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“Embriago-me com a graça de Deus!”

“Embriago-me com a graça de Deus!”

A Cor do Pecado já circula no mercado informal. Teve uma tiragem de apenas 50 cópias. A partir dele, difunde-se o Rap Gospel, um estilo musical que bisbilhota espaço na praça. É o primeiro trabalho discográfico de Fig Dela Virgem, o rapper moçambicano que infunde a sabedoria divina. Acusa os seus confrades de serem dependentes de drogas ilegais, ao mesmo tempo que quer vê-los livres do mal. Segundo narra, viveu no seio em que se consumiam estupefacientes, no entanto, não os experimentou.

@Verdade: Porque é que o seu primeiro trabalho discográfico é intitulado A Cor do Pecado?

Fig Dela Virgem: Muitas vezes, até as pessoas que escondem o seu lado de vida brutal, ou demoníaca, reflectem sobre o pecado. No entanto, inúmeras vezes, quando falamos sobre a religião, temos a tendência de mostrar o Cristo bom, aquele que salva, sem levarmos em conta as dificuldades implicadas no caminho da salvação. Nesse sentido, comecei a trabalhar com aquilo que as pessoas – cristãs e não – pensam sobre o pecado, entendido como tudo aquilo que atrai as pessoas para a morte.

As minhas músicas aprofundam muito os temas sobre o pecado como forma de explicar às pessoas sobre as práticas envolvidas nele. É que mesmo os homens que vão à Igreja continuam a praticar actos pecaminosos sem a consciência de que o seu proceder é qualificável como iníquo. Há vezes que praticamos actos errados que não nos convêm enquanto adoradores de Deus. Portanto, ao abordar o pecado, nas minhas músicas, tenho a intenção de mostrar às pessoas de que maneiras se podem envolver nele como também como evitá-lo. Ou abandoná-lo.

@Verdade: O que é que pode levar as pessoas a distanciarem- se de Deus?

Fig Dela Virgem: A Bíblia fala sobre os 10 mandamentos a partir dos quais Deus nos exorta a produzir bons frutos. Por exemplo, apesar de aprendemos que não devemos matar, que devemos ser longânimes, constatamos que, nos dias actuais, há crentes que não produzem os frutos da bondade. Por essa razão, a Deus não agrada essa realidade. Ele quer ver alguma transformação nas pessoas. Um bom professor fica feliz quando percebe que os seus alunos evoluem no sentido moral e intelectual à medida que vão à escola. Até porque os seus pais investem muito na sua formação: Compram o uniforme, financiam a sua deslocação para a escola, garantem-lhes o lanche, incluindo o material didáctico.

Portanto, ao reconhecer esse esforço dos pais, um bom professor quer que os seus alunos sejam bem-sucedidos. Com Deus acontece o mesmo. Ele fica muito feliz quando se apercebe de que nós, os que vamos à sua casa, estamos a experimentar alguma modificação na vida. Essa transformação nota-se na forma como as pessoas vivem. Se a pessoa trabalha, ela será bem-sucedida. Se estuda terá um bom proveito e a sociedade em que ela vive irá perceber a sua boa conduta. Não adianta que as pessoas tenham duas faces. É muito importante cultivarmos uma única identidade porque ser cristão e louvar a Deus é seguir um estilo de vida.

Não é uma maldição, antes pelo contrário, é um modelo, um padrão que não deve ferir a sociedade e que não deve ser maculado. É uma maneira de vida segundo a qual as pessoas concorrem para a produção da solução para os problemas. Essa solução é que sejamos exemplares, segundo a palavra de Deus. Nós precisamos de ser fiéis e dignos diante do nosso Criador. Nós somos o espelho do mundo. O bom exemplo na sociedade. Por isso, é conveniente que todo o cristão que busca Deus seja uma pessoa simples e firme em relação àquilo que é ensinado.

@Verdade: Fale-nos da composição do seu trabalho discográfico. Fig Dela Virgem: O disco é composto por dez temas interpretados, abundantemente, no género Hip Hop. Portanto, é uma espécie de Rap Gospel com um pouco de fusão de Jazz. @Verdade: Como é que analisa a recepção que as músicas tiveram em 2013 quando o publicou?

