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Faz o que ele diz mas faz também o que ele faz

Cobri, naquilo que estava destinado aos jornalistas cobrirem, toda a visita que o presidente brasileiro Luíz Inácio Lula da Silva efectuou ao nosso país na passada terça e quarta-feira. Foram dois dias de grande azáfama com palestras, encontros com empresários, assinatura de vários acordos e visita à futura fábrica de antirretrovirais, esta última a coroa de glória da cooperação entre Moçambique e o Brasil.

 

Já tinha visto, via televisão, algumas entrevistas com Lula, mas, ao vivo, confesso que o presidente brasileiro excedeu todas as minhas expectativas. O seu discurso é estruturado, bem encadeado, simples, despretensioso, com exemplos concretos para ser interiorizado por qualquer um, mesmo pelos analfabetos. Para quantos analfabetos Lula já deve ter falado nos seus 30 anos de sindicalismo?

 

Como um íman, o seu verbo prende-nos, agarra-nos, hipnotizanos. E Lula é de uma versatilidade ímpar, conquistando a atenção de ricos e pobres, líderes mundiais e humildes cidadãos, doutores e analfabetos, velhos e crianças. As suas palavras convencem porque, ao contrário de muitos, não soam a banha da cobra. Lula não ‘vende jogo’, mas sim convicções, princípios, ideias.

Na palestra na Universidade Pedagógica Lula insistiu na tecla de que a grande riqueza do ser humano é, sobretudo, o conhecimento e que este é proporcionado pela educação. Para isso contou a história do amigo e diplomata, Samuel Pinheiro Guimarães. Este havia-se reunido com os filhos para discutir o seu futuro.

A dada altura perguntou-lhes: Vocês querem ser ricos, querem viver bem? Perante a resposta positiva, Samuel continuou: Há três hipóteses. Uma é roubar. Mas roubar é muito perigoso, podemos ser presos ou mortos, pelo que é improvável que seja uma saída. Casar com uma mulher rica é outra possibilidade. Mas é muito pouco provável porque os pais das mulheres ricas são muito zelosos e não permitem que qualquer um se casa com elas.

Outra possibilidade é ganhar a lotaria, mas toda a gente sabe que jogam milhões e só um é que ganha. Deste modo, a hipótese mais provável para no futuro se viver bem é estudar, estudar com a convicção de que somente o estudo é que pode garantir às pessoas, independentemente da religião, raça ou origem social, a igualdade de oportunidades para disputar um bom emprego, os melhores salários, etc.

Lula serviu-se depois do seu próprio exemplo de vida. “Para chegar onde estou hoje tive que trabalho muito. Ninguém me deu nada. Se hoje estou bem cotado como presidente é porque fiz um bom trabalho. Não me fecho no gabinete só a receber jornalistas. Vou ao terreno, contacto com a população, viajo, conheço a realidade do meu país e do meu povo como ninguém.”

E nós, aqui em Moçambique não fazemos nada, ou quase nada, do que Lula diz. Em relação às maneiras de enriquecer escolhemos normalmente a primeira porque aqui roubar virou cultura e, ao contrário do que diz Lula, não é nada perigoso e tem compensado muito.

Também, olhando para o orçamento que o Estado dedica à Educação, não me parece que seja um sector em que se aposte num trabalho sério nem em reformas de fundo. Atiram-se todos os anos números para encher páginas de jornais, sobretudo os oficiais, mas o nível do estudante que sai das escolas e das universidades raia o analfabeto.

O trabalho, que tanto deu a Lula, também me parece que não é particularmente valorizado entre nós. A nossa produtividade é baixíssima e logo que podemos arranjamos pretextos para não ir trabalhar.

Por último, este ponto diz mais respeito aos governantes, não vejo praticamente os nossos responsáveis políticos irem ao terreno para se inteirarem das dificuldades das populações, nem sequer em casos de catástrofe. O divórcio é cada vez maior entre o topo da pirâmide e a base. É por isso que surgem os cinco de Fevereiro e os uns de Setembro.

Se o dito popular do Frei Tomás diz “faz o que ele diz não faças o que ele faz”, já no caso do Lula, em relação ao nosso país, recomendaria aos compatriotas: Façam o que ele diz mas façam também o que ele faz”.

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