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EDITORIAL: Esquemas do país da prosperidade

O Instituto Nacional de Segurança Social (INSS) lançou um concurso “público” com vista a apurar uma empresa para prestar serviços gráficos diversos. Até aqui tudo bem. Afinal a instituição que, pela sua natureza, apelidamos de banco do povo precisa de material do género para pôr a sua enorme máquina em funcionamento.

Sucede, porém, que foram gastos 25.314.974 meticais, uma quantia exorbitante para o número exíguo de material produzido.

Ou seja, para a produção de 1000 cartões – de – visita, 1000 brochuras, 1000 panfletos, 1000 folhetos, 1000 chaveiros, 1000 blocos de nota e 1000, pasme-se, esferográficas. Um autêntico escândalo quando é de domínio público que qualquer gráfi ca cobraria menos de 20 mil meticais para produzir 1000 cartões – de – visita.

Porém, o mais grave e pornográfico é a informação veiculada pelo Canal de Moçambique, segundo a qual a empresa vencedora do referido concurso é a Mtuzi Investimentos, registada em nome de Almerino da Cruz Marcos Manhendje, esposa e filhos.

Pelo passado de ex-ministro do Interior é, no mínimo, suspeito que o seu património engorde por via do dinheiro do INSS. Mas tal suspeita teria lugar se estivéssemos diante de uma decisão cristalina o que, por mais que nos esforcemos, não é o caso.

A empresa do ex-ministro apresentou a proposta mais onerosa para os cofres do INSS. Ou seja, três vezes mais do que a segunda com o valor mais elevado, cinco em relação à terceira e oito vezes maior do que aquele que deixaria o INSS com mais dinheiro nos seus cofres.

Porém, o banco do povo optou por uma proposta que roça o absurdo. Quando assim é não podemos deixar de falar de compadrio e de favorecimento político.

O caso de Manhendje só mostra o quão somos um país de idiotas. Um lugar onde tudo é permitido aos que verdadeiramente mandam no destino dos moçambicanos e das suas parcas economias. Como é possível que uma despesa danosa desse género seja permitida. Qual é, afinal, a lógica de um concurso público?

Sabíamos e, talvez, com algum grau de resignação que o que está debaixo dos solos deste país é propriedade exclusiva de um punhado de gente, mas ignorávamos, por completo, que o fruto da nossa poupança serve para engordar ainda mais as contas de quem sempre pautou por delapidar o que devia pertencer aos 22 milhões de moçambicanos.

Temos dificuldades em descortinar na vida de Manhendje um valioso e excepcional contributo prestado à causa do povo moçambicano. E certamente não ganhou o concurso por ter contribuído para tornar a vida dos humildes contribuintes do INSS mais digna.

Este país está a caminhar perigosamente para um nepotismo pornográfico. Na conversão do sistema analógico ganha a filha deste. Na comunicação ganha o primo daqueloutro. Afinal ninguém enriquece sem passar pelos sótãos da corrupção?

A actividade empresarial de Manhendje é “notória”, mas não descobrimos na sua proposta mérito que justifique a escolha da sua empresa. Por isso, cada vez mais invejamos a coragem dos protagonistas deste striptease com o dinheiro da nossa reforma. Respeitem o nosso dinheiro ou pelo menos façam de conta.

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