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Escrutínio escolar d’@ Verdade -O que se passa colega?

Amanheceu. Os pássaros davam os seus primeiros voos entoando as suas belas melodias no coração daquela bela manhã. Esfreguei os meus olhos ainda mascarados pelo sono. Estiquei-me na esteira que ficara apenas a metade em que deitara, a outra metade foi-se agastando ao longo do tempo pelo mijo e pelo chão cimentado da sala de jantar, de visita e também meu quarto.

– Mais um dia de vida. – disse eu para mim mesmo. Olhei para um relógio já sem cintas que me fora oferecido pelo tio Tsonana, um tipo que só oferece aquilo que está quase em desuso e ele não quer mais. – Um quarto para cinco horas – pensei. Os cadernos no armário riamse de mim sempre que os olhava. O uniforme escolar sorria nos cabides. Todo o material escolar parecia dedicar-me grande maldição.

Queria continuar deitado naquela metade da antiga esteira que era minha grande deusa para o descanso nocturno. As ruas esperavam ansiosamente pelos meus pés que iam carimbá-las com pegadas em passos apressados de um atrasado. A distância era quase um insulto sempre que me vinha à cabeça.

Acordei à força do dever. Sim, ir a escola deixava de ser direito para ser dever porque custava- me muito. Custava-me mil e um sacrifícios. Preparei-me e fiquei à espera de qualquer gesto da mamã, aquela viúva havia um pouco mais de uma década de anos. Abanou negativamente a cabeça com muito desânimo. – Não há dinheiro de chapa, Chico. Demorei mais alguns minutos parado olhando no entanto para panelas e a mamã apercebeu- se da minha preocupação e murmurou algumas palavras.

– Não restou nada ali. Acabou tudo no jantar. – Faz-lá ntlatu, mamã. – Não temos farinha. Afastei-me dela como se fosse uma inimiga. Parti. Deixei-me engolir pelas ruas até que atingi a estrada onde os cobradores de chapas gritavam sem cessar. – Museu, Museu… Ao gritarem, os cobradores de chapas irritavam-me como se fossem culpados da minha falta de dinheiro para o transporte. Um cobrador parecia insultar-me.

– Não vai, brother? Hein! Não vai? Eu, involuntariamente, ignorava- lhe como se a comunicação fosse entre animal e pessoa. Percorri as avenidas preferindo acreditar que estava num autocarro qualquer para assustar, ou seja, afugentar a distância que se desenhava no meu pensamento. Do subúrbio até ao coração da cidade das acácias andava por vezes cantando qualquer melodia e por outras assobiando à toa para evitar o stress que me perturbaria na compreensão das lições. Cheguei à Escola Comercial de Maputo.

Entrei na sala de aulas banhado de suor. Apertei os antebraços orando para que os sovacos não libertassem do fundo o suor mal cheiroso. Relaxei ao paladar do descanso depois de uma longa caminhada, só relaxei ao longo dos breves minutinhos em que os professores preparavam os seus planos de aulas. Um colega muito doente de curiosidade e que observava quase sempre os meus movimentos e a minha posição de “pensadinho” decidiu matar a curiosidade que não matou. – O que se passa colega? – Nada.

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