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Exército derruba presidente e anuncia a transição no Egito

As Forças Armadas do Egito derrubaram o presidente islâmico Mohamed Mursi, Quarta-feira (3), desencadeando uma festa nas ruas com a perspectiva de novas eleições, enquanto os políticos de várias tendências manifestavam apoio a uma nova transição política.

Mursi estava retido num quartel da Guarda Republicana depois de denunciar um “golpe militar” que interrompeu o seu mandato, iniciado há pouco mais de um ano. Enquanto os tanques e soldados ocupavam a área, dezenas de milhares de partidários da Irmandade Muçulmana, de Mursi, faziam um protesto nos arredores contra a deposição dele.

A dramática queda de Mursi, primeiro presidente eleito livremente na história egípcia, marca outra reviravolta na crise que envolve a mais populosa nação árabe desde a revolução popular que derrubou o ditador Hosni Mubarak, em Janeiro de 2011.

O principal negociador da oposição liberal com os militares, Mohamed El Baradei, disse que o plano acertado, Quarta-feira, com os generais garantirá a continuidade da revolução de 2011, que foi parte da chamada Primavera Árabe.

Dizendo ter um mandato popular para agir, diante de protestos que reuniram milhões de pessoas contra Mursi, o comandante do Exército, general Abdel Fattah al Sisi, disse que Mursi estava a ser deposto por ter ignorado as reivindicações de unidade nacional.

“Os que estavam na reunião concordaram com um mapa para o futuro que inclua passos iniciais rumo a obter a construção de uma sociedade egípcia forte, que seja coesa e não exclua ninguém, e que acabe com o estado de tensão e divisão”, disse Sisi num pronunciamento solene, transmitido ao vivo pela TV estatal.

Ele disse que as forças de segurança vão manter a ordem. Houve confrontos isolados entre facções rivais em vários pontos do país, mas sem atingir até agora a escala de violência das últimas semanas, quando mais de 40 pessoas morreram e centenas ficaram feridas.

As forças de segurança disseram que pelo menos 10 pessoas morreram, Quarta-feira. Sisi discursou tendo ao seu lado a cúpula militar e os líderes políticos – incluindo liberais e um barbado representante do partido ultraislâmico Nour. Também estavam presentes um clérigo muçulmano graduado e o papa copta.

Os líderes juvenis presentes no acto receberam uma menção especial de Sisi. As menções à vontade popular e a apresentação de uma frente política unificada e com um rosto civil – algo que ganhará contornos mais completos na Quinta-feira, com a posse do chefe da Corte Constitucional como presidente interino – têm o claro objectivo de aplacar preocupações internacionais sobre um golpe militar.

Os Estados Unidos vinham apoiando as declarações de Mursi sobre a sua legitimidade democrática, mas o pressionavam cada vez mais para partilhar poderes com seus adversários. O presidente Barack Obama expressou profunda preocupação com a deposição do presidente egípcio e pediu um rápido retorno a um governo civil democraticamente eleito.

Os EUA entregam 1,3 bilhão de dólares em ajuda militar ao Egito, e podem ser pressionados a impor sanções se houver a impressão de que Mursi foi vítima de um golpe. A instabilidade no Egito já vinha causando grande preocupação entre aliados ocidentais do Cairo e em Israel, país com o qual o Egito estabeleceu um tratado de paz em 1979.

“Egito para todos”

Reflectindo as esperanças da “juventude revolucionária” que liderou a rebelião contra Mubarak, o jovem que passou a encarnar a oposição contra Mursi disse que o novo período de transição não deverá repetir os erros do passado recente. “Queremos construir um Egito com todos e para todos”, disse Mahmoud Badr, um jornalista de 28 anos que há dois meses teve a ideia de iniciar um abaixo-assinado pela renúncia de Mursi.

No fim de semana passado, o movimento “Tamarud – Rebelde!” já tinha 22 milhões de apoiantes, dos quais muitos foram às ruas no Domingo. O Exército mostrava-se cada vez mais alarmado com a possibilidade de Mursi envolver o Egito no conflito sectário da Síria, e a presença popular nas ruas deu a Sisi uma justificativa para impor na Segunda-feira um prazo de 48 horas para que o presidente aceitasse partilhar poderes ou renunciar.

Depois das revoluções da Primavera Árabe, em 2011, vários políticos de tendência islâmica assumiram o poder nos seus países. Mursi é o primeiro deles a ser derrubado, e o facto irá despertar questionamentos em toda a região, especialmente na Tunísia. O país que foi o berço do movimento democrático árabe há dois anos e meio agora também tem o seu próprio movimento “Tamarud”, a procurar o fim do domínio islâmico no Parlamento.

Na praça Tahrir, no Cairo, epicentro da rebelião egípcia de 2011, centenas de milhares de pessoas dançavam e soltavam rojões, celebrando a deposição de Mursi. “O povo e o Exército são uma só mão”, gritava a multidão.

Os últimos quatro dias pareceram para muita gente uma repetição acelerada dos 18 dias que levaram à queda de Mubarak, quando o Exército, depois de décadas de apoio ao regime, percebeu que o tempo dele havia se esgotado.

Sisi anunciou a suspensão imediata da Constituição aprovada em referendo em 2012, com viés islâmico, e divulgou um “mapa” para o retorno ao regime democrático, sob regras revistas. O presidente da Corte Constitucional substituirá Mursi. Um governo tecnocrata será empossado até a realização de novas eleições presidenciais e parlamentares – datas não foram mencionadas.

A Constituição será revista por um painel representativo de todos os sectores da sociedade. A liberdade de imprensa, ameaçada durante o governo de Mursi, será protegida.

Sisi mencionou Mursi nominalmente apenas num preâmbulo no qual detalhou como o comandante militar – nomeado pelo presidente no ano passado – havia repetidamente tentando convencê-lo a acabar com a polarização profunda da política egípcia. O presidente, afirmou o general, “deixou de atender às exigências do povo egípcio”.

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