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EDITORIAL: Indecoroso

Vejo uma reportagem televisiva na STV e pasmo. De indignação. De espanto. De repúdio. De asco. De como é possível num Estado dito democrático e de direito acontecer uma coisa destas. E sei lá do que mais.

Sei que há 54 guardas prisionais que desempenham funções profissionais na Cadeia de Máxima Segurança – vulgo BO – e na Cadeia Civil de Maputo – ali bem no coração da Avenida Kim il-Sung por onde todos os dias passamos apressadamente – que não recebem salário há seis meses! Ou seja – considerando que muitos meses têm 31 dias – há mais de meio ano! Há mais de 180 dias! Há mais de 4320 horas! Há mais de 259.200 minutos! Há mais de 15.552.000 segundos!

Durante todo este tempo dezenas de chefes de família, muitos dos 54 terão todo o agregado para sustentar, não levaram um tostão para casa. Tudo, ao que parece, ficou a dever-se a um problema burocrático, de processamento das folhas de salários! Aliás, a ministra responsável pela pasta, Benvinda Levi, confirmou, com o ar mais natural do mundo, passo a citar, que “há certos processos burocráticos que é preciso seguir em qualquer processo de pagamento. Aliás, qualquer pagamento de salário passa por certa documentação, cabimento orçamental e tivemos certos problemas nos documentos.”

Com ar triunfalista terminou: “mas já está tudo ultrapassado”, como se os lesados ainda tivessem que agradecer o esforço, como se nada disto lhe dissesse respeito.

Este é mais um caso em que quem manda perdeu, definitivamente, o decoro, a decência, a vergonha e transformou jovens cidadãos – muitos deles têm vinte e pouco anos – com toda a vida pela frente num monte de gente faminta, desiludida, desesperançada, desesperada e sem o mínimo de confiança nas instituições que nos governam.

Esta gente é gente a quem a incúria extrema roubou a dignidade porque durante seis meses trabalhar na polícia e chegar a casa sem uma quinhenta no bolso para a mulher e os filhos torna-os, seguramente, indignos aos olhos deles. Um deles dizia: “já não tenho cara para pedir aos meus amigos dinheiro para o chapa.”

É sabido que, como diz o adágio popular, “a ocasião faz o ladrão” e num caso destes todas as ocasiões serão atraentes para fazer destes homens – estamos a falar de polícias – potenciais ladrões.

Quem os pode cesurar quando não recebem salário há seis meses?! Que guardas prisionais estamos nós a formar? Não será por estas e por outras que temos cada vez mais presos a fugir das cadeias, mesmo das de alta segurança? Por este andar chegará o dia em que se troca a liberdade por uma corrida de chapa e um frango.

E o pior de tudo é que estes jovens guardas prisionais há muito que ouvem dizer que o tempo do outro senhor era de “deixa andar” e que o deste é “decisão tomada decisão cumprida”.

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