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Estudar em Moçambique não é barato

Estudar em Moçambique não é barato

Procurámos saber dos pais de dois alunos, um da primeira classe e outro da oitava, quanto gastaram neste início do ano em matrículas e material escolar. Um não pagou a matrícula mas é como se a tivesse pago. Outro não conseguiu comprar todos os livros.

Os olhos abriram-se de espanto. O queixo caiu, de choque. Olegário Mfumo, 43 anos, guarda de profissão, não queria acreditar quando descobriu que não podia comprar todos os livros para o seu filho que, este ano, vai frequentar a oitava classe.

O livro mais barato custa 250 Meticais. A partir de Junho do ano transacto, aquele pai zeloso economizou, até Dezembro, 2000 Meticais a contar que fosse mais do que suficiente. Debalde. Veio o pesadelo da matrícula e 350 Meticais foram-se de uma assentada. Mas, antes já tinham seguido o mesmo caminho outros 100 Meticais. Destino: seis fotos tipo passe. A isso, juntam-se mais 50 Meticais para o impresso. Ao todo foram gastos naquele acto 500 Meticais.

No início da semana passada, quando ainda faltava adquirir os livros, comprou uma embalagem de cadernos, por 250 Meticais. Material de desenho a 245 Meticais. Uniforme por 400 Meticais. Quando se recordou de que tinha de comprar os livros do oitavo ano só haviam sobrado 600 Meticais.

Aliás, desde que Alberto, filho mais novo, frequenta a escola que beneficia dos livros de distribuição gratuíta e de isenção de matrícula.

Mas, o que não fazia parte do imaginário de Olegário Mfumo é que o ensino secundário é diferente.

Neste ciclo, da matrícula aos livros, tudo deve ser pago.

A solução é adquirir os livros mais importantes. No caso vertente, o de Matemática e o de Português.

O primeiro dia do resto da minha vida

Os ponteiros cruzam as 10 horas da manhã. Na entrada principal da Escola Primária Completa 3 de Fevereiro, no meio da Avenida Tómas Nduda, uma legião de crianças cruza o portão. No meio, vai a pequena Lurdes para o primeiro dia do resto da sua vida.

Perguntámos à mãe quanto custou levar Lurdes à escola e a resposta veio pronta: 1000 Meticais. Mesmo com a isenção de matrículas? “Sim, paguei 100 Meticais referentes à contribuição para as despesas da escola, 15 para a caderneta e 20 foram para o processo do aluno. Só o uniforme custou 450 Meticais, mais 300 da sacola”. Aliás, nos mil não foram acrescentados os 500 Meticais pagos a um funcionário, à margem dos procedimentos legais, para garantir a vaga.

“Depois da maratona para conseguir a vaga, comecei a dizer para os meus botões: ´mas onde raio está o ensino gratuito? Será que quer dizer que não se paga a matrícula? Porque de gratuito não tem nada.

Vejamos no meu caso: o transporte é pago pelos pais; material escolar, com excepção dos livros, é pago pelos pais; a caderneta é paga pelos pais, pasme-se; o processo individual é pago pelos pais; lanche (que levam de casa) é pago pelos pais… Mas afinal onde está a gratuitidade do ensino básico?”

 

Custos paralelos

Confrontámos os preços do uniforme entre os sectores formal e informal. Para esse propósito, tomámos como referência uma das casas especializadas na confecção de uniformes no centro da cidade e dois mercados localizados no coração do grande Maputo. Descobrimos que no sector formal existem duas tabelas, uma para crianças e outra para adultos, mas criança neste caso é quem não transcende a faixa etária dos sete anos. Por outras palavras, se a idade miníma exigida para ingressar no ensino básico é de seis anos significa que a partir da terceira classe um aluno paga para adquirir uniforme o mesmo que um aluno do 12º ano.

 

Sector formal

Crianças

Sector formal

Adultos

Sector informal

Crianças/adultos

Calças: 300 MT

Calças: 340 MT

Calças: 100 MT

Saia: 265 MT

Saia: 310 MT

Saia: 100 MT

Camisa: 130 MT

Camisa: 130 MT

Camisa: 50 MT

Gravata: 55 MT

Gravata: 55MT

Gravata: MT

Camisete: 100 MT

Camisete: 55 MT

Camisete: 50 MT

 

Com o incremento do preço do livro e consequente redução de poder de compra, há uma coisa que os alunos das escolas públicas assimilaram e, naturalmente, tornaram-se exímios a fazê-lo. Por exemplo, o mesmo livro pode ser usado por seis alunos de turmas diferentes no mesmo dia. Um aluno X compra o livro da disciplina de Português e o de Geografia, enquanto que um outro aluno Y de Matemática e de Biologia. Se o aluno X tem no primeiro tempo Biologia e o Y tem Português, os livros são trocados. Aliás, essa constante troca de livros envolve mais de meia dúzia de alunos que funcionam como uma rede. É que, muitas vezes, os professores não querem saber e quem não tem livros não pode assistir às aulas. Mas essa é uma solução que funciona dentro da escola, mas que não é eficaz quando se trata de fazer os deveres de casa.

Contudo, está é uma equação que Alberto vai aprender a fazer se não quiser sucumbir na “selva” que é o ensino em Moçambique, mas a que a pequena Lurdes não está alheia…

 

 

 

 

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