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“Honoris Causa” de Maria Guebuza fruto de muitas noites em branco

A concorrida cerimónia de graduação da Primeira Dama moçambicana, Maria da Luz Dai Guebuza, como “Doutora Honoris Causa”, realizada quarta-feira em Maputo, fezme recordar alguns aspectos ou episódios da sua vida, contados por ela própria há cerca de dois anos, durante uma viagem quando acompanhou o seu esposo numa visita oficial ao Vietname na qualidade de Chefe de Estado, e outras estórias que me foram contadas por pessoas que a conhecem há muitos anos.

Na altura, ela contou então que ainda quando o seu marido era ministro, ela matriculou-se na Josina Machel no curso nocturno, para prosseguir com os seus estudos.Geralmente, ela regressava a casa pela noite adentro, razão pela qual acabava jantando sozinha e quando toda a sua família já se encontrava a descansar. Contou que muitas das suas amigas, incluindo esposas de outros ministros, não conseguiam entender porquê a esposa de um ministro, com quase tudo que poderia precisar na vida, ainda se dava a maçada de sofrer frequentando o curso nocturno, quando estava em condições de desfrutar das benesses que lhe advinham do cargo que o seu marido ocupava.

Revelou-me que uma das pessoas que não conseguia a compreender e sofria de a ver passar noites em branco a estudar ou a fazer os trabalhos de casa (TPC´s), depois de regressar da escola, era o seu próprio cozinheiro. Não vendo a razão para ela passar essas noites na escola, em vez de ficar em casa e dormir cedo após um bom jantar com o seu marido e filhos então ainda menores, o referido cozinheiro decidiu quebrar o medo que tinha. Assim, um dia decidiu perguntar porque é que tendo tudo o que faz com que as pessoas busquem mais conhecimentos, ainda se dava a maçada de sofrer tanto, se já podia desfrutar da “vida bom”, como dizia e diz ainda o lendário músico Xiduminguane, numa das suas músicas mais populares.

Contou que o seu cozinheiro foi tão directo e contundente, repetindo várias vezes a expressão “mas afinal a Sra. estuda para quê? É para ganhar o quê mais, se o teu marido lhe dá tudo o que se pode ter através dos estudos? O que é que a Patroa quer mesmo mais, se o teu marido lhe dá mais do que precisa? Eu digo isto porque me faz sofrer ver a patroa deixar de gozar a sua vida e todas as mordomias que estão à sua disposição, e ter de passar noites atrás de noites, para depois não tirar nenhum outro proveito, porque a Sra. tem tudo o que uma mulher pode querer graças ao seu marido que é ministro”.

Ela diz que o sermão do seu cozinheiro deixou-a meio perplexa, mas viu-se impelida a explicar-lhe que tudo o que havia dito era verdadeiro, mas que ela sempre sonhou em estudar mais, até concluir o curso superior, independentemente de ser ou não esposa de ministro, ou ter uma vida confortável. Vincou que também sempre acreditou que o melhor para um casal, é quando existe uma interdependência e uma inter-ajuda de ambos, e não uma dependência total em relação a um dos conjugues.

Diz que na altura, houve, de facto, algumas das suas amigas e esposas de alguns ministros de então, que enveredaram pelo caminho sugerido pelo seu cozinheiro, assumindo que uma vez que viviam bem graças ao salários dos seus esposos, então não precisavam de estudar mais, porque tinham tudo a partir deles. Ela revelou que, infelizmente, a maioria das suas amigas que se acomodaram porque eram esposas de dirigentes máximos, estão hoje na desgraça, porque se divorciaram, ou porque os seus maridos já não são ministros ou simplesmente morreram.

Na óptica da agora Doutora Honoris Causa, tanto o homem como a mulher deveriam sempre se assumir o presente como algo mutável e, por isso, ambos devem preparar-se antecipadamente para os desafios que o futuro nos reserva, devido a sua imprevisibilidade. Ela deixou claro que é das que prefere viver o presente tal como ele se apresenta, mas, acima de tudo, preparar-se para o futuro.

Sobre as razões que a levaram a estudar à noite até concluir o nível superior como bióloga, ela deixa claro que sempre acreditou que nós apenas podemos ter a certeza daquilo que nos pertence, daquilo que somos nós próprios a fazer, e nunca daquilo que alguém nos dá quando ainda nos pode dar, ou quando ainda nos quer dar.

Vinca que na altura em que o seu cozinheiro lhe implorou à abandonar o curso nocturno, ela tinha o suficiente para não se preocupar muito com a vida, mas que se sentia impelida a estudar mais porque também queria preparar-se para enfrentar as imprevisibilidades do futuro. Além disso, também queria não só ajudar a consumir o que o seu marido lhe dava, mas, acima de tudo, também ajudá-lo a adquirir aquilo que precisavam como família, bem como aquilo que poderiam vir a precisar num futuro, ou quando já não pudesse contar com a sua ajuda. Além disso, ela diz que sempre acreditou que nem sempre o que alguém tem hoje terá para sempre, daí ser imperioso que todas as pessoas estejam sempre preparadas para todas as surpresas da vida.

Uma mulher que luta para os outros e menos para ela propria

Mas para os que tiveram o privilégio de conviver com ela de perto, dizem que a Primeira Dama não é e nunca foi refém ou escrava da boa vida. Alias, em muitos casos, parece ter o mesmo espírito do nosso Eduardo Mondlane ou Mahatma Ghandi que, apesar de terem sido pessoas que estavam predestinadas a viver bem no luxo, como é o caso deste último que era um grande advogado, preferiu viver na destituição, tal como viviam as castas mais desfavorecidas dos seus compatriotas na Índia, liderandoos na sua luta contra a colonização britânica.

Também Maria da Luz Dai Guebuza passou a sua juventude lutando na luta pela independência do seu país e agora passa a maior parte da sua vida a sofrer nas zonas rurais, onde reside a maioria dos moçambicanos mais carenciados, para tentar ajudá-los a saírem da situação em que se encontram. Actualmente, ela é uma das poucas, senão a única Primeira Dama, de um país que opta por viver fora do luxuoso Palácio Presidencial, onde devia desfrutar das benesses que lhe adviriam do alto cargo de Chefe de Estado que o seu esposo ocupa vão já quase seis anos.

Tudo indica que mais do que Primeira Dama, ela se sente, na verdade, como uma Messias que deve disseminar a boa nova ou os conhecimentos que foi adquirindo nessa altura em que esteve a estudar à noite, e que a impedia também de desfrutar das mordomias que a advinham do facto de ser esposa de ministro. Ela é, de facto, prova viva da tese do lendário académico português António de Castilho, quando dizia que uma mulher é uma escola natural, e que educá-la é um dever duplicado porque duplamente proveitoso, uma vez além da sua própria educação, é dela que nasce todo o outro povo à sua imagem e semelhança.

O referido académico ia mais longe, dizendo que no dia em que cada mãe tiver sido devidamente educada, o mundo terá sido salvo de uma vez por todas. Julgo que esta causa que a nossa Primeira Dama abraçou é que fez com que a cerimónia da sua graduação fosse a mais concorrida neste pais – o que é revelação de que o seu trabalho ganhou os corações e admiração da maioria do seus compatriotas e das pessoas de outras nações. E não é por acaso, porque conta-se aos dedos de uma só mão, as primeiras damas que passam a maior parte das suas vidas dormindo em palhotas ou casebres, como ela passou ao longo dos cinco anos

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