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Humor: Riam-se, mas aprendam!

Humor: Riam-se

No quotidiano, além de lamentarem a sua penosa condição social, clamam pelo prometido futuro melhor. No entanto, enquanto com o passar do tempo não se operarem melhores (e necessárias) transformações, outros cidadãos aproveitam-se da referida penúria para se entreterem e, invariavelmente, transmitirem alguma educação. Eles chamam-se moçambicanos…

Numa das recentes edições do programa Improriso – realizado no país por um conjunto de jovens actores e humoristas – uma das figuras que, além do aspecto cómico dos assuntos que discute em palco, denunciou alguma preocupação assinalável no aspecto da educação e construção social dos seus admiradores e fãs e, por extensão, de todos os moçambicanos, foi Mário Mabjaia.

Por exemplo, na sessão que a tivemos a oportunidade de assistir, o actor que também é arquitecto falou de três assuntos principais – ensino e/ou educação, religião e paz, incluindo a forma como cada cidadão adere a eles.

Em cada palavra que o artista articulava, os moçambicanos, de quem, como povo, a inspiração para a construção dos enredos cómicos e satíricos se ganha não pararam sequer um minuto de rir. Esperamos que, mais adiante, igualmente, não se tenham esquecido de reflectir em torno dos referidos tópicos.

Feliz no seio de problemas

Muitos dos actores da geração de Mário Mabjaia como, por exemplo, Gilberto Mendes e Adelino Branquinho, que participaram na edição do Improriso a que assistimos, faziam-no pela primeira vez.

Foi nesse sentido que Mabjaia aproveitou a ocasião para explicar que apesar da sua vida brotar no meio de muitos problemas, ela está num rumo saudável. Até porque uma das lições que aprendeu do referido programa de humor, Improriso, criado e protagonizado, essencialmente, pela juventude moçambicana, foi a necessidade de levar a vida continuamente com algum optimismo não obstante as vicissitudes que se operarem.

O optimismo é uma palavra que se notabilizou em quase toda a sua exposição oral. “Penso que nos devemos alegrar sempre, porque nós temos muito tempo na vida para fi carmos sérios e calados. Ou seja, a partir do tempo em que encontramos a morte, não teremos nenhuma outra oportunidade para rirmos”, considera.

O artista começou por contestar a tendência dos jovens que, no programa em alusão, dedicam parte do seu tempo para falarem mal (na verdade) das personalidades moçambicanas: “Realizar o Improriso é algo novo para nós, conforme Gilberto Mendes disse. Penso que é muito complicado fazer um programa desta natureza. É por essa razão que algumas pessoas, entre os protagonistas do programa, se baralham e falam mal dos outros. Por exemplo eu não gostei do que disseram em relação ao músico moçambicano MC Roger. Penso que ele pode ser aquilo que é e o que não é, mas ele é”.

Além do mais, “eu acho que se há um artista (entre nós) que é genuinamente de Moçambique; que vende a imagem do país; que canta Moçambique, que é Moçambique (apesar de vestir um fato italiano e calçar um sapato que não tem muito a ver com o país) tal artista é o MC Roger”.

Uma outra personalidade de quem Mário Mabjaia não gostou que se fizesse zombaria é o actor e empresário moçambicano Gilberto Mendes. E não lhe faltam argumentos: “Ele é uma pessoa que pertence à minha geração e não à vossa. Por essa razão, merece todo o respeito da juventude”. Enfim, “eu acho que é bom que nós comecemos a realçar as qualidades positivas que as nossas referências têm. Para nós que nos dedicamos ao teatro, por exemplo, Gilberto Mendes é uma referência”.

Ele cuida melhor do cão que de gente

No entanto, entre os vários atributos que Gilberto Mendes possui como moçambicano Mário Mabjaia, o seu amigo, revelou ao público que ele é igualmente o único moçambicano negro que, além de patos, cães e cabritos, cria cavalos. Aliás, não deixou de referir que há outros moçambicanos que, por criar apenas patos, acabam por ser bem-sucedidos.

De visita à residência de Gilberto, Mário Mabjaia “conversou” com o cão do primeiro. “Em conversa comigo, o cão revelou-me que ele era muito muito bem tratado pelo seu dono, Gilberto Mendes, e que se ele pernoitava era simplesmente porque assim a sua vontade o movia a fazer”. Ou seja, “eu sou muito melhor amparado que os miúdos (entenda-se, actores) que Gilberto tem lá no Teatro Gungu”, realçou o quadrúpede.

Uma língua que complica o ensino

Mário Mabjaia revelou que quando recebeu o convite de participar no programa Improriso, um dos assuntos sobre os quais decidiu tratar foi o (espinhoso) tema da educação.

Inspirado por tal motivo, antes de mais, o actor realizou um (profundo) trabalho de investigação sobre o tópico, tendo inclusive inquirido várias pessoas dentre as quais a presidente da Liga dos Direitos Humanos, a doutora Alice Mabote, uma pessoa por quem nutre um especial respeito e que lhe revelou que o processo do ensino e aprendizagem no país é obstruído pelo Português, uma língua que não respeita os moçambicanos. Ou seja, de acordo com Mabjaia, para Alice Mabote, o problema da educação (entendida como a transmissão de conhecimentos e experiência das pessoas mais velhas para as novas) é a língua portuguesa.

