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HIV/SIDA: “minha mulher me abandonou com dois bebés”

António Campus tem 45 anos de idade e nasceu em Changara, um distrito da província central moçambicana de Tete, conhecido por ter mais cabritos que pessoas, próximo da fronteira com o Zimbabwe. Em 2002, alguns anos depois de ter regressado da Alemanha, onde se formou em mecânica, ficou muito doente.

“Fiquei quase um ano de cama em casa e a doença não curava. Tive tuberculose, malária, diarreia e desnutrição”, confessa. Um amigo, activista da SIDA que trabalhava com os Médicos Sem Fronteiras, sempre lhe visitava e aconselhou-lhe a fazer teste de HIV/SIDA. “Eu já tinha ouvido falar da doença na década de 80, quando estava na Europa. Me fiz ao centro de Atendimento e Testagem a Saúde (ATS) do Hospital Provincial de Tete, que fica a 100 quilómetros de Changara.

Para o meu espanto, o teste veio positivo. Confesso que não estava preparado para o resultado. Não voltei mais ao hospital e gazetei o primeiro encontro com o médico”. Já na terceira semana após o resultado, se sentia cada vez pior e voltou lá depois de muita insistência do amigo. Foi aí que foi diagnosticado com tuberculose pela segunda vez e recomeçou o tratamento. Seis meses depois, o seu CD4 (contagem de células do sistema imunológico) era de 24 e muito baixo, pelo que devia fazer o coquetel de medicamentos da tuberculose e antiretrovirais. O mais difícil foi informar isso à família. “Contei e a minha mulher aderiu ao teste para podermos conjugar as nossas vidas. O teste dela veio negativo.

Ao invés de melhorar, a vida piorou”, diz. “Ela fez as malas e me abandonou com dois bebés gémeos de seis meses. Ela achou que não devia ficar, porque já não tinha mais esperança, pois eu já estava muito debilitado. Ela deve ter feito a matemática dos meus dias e preferiu abandonar-nos no lugar de me cuidar”, confessa amargurado. “Como a minha mulher, muitos amigos começaram a desligar-se de mim.

Alguns dizendo palavrões, como que eu passaria a vida toda doente e nunca me curaria”, sublinha. Confessa que teve momentos difíceis, porque além de cumprir com horários de hospital e cuidar do seu tratamento, tinha a tarefa de cuidar e alimentar os dois filhos. O hospital referiulhe à associação Chiguirizano (ajuda na língua local, Nhungue) que lhe tem apoiado em vários aspectos, incluindo a doação de alimentos. Depois de enfrentar enormes desafios, Campus agora trabalha como activista de cuidados básicos.

Aconselha e assiste aos acamados e encoraja as pessoas a acorrerem ao teste de HIV. “Actualmente eu me sinto bem fisicamente e orgulhoso por saber que o meu trabalho ajuda a prolongar a vida de muitos seropositivos através do tratamento antiretroviral, pois luto sem descansar para que haja muita aderência”, diz. “Eu vou lutar com determinação para que pessoas seropositivas tenham espaço na sociedade, para uma vida feliz e de paz e que não desistam do tratamento, por maiores que sejam os obstáculos”, conclui.

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