benedito e a mãe, ao chegarem à terra natal, no distrito de Chibabava, encontraram alguns pertences deixados por Afonso Bernardo. Entretanto, o jovem não conhece nenhum familiar paterno, apenas sabe dizer que os tios e avôs, dos quais nunca teve notícias, vivem na província de Nampula.

Algumas crianças quando permanecem algum tempo no meio da guerrilha e a viver episódios dramáticos de torturas e massacres crescem com traumas e distúrbios que chegam a afectar a sua personalidade. Porém, este não é o caso do jovem Bendito que, embora amargurado, luta ao lado de outros homens e mulheres para superar as dificuldades da vida.

Uma das coisas que lhe causam dor é o facto de a sua mãe não ter voltado a trabalhar no Centro de Saúde de Chibabava em consequência de ter sido forçada a manter-se muito tempo às mãos da Renamo.

Hoje, a fonte de rendimento da senhora Luísa é a actividade agrícola. Enquanto isso, Bendito está a cursar o 2o ano de ensino de inglês na Universidade Pedagógica da Beira. Ele contou-nos que para custear as despesas dos seus estudos recorre a biscates.

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