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“Ghetto Life”:onde uma acção tem reacção

Em “Ghetto Life” os jovens são marginais e dedicam-se ao roubo de forma descarada. Pilham bens domésticos e viaturas em plena luz do dia. São violentos, e ninguém quererá identificar-se com eles. Ou seja, são o oposto a quaisquer valores sociais pré-estabelecidos.

Mas abandonam o mundo da criminalidade e tornam-se evangelistas. Quanto o filme começa, a reacção pode ser de repulsa porque, primeiro, não é um filme hollywoodiano e, segundo, é visível a escassez de recursos técnicos e humanos que deixam transparecer que se está diante de um trabalho feito por um grupo de amadores. Mas se os telespectadores se despirem de preconceitos e seguirem o ponto de vista da obra, poderão surpreender-se com o facto de que o filme, através de uma linguagem simples e directa, dá a oportunidade de ver questões sociais e actuais que necessitam de atenção.

Trata-se de uma longametragem de 2h19min. A história leva a pensar que o filme é do tipo documentário de representação social, quando, na verdade, se trata de ficção expressando de forma tangível um dos terrores e pesadelos de uma sociedade:a criminalidade. E o seu género parece óbvio logo nos primeiros minutos, mas “Getto Life”, o primeiro filme de Yassin Valdimiro José, moçambicano, de 32 anos, não se prende pelas fórmulas, é uma miscelânea de acção, comédia e drama.

Ou seja, um género muito diferente dos que têm sido apresentados no país. A história, contada a cento e vinte à hora, começa no interior de uma barraca: um homem, que aparenta um pouco mais de 30 anos de idade e acompanhado de uma mulher, exibe o dinheiro que amealhou durante muitos anos de trabalho como pescador em Vilanculos, além de chamar “pobres” às pessoas que lá se encontram. Os jovens, sentindo- se ofendidos e humilhados, decidem assaltá-lo (facto consumado instantes depois), dando, assim, origem a uma quadrilha que se dedica ao roubo de bens dos residentes do bairro.

O homem, inconformado com a situação, junta-se a um outro grupo de jovens e formam a polícia comunitária na tentativa de recuperar o dinheiro perdido e combater o crime que emerge no bairro. É em torno desta situação que se desenrola a trama de um filme que se passa nalguns bairros periféricos da cidade de Maputo: Mafala e Xipamanine, por exemplo. Produzido a custo zero e sem nenhum recurso senão uma única câmara de filmar, “Ghetto Life” não é uma metáfora da criminalidade e de evangelização, nem o retrato sociológico dos subúrbios da capital do país e dos jovens, tão-pouco uma crítica à perda de valores morais por parte da juventude e a denúncia da falta de emprego, pese embora se percebam estes aspectos ao longo do desenvolvimento da história.

Pelo contrário, o que pretende é elucidar a sociedade sobre o facto de que “por pior que seja um indivíduo, ele pode retratar-se”, comenta Yassin. A longa-metragem, que tem o seu lançamento previsto para o próximo mês de Ju- lho (dia 16) no Mozart, tem um quê de humorístico que, por vezes, envolve coisas sérias. Aliás, o humor está garantido em quase todas as cenas. Os papéis principais são desempenhados por Yassin, também realizador, que lidera a polícia comunitária, e pela quadrilha. Os actores são todos anónimos, e é a primeira vez que entram no mundo da representação. “Foi uma experiência proveitosa”, diz Maria Mondlane, de 25 anos, uma das actrizes que sonha seguir avante nesta carreira.

Ao todo estiveram envolvidas cerca de 53 pessoas, dentre os quais actores e figurantes. Curioso: Yassin dá vida a duas personagens paradoxais, o comandante e o pastor, além de ser o autor da história. Os actores não tiveram o trabalho de decorar um guião, pois este não existiu. Valeu o improviso, ou seja, depois de distribuídos os papéis, eles tiveram de mostrar a sua a capacidade de criar e desenvolver um diálogo dentro das balizas definidas pelo realizador. No filme, a quadrilha composta por três rapazes e duas raparigas só pensa numa coisa: apoderar-se dos bens alheios. Usando duas raparigas do grupo como isca, os jovens conseguem lograr todos os seus intentos. Assaltam residências, levando aparelhos domésticos assim como se apoderam de viaturas. As acções de roubo são feitas durante o dia com recurso a armas de fogo.

Os jovens chegam a arrepender-se dos seus comportamentos, buscando ajuda numa igreja. Mas, mais tarde, voltam ao mundo do crime, desta vez mais violentos do que já eram, mas encontram também uma polícia comunitária ávida de os exterminar. Continua, portanto, o constante conflito: o bem e o mal; e sintonia e caos. Numa troca de tiros e perseguição nos labirintos do subúrbio – cenas que caracterizam um filme de acção atingindo o seu clímax – um dos meliantes morre e os restantes são apanhados vivos e condenados a 20 anos de prisão. Presos, os bandidos recebem a visita do pastor e voltam a arrepender-se dos seus actos. Volvidos seis anos, os jovens são libertos por bom comportamento, tornam-se evangelistas e ministram os ensinamentos da bíblia aos moradores do bairro.

Termina assim um filme gravado com uma câmara emprestada. A falta de recursos está patente ao longo das duas horas, mas não retira a autenticidade e o mérito do autor e dos actores. Refira-se que Yassin José, além de ser um realizador emergente, é músico. Em 1999, venceu o concurso de descoberta de talentos denominado “Fantasia”, em 2003, o “Power in the voice” e, em 2004, grava o seu primeiro álbum na África de Sul intitulado “Tsakana”. Neste momento, está a gravar o segundo filme denominado “HIV/SIDA: A morte dos humanos”.

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