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“Há pouca informação sobre a tuberculose no país”

Moçambique é um dos 22 países que registam maiores casos de tuberculose, sendo que o nível de prevalência é de 460 por cada 100 mil habitantes. Destes, 127 resultam em óbitos. Para o director-geral do Movimento Contra a Tuberculose, uma organização sediada na cidade da Matola, Eugénio Juliasse, esta situação é reversível porque esta doença é prevenível e tem cura. Na opinião do nosso entrevistado, esta situação deve-se, em parte, à falta de informação sobre a tuberculose. “Há mais informação sobre o HIV/ SIDA do que em relação à tuberculose, mas as pessoas ignoram um facto”.

“Os casos tendem a aumentar, mas isso deve- -se ao facto de a tuberculose estar associada ao HIV e SIDA. Outra questão que contribui para o aumento de casos desta doença tem a ver com as condições das nossas casas, que não têm janelas suficientes. Quando isso acontece, o bacilo torna- -se resistente”, afirma.

@Verdade: O que é o Movimento Contra a Tuberculose e quando é que foi criado?

Eugénio Juliasse (EJ): Movimento Contra a Tuberculose é uma organização de carácter social, sem fins lucrativos, e tem como objectivo a promoção da saúde pública, com maior enfoque para a tuberculose. O mesmo foi fundado em 2007. Dado curioso é que esta organização foi criada por antigos pacientes.

@Verdade: Que trabalhos tem levado a cabo o movimento?

EJ: O Movimento Contra a Tuberculose desenvolve trabalhos ligados à saúde pública, tal como tinha dito. Tais trabalhos incluem a sensibilização, pesquisa e monitoria e advocacia sobre a boa governação na área da saúde, mas que têm a ver com a tuberculose.

@Verdade: Qual é a vossa visão como movimento que desenvolve trabalhos ligados à saúde pública?

EJ: Pretendemos ser um interlocutor válido, capaz de contribuir para a solução dos problemas que afectam o nosso grupo-alvo, que são as pessoas que padecem de tuberculose, e a sociedade no geral. Igualmente, pretendemos interagir com as entidades governamentais e não governamentais sobre questões relacionadas com a saúde pública, com destaque para a tuberculose.

@Verdade: O que terá levado os antigos pacientes a criarem o Movimento Contra a Tuberculose? Terão notado alguma anomalia nos serviços prestados nas unidades sanitárias onde faziam o tratamento?

EJ: Bem, eles foram influenciados por aspectos negativos e positivos. Havia problemas de atendimento, demora no diagnóstico, estigmatização e falta de cumprimento quanto à medicação.

@Verdade: Qual é o principal problema com que as pessoas que padecem de tuberculose se debatem?

EJ: O principal problema é o estigma por parte da sociedade. As comunidades precisam de saber ou conhecer os sintomas da tuberculose, pois esta doença tem de ser diagnosticada precocemente, apesar de ter cura. Quanto mais cedo se fizer o diagnóstico, melhor. Mas, para além de ter cura, ela tem de ser conhecida. As pessoas não sabem o que fazer para evitar que ela se propague. Mesmo ao nível dos media, este assunto não é divulgado. É preciso despertar a sociedade para a necessidade de se difundir mais informações acerca desta doença.

@Verdade: Qual foi o principal problema que identifica(ra)m nas unidades sanitárias durante a realização dos vossos trabalhos?

EJ: Para além da demora no atendimento e diagnóstico, deparámos com a ruptura de medicamentos. Este é um problema reconhecido até pelo Ministério da Saúde.

@Verdade: Qual é a tendência da tuberculose no país?

EJ: Os casos tendem a aumentar, mas isso deve-se ao facto de a tuberculose estar associada ao HIV/ SIDA. Outra questão que contribui para o aumento de casos desta doença tem a ver com as condições das nossas casas, que não têm janelas suficientes. Quando isso acontece, o bacilo torna-se resistente. A falta de informação é também uma das causas.

Há mais informação sobre o HIV /SIDA do que em relação à tuberculose, mas as pessoas ignoram um facto. Para contrair o HIV/ SIDA, é necessário manter relações sexuais com uma pessoa infectada. Falo do sexo por ser a principal via de transmissão. Mas um tuberculoso pode contaminar mais de 50 pessoas só por estar numa sala fechada, ou por tossir.

O facto de estarmos num “chapa” com as janelas fechadas constitui um perigo. Resumidamente, o aumento de casos da tuberculose deve-se à falta de informações e à chegada tardia dos pacientes às unidades sanitárias. Eles chegam já na fase terminal.

@Verdade: As nossas cadeias estão superlotadas e isso constitui um campo fértil para a propagação da tuberculose. Já desenvolveram algum trabalho a nível dos centros prisionais?

EJ: No princípio deste ano, trabalhámos em coordenação com a direcção da Cadeia Central. O projecto está numa fase embrionária. O que pretendemos é formar os funcionários e depois os reclusos.

@Verdade: Quais são as províncias mais afectadas?

EJ: As províncias que apresentam maiores casos de tuberculose são: cidade de Maputo, Gaza, Sofala e Maputo. Facto curioso é que o aumento destes casos está ligado à grande capacidade de resposta ao diagnóstico que estas províncias têm. Em termos de regiões, as províncias do sul e centro são as que maior prevalência, com 46 e 37 porcento, respectivamente.

 

“A distribuição dos serviços de tratamento da tuberculose não é satisfatória”

@Verdade: Qual é o nível de distribuição dos serviços de tratamento da tuberculose?

EJ: Não podemos falar da situação no país por estarmos situados na Matola, mas no último estudo que realizámos na cidade da Matola constatámos que a distribuição dos serviços de tratamento da tuberculose não é satisfatória. Apesar de não ter sido feito em todo o país, o estudo pode ser representativo.