“Isso não significa que nós detestamos a língua portuguesa, porque é excelente, mas a questão é que ela, como idioma, não respeita as pessoas. Quando a doutora Alice Mabote me disse isso também fiquei preocupado porque, para mim, não havia nenhum problema em relação ao referido idioma no processo da educação”, revela Mabjaia.

Refira-se, então, que para Mabjaia não faltam provas de que a língua de Camões ofende muitos moçambicanos: “Se dizem que um homem é cão, então, significa que ele é malandro (ou astuto), mas se dizem que a mulher é cadela significa que ela é prostituta; se dizem que um homem é vagabundo, isso equivale a afirmar-se que se está perante uma pessoa que não faz nada. Mas se afirmarem que a mulher é vagabunda é porque é prostituta; se dizem que ele é um menino da rua significa que é um coitado (ou que é um abandonado), mas se for menina da rua é porque é prostituta; se dizem que é um homem da noite, significa que ele trabalha toda a noite para sustentar a sua família, mas se comentarem que ela é uma mulher da noite é porque é prostituta; por fim, se dizem que este é o meu puto significa que é um miúdo, mas se dizem no sentido inverso é uma prostituta”.

Muitas outras situações pejorativas, desta natureza, poderiam ser citadas, mas a pergunta que se instala no meio de tudo isso é: como é possível, com uma língua desta natureza, haver educação?

O pior de tudo é que as situações anteriormente citadas são praticadas no espaço social moçambicano. “Eu acho que o problema de se pensar que a educação passa pelo cuidado que se deve ter em relação às palavras na comunicação não é de todo verdade. O facto é que há pessoas que, por malícia, usam certos termos e expressões para criarem a maldade, o que é errado porque se produz uma comunicação que não tem nenhum ensinamento positivo.

A paz

De há uns tempos para cá, o actor moçambicano Mário Mabjaia (que anima esta matéria) deixou de se dedicar à poesia, em resultado das múltiplas e, invariavelmente, erradas interpretações que as suas obras ganham de quem as lê.

O artista não foi compreendido. Aliás, no dia da sua exibição, antes de ler o seu último texto pediu que no fim não se aplaudisse a sua exibição porque se trata de uma arte sublime, o que não foi possível. Percebamos o teor da obra intitulada A Paz.

“A pomba é o passarinho da paz. A mulher é a paz do passarinho. O homem busca pela paz do seu passarinho. O solteiro não deixa o seu passarinho em paz. A solteira conhece o passarinho, mas não a paz. A divorciada perdeu a paz do seu passarinho. A viúva perdeu o passarinho e já não vive em paz. O viúvo perdeu a paz do seu passarinho. A casada tem o passarinho e a respectiva paz. O casado tem a paz para o seu passarinho. O velho tem o passarinho adormecido, mas em paz. A velha deveria estar em paz, mas está sempre a pensar no passarinho. O gay quer a paz pela frente e o passarinho por trás”.

Uma fábula necessária

Dito o discurso poético, ninguém resistiu, todos os presentes se riram. É por essa razão que, presentemente, Mabjaia trabalha com outro tipo de elaboração textual muito mais sublime de modo que supera o grau da prosa poética. Tais criações textuais são introduzidas por uma citação e, mais adiante, concluem-se com algumas constatações.

Um papagaio cansado de viver na gaiola, cansado de viver naquela cidade, abriu a gaiola do seu dono e voou, pelo mundo à procura de alegria. Atravessou o equador para o hemisfério norte.

O papagaio voou para o norte do hemisfério norte até que chegou aquele Inverno terrível com uma (grande) neve de tal sorte que acabou por ser congelado, com uma asa esticada e outra dobrada. O papagaio, já sem poder mover- se, disse para si: “estou tramado. Este é o meu último momento de vida”.

Um urso polar que ia passando por ali olhou para aquele animal, um pássaro bonito, de cores variadas, aproximou-se e simplesmente disse: “que lindo pássaro! Que lindas cores! Que coisa bela! Eu vou salvar esta criatura. E cagou por cima do papagaio e disse acho que chega, indo-se embora”. O papagaio, sentindo o calor do excremento do urso, começou a descongelar. Ficou feliz e começou a cantar.

Um pinguim que passava pela mesma região questionou: “Quem canta tão bonito assim? Chegou nas suas proximidades, afastou o excremento e viu o papagaio. E disse que animal bonito, deve ser saboroso. Pegou-o e comeu-o”.

Moral da história

O primeiro aspecto que se pode apreender da fábula é que nem todas as pessoas que fazem mal às outras são suas inimigas. A segunda ilação é que nem todas as pessoas que lhe tiram da “merda” são seus amigos. Por fim, mesmo que a pessoa esteja na “merda” se tal espaço for confortável, é sábio que não reclame muito sob pena de ser prejudicado. Assim conclui a sua exibição Mário Mabjaia.

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