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Greve dos profissionais da Saúde: a luta continua por melhores salários e Estatuto

Milhares de profissionais da Saúde, que desde a semana passada reivindicam a melhoria das condições de trabalho, o incremento dos salários que auferem, dentre outros problemas que considerados um revés para a sua tarefa de cuidar dos compatriotas e salvar vidas, juntaram-se, esta Segunda-feira (27), na sala do Cine Teatro Gilberto Mendes, na baixa da cidade de Maputo, para reiterar que a greve continua até que seja satisfeito o caderno reivindicativo ignorado pelo Executivo moçambicano.

Cada profissional da Saúde que se fez presente à sala do Cine Teatro Gilberto Mendes trazia em mão um prato vazio e as suas bocas estavam vedadas. Segundo a explicação dada, os pratos simbolizavam a fome e as bocas vedadas com lenços denotavam o silêncio a que os trabalhadores do sector Saúde estão submetidos há vários anos. Isso, dito numa única frase significa: “Chega de nos submeterem ao silêncio e à fome.”

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Serventes o elo mais fraco

Uma servente do Centro de Saúde de Xipamanine disse ao @Verdade que trabalha na Saúde há 30 anos e o seu salário são 3.000 meticais. “Só aos 40 anos de idade consegui construir a minha casa graças a um empréstimo que fiz num banco. Até hoje ainda estou a pagar mensalmente uma letra de 1.000 meticais, o que significa que do meu vencimento só restam 2.000 meticais para cobrir as despesas domésticas. Esse dinheiro é uma miséria, não chega para nada, pelo contrário trabalho arduamente e sou maltratada e insultada.”

Num outro desenvolvimento, a nossa interlocutora contou que o trabalho de servente é marginalizado, “não somos respeitados nem considerados gente. Somos humilhados mas para o médico ou o enfermeiro poder exercer as suas funções precisa de um servente ao seu lado para ter acesso ao paciente. Nós é que transportamos o doente para as salas de atendimento médico. Limpamos o chão e vários compartimentos das unidades sanitárias para ganhar 3000 meticais. Quando o doente morre nós é que o levamos para a morgue, mas não nos consideram…”

Outro servente, afecto ao Hospital Geral da Mavalane, também trabalha na Saúde há mais de três décadas. “Em breve vou à reforma e não fiz nada na minha vida durante o tempo de trabalho porque o salário é muito baixo. É uma pena o trabalho que os serventes exercem…”

Este interlocutor disse-nos ainda que, para além das precárias condições de trabalho a que está sujeito, o seu agastamento tem a ver com a arrogância dos gestores das unidades sanitárias que não consideram um servente como gente: “Eu já ouvi um chefe do meu serviço afirmar que se o servente estiver indisponível para trabalhar não havia problemas porque podia ir ao mercado de Xipamanine buscar qualquer pessoa que lá vende para limpar o chão. E perguntava o que era um servente para a saúde, não era e não é nada…”

A história destes profissionais da Saúde que reclamam também por humanismo no seu trabalho e na sua relação com os gestores hospitalares é quase a mesma. Aliás, eles estão igualmente insatisfeito devido à não progressão nas carreiras de serviço. Alguns disseram que nem sequer imaginam a que escalão pertencem, uma vez que há décadas que não são promovidos.

Profissionais de todas idades

Em jeito de rebater os incrédulos que julgam que os grevistas são apenas uns jovens rebeldes mais uma vez, tal como na manifestação deste Domingo diante da 6ª esquadra, pudemos ver no palco e na audiência vários profissionais com décadas de trabalho na Saúde de Moçambique. O primeiro a dirigir-se aos presentes foi mesmo o primeiro Presidente da Associação Médica de Moçambique (AMM), João Schwalbach, hoje já fora do activo.

Outro médico “aposentado” que fez-se ao palco para contar as dificuldades de ser profissional da saúde no nosso país foi Filipe Gagnaux, hoje a exercer um cargo político na Assembleia Municipal de Maputo, e que afirmou ter sido forçado a entrar na política por causa das injustiças e que deixou de ser médico porque não recebia o suficiente.

Aliás, no seu entendimento, o Executivo moçambicano foi eleito para servir ao povo e aqueles que cuidam desse mesmo povo quando está doente ou quando não goza plenamente das suas faculdades físicas e mentais devido a alguma enfermidade, mas não assume (o Governo) essa tarefa de zelar pela população.

Numa corrente de ovações, gritos e palmas, Filipe Gagnaux disse ainda que um profissional da Saúde está exposto a mais riscos no seu ambiente de trabalho em relação aos trabalhadores de outros ramos e não recebe um salário justo.

“Se as reivindicações salariais dos profissionais da Saúde fossem satisfeitas não estaríamos aqui (no Cine Teatro Gilberto Mendes reunidos). Se de facto tudo estivesse bem ninguém estaria a lutar por um direito básico. Não estamos aqui por problemas pessoas, mas sim por justiça. Por que é que os dirigentes e o Governo deste país têm salários altos e absurdos em relação aos da Saúde?”, questionou Gagnaux , para quem se o Executivo não tivesse criado condições para a greve, cada profissional que estaria no seu posto de trabalho e não numa encontro para reivindicar por direitos básicos.

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Com pratos vazios nas mãos os profissionais de saúde contaram “Guebuza come sozinho e depois vem chorar connosco.

Alguns enfermeiros manifestaram igualmente o seu descontentamento, e contaram as “ginásticas” que fazem todos os dias para viver com o mínimo de dignidade em relação às deploráveis condições em que trabalham, sobretudo por causa da falta de estímulo quer salarial quer psicológico.

Há mais de três décadas curam compatriotas mas a sua vida ao invés de progredir está estagnada e com tendência de regredir.

E a acção dos profissionais grevistas desta manhã foi encerrada pelo líder Jorge Arroz, o presidente da AMM, que neste domingo pôde sentir na pele primeiro a arrogância e as arbitrariedades do Governo de Armando Guebuza, que orquestrou a sua detenção, e também o apoio popular que vai cada mais extrapolando as hostes dos seus colegas. Milhares de cidadãos moçambicanos manifestaram publicamente o seu repúdio à sua injusta detenção e, mesmo aqueles que ao longo destes oito dias que dura a greve e que terão necessitado de atendimento médico prestaram a sua solidariedade.

“Estamos todos aqui voluntariamente e não por sedição” afirmou referindo-se a acusação usada pela Polícia para o deter. Arroz disse que a classe médica e os demais trabalhadores da Saúde estão unidos pela mesma causa na luta pelos seus direitos, por isso, a greve vai continuar, nem que dure um, dois, três ou mais meses. Irá levar o tempo que for necessário, só vai cessar quando o caderno reivindicativo das exigências apresentadas ao Governo for satisfeito.

 

 

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