@Verdade: Qual foi a metodologia usada para a realização do estudo?

EJ: O estudo consistiu na colheita de opiniões dos utentes e trabalhadores dos serviços de tratamento da tuberculose.

@Verdade: Quando afirma que a distribuição dos serviços de tratamento da tuberculose não é satisfatória, o que quer dizer?

EJ: Pretendo dizer que a distribuição não é equitativa. Por exemplo, o país só dispõe de três máquinas G Xpert, instaladas nas cidades de Maputo, Beira e Nampula. Esta máquina é capaz de diagnosticar qualquer tipo de tuberculose em duas horas. Noutras unidades sanitárias, isso leva mais tempo, até semanas.

E as pessoas podem não entender as consequências de um atraso no diagnóstico da tuberculose. Há tuberculoses extra-pulmonares, em que a pessoa nem tosse. Por isso é necessário que a sociedade tenha mais informações sobre esta doença. Há fraca comunicação nas comunidades.

Pouco se fala e há pouco conhecimento sobre esta doença. A sociedade não sabe como agir no caso de ter um familiar tuberculoso ou que já esteja em tratamento. O outro problema, senão o principal, tem a ver com a ruptura de medicamentos. Eu já tinha mencionado esta questão.

@Verdade: Diz-se que os tuberculosos deviam seguir o tratamento em casa e não internados. O que se lhe oferece dizer?

EJ: Isso é verdade. O tratamento devia ser ambulatório. Os pacientes não devem segui-lo internados.

@Verdade: Então, qual é a necessidade de termos o Hospital Geral da Machava, no caso da província de Maputo?

EJ: Há necessidade sim. É necessário perceber que o Hospital Geral da Machava foi concebido para internar os pacientes em estado avançado da doença. Nos casos em que o diagnóstico é feito muito cedo, a pessoa faz ou devia fazer o tratamento ambulatório, com o acompanhamento de um técnico de saúde ou de um activista.

@Verdade: O Movimento Contra a Tuberculose tem activistas?

EJ: Tem sim. Aliás, isso devia acontecer em todo o país, mas faltam incentivos aos activistas. Por exemplo, nós, como Movimento Contra a Tuberculose, não estamos em condições de pagar um subsídio a eles, para além de que é preciso treiná-los para que saibam como agir quando estiverem na casa do paciente.

@Verdade: E qual é a consequência da falta de activistas?

EJ: A consequência imediata da falta de activistas é o abandono ao tratamento. É muito doloroso para o paciente ter de se deslocar a uma unidade sanitária sempre que tiver de levantar medicamentos ou efectuar consultas de rotina. Vezes há em que chega ao hospital e dizem que não há comprimidos, o que o obriga a voltar no dia seguinte. Como opção, ele abandona o tratamento, o que constitui um perigo à sociedade devido à facilidade como a tuberculose se propaga.

Um doente com tuberculose sujeito a caminhar cerca de 20 minutos ou mais para uma unidade sanitária todos os dias durante seis meses tem maior probabilidade de abandonar o tratamento do que aquele que caminha dois minutos ou que fica em casa porque tem o acompanhamento de um familiar ou de activistas.

@Verdade: Quanto tempo dura o tratamento?

EJ: O tratamento leva seis meses, divididos em duas fases, nomeadamente a intensiva (dois meses) e a de manutenção (quatro meses).

@Verdade: Disse que os casos de tuberculose tendem a aumentar. Qual é a situação de Moçambique a nível mundial?

EJ: Segundo a Organização Mundial da Saúde, Moçambique figura na lista dos 22 países mais afectados pela tuberculose, o que fez que em 2006 o Ministério da Saúde a declarasse uma emergência nacional. Só em 2010 foram registados 46.740 casos. O número estimado de casos no nosso país é de 460 por cada 100 mil habitantes. Destes, 127 resultam em morte. No mundo, a média é de 46 mil novos casos por ano e uma prevalência de 504 por cada 100 mil habitantes.

@Verdade: Qual é o papel do Ministério da Saúde?

EJ: O MISAU é gestor do Programa Nacional de Combate à Tuberculose, ou seja, é responsável pelo tratamento. Em relação à eficiência do seu trabalho, é-me difícil dizer linearmente se está ou não a resultar. Temos notado um esforço, mas devia fazer melhor.

@Verdade: Porque considera que o trabalho do MISAU devia melhorar?

EJ: Existem falhas no que diz respeito à planificação e implementação na localização dos centros de referência para o diagnóstico da tuberculose, na rede de transporte de doentes, na afectação de pessoal de saúde bem treinado, na motivação dos funcionários dos centros de saúde, na alocação de medicamentos, que deviam ser suficientes para pelo menos três meses. Há casos de má nutrição no seio dos doentes.

@Verdade: Consta que o país está a implementar o DOT. O Movimento Contra a Malária está envolvido?

EJ: Sim, estamos envolvidos na implementação da estratégia Direito à Observação de Tratamento, que consiste em levar os serviços de tratamento às comunidades. Ou seja, os pacientes e a sociedade devem estar envolvidos no rastreio, diagnóstico e tratamento da tuberculose. O Governo moçambicano, quando adoptou esta estratégia, pretendia aumentar os serviços de tuberculose e a sua qualidade, com ênfase para os grupos mais desfavorecidos e vulneráveis.

Resumidamente, o objectivo do DOT é permitir que os doentes que sofrem de tuberculose possam ser diagnosticados e tratados o mais rápido possível, de forma mais eficaz e com menos recursos financeiros. No nosso caso, como organização, não tem sido fácil. Falta-nos material de informação, educação e comunicação.

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