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EDITORIAL: Ganham mal uma pinóia

Afinal os deputados ganham mal? Coitados. Ganham tão pouco os pobrezinhos e – grande castigo – estão na Assembleia da República para servir patrioticamente os interesses de 22 milhões de moçambicanos ingratos que, agora, aplaudem a aprovação de um lei que empobrece grande parte dos 250 servidores públicos.

Neste rochedo à beira-mar não sei por que cargas de água foram criar ardilosamente uma lei que prevê o empobrecimento lícito do deputado. Como, digam-nos, é que viverá um deputado sem os outros rendimentos que a Lei de Probidade Pública vai extirpar?

Como é que vai viajar ou beber um whisky velho enquanto “debate” a pobreza dos moçambicanos? Quem há-de ir viver principescamente nas praias e lodges de Inhambane? Quem vai gastar balúrdios em restaurantes?

Não se pode brincar com a dignidade de um deputado senhores. Temos de concordar com eles quando dizem que o Governo deverá aumentar “adequadamente” os salários. Ou seja, há um estilo de vida que é preciso manter, preservar e legitimar. Afinal eles trabalham que se fartam.

Debatem e estão na Assembleia da República em nome do país. Não servem interesses pessoais e nem partidários. Ninguém pode dizer que alguma vez viu um deputado pregar o olho em pleno trabalho. Isso seria uma acusação espúria. Aliás, foram eles que se levantaram para propor a renegociação dos megaprojectos. Lutam para aumentar o salário mínimo para níveis admissíveis.

Não foram estes mesmos deputados que contestaram o bypass da Mozal? Não foram eles que mostraram, por A, B e C que as manifestações populares de um e dois de Setembro, de 2011, resultaram do descontentamento popular?

Não foram eles que disseram que é preciso criar políticas de habitação? Não foram eles que abdicaram de luxos em nome da austeridade? Não. Não foram eles. Foi o povo que se viu com um corpo mais esquelético que arcou com tudo.

Foi o povo que suportou e, no futuro, será vítima do bypass. Foi o povo que engoliu, em seco, a poesia da cesta bá(frá)sica. É o povo que morre por falta de medicamentos. É o povo que morre em Cateme por causa de um reassentamento mal concebido, egoísta e indigno.

É o povo que votou em vós sem vos conhecer o rosto. É o povo que não sabe a quem cobrar os votos que depositou. Portanto, não falem em sacrifícios. Vocês não sabem o que é isso.

Desde que tomaram o poder – leia-se um lugar no parlamento – vocês só engordam, dormem e enriquecem pornografi camente. Vocês não sabem o que é ser transportado numa carrinha sem a mínima segurança. Vocês não sabem o que é (sobre)viver com 2500 meticais. Em suma: vocês não sabem o que é sacrifício.

Para terminar como o bom do Chico Nhoca, que tal vocês olharem para o salário dos seguranças, polícias, enfermeiros, carpinteiros, pedreiros, chapeiros e vendedores informais deste país para depois, se tiverem vergonha na cara, solicitarem um aumento “adequado”? Que tal?

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