Fig Dela Virgem: A experiência não me foi fácil porque se tratava da minha primeira obra. Tive imensas dificuldades quando comecei a gravar, em 2012. Muitos obstáculos decorriam do facto de que ainda não estava ambientado ao mundo do Rap Gospel. Como eu vinha a praticar o Hip Hop, há bastante tempo, na altura em que fazia parte do grupo Timbone Ta Jah, apercebi-me de que tinha uma dupla identidade – actuava na Igreja, ao mesmo tempo que, aos fins-de-semana, fazia um outro estilo musical. Foi a partir daí que compreendi que precisava de ter uma e única identidade.

Certo dia, solicitei aos meus colegas para que me concedessem uma pausa, a fim de começar a actuar neste campo do Rap Gospel. Infelizmente, os obstáculos foram imensos de tal sorte que não consegui publicar o álbum no tempo predefinido. O primeiro óbice tem a ver com o facto de que eu não estava habituado ao Rap Gospel. Não conhecia a sua métrica bem como a sua poesia. Precisava de mergulhar muito na Bíblia. Faltava-me a orientação divina porque não é possível que a pessoa ministre o ministério de Deus sem que seja ele a instruí-lo sobre os procedimentos.

É quase impossível que se faça perfeitamente o trabalho de Deus sem que Ele nos dê a inspiração. Eu tinha de definir como, onde e para quem cantar numa sociedade em que as coisas não estão muito bem definidas. Praticamente quando eu publiquei o álbum, pensei que ele devia conter 16 faixas musicais, mas, devido ao curso do tempo e as dificuldades encontradas, concluí que era muito mais importante divulgar o que se tinha, pois o atraso era de dois anos. De todos os modos, apesar de o álbum ainda não estar oficialmente publicado, no ano passado, num evento organizado no Cine África, em que participei, fiz a primeira divulgação.

As pessoas adquiriram-no e penso que estão a gostar. Entretanto, quando fiz o trabalho discográfico, não tinha o plano de vendê-lo. Como venho das ruas, sei como é a situação. Conheço muitos rappers que gravam os seus discos, promovem-nos, mas as pessoas não compram. Entretanto, como eu ainda não conhecia o mundo cristão e numa situação em que, aqui em Moçambique, as pessoas estão mais habituadas a escutar o Gospel da África do Sul, tive de enfrentar o desafio de propor a minha música.

Constatei também que a maioria dos rappers moçambicanos não é composta por pessoas que buscam Deus. São poucas as pessoas que buscam Deus. Os religiosos, por exemplo, não se dedicam inteiramente ao Gospel. Então, a questão é: como é que eu podia vender a minha música, tendo em conta que a minha missão era atingir os descrentes? Eu sei que em Moçambique a maioria dos rappers é composta por pessoas drogadas e dependentes. Muitos deles precisam de sair dessa situação, alguns já não conseguem e existem outros ainda que pensam que não têm reparo.

Então, sabendo que a música de Deus possui a libertação, acredito que a difundir esta mensagem posso contribuir para que as pessoas encontrem a cura, a fim de que saiam das malhas em que se encontram. A minha actuação é também uma forma de encorajar os jovens a apostarem no Rap Gospel porque há muita gente que aceita Cristo, mas tem vergonha de assumi-lo e manifestar essa assunção cantando Gospel. Eu senti o chamamento de Deus, e, por isso, vim para este mundo com todos os meus talentos – a música e o grafite – para difundir a sua mensagem.

@Verdade: Está a dizer que na altura em que fazia parte dos Timbone ta Jah tinha uma dupla identidade – uma cristã e outra mundana?

Fig Dela Virgem: Não é nesta vertente porque, nessa altura, eu já estava convertido, mas esse facto, em si, criava-me barreiras em relação ao Rap Gospel. Não estou a dizer que o grupo não cantava temas bons. Os Timbone sempre se dedicaram à intervenção social – o que um músico de Gospel também faz. No entanto, naquele momento eu sentia que devia fazer algo para difundir a mensagem de Deus. Algo me impunha esse activismo. Creio que um dia poderei fazer a música Gospel com os Timbone Ta Jah, porque o Nhezy já está convertido dedicando-se, de certa forma, ao Gospel. O Mukupuya também canta este género. Louvo a Deus por isso.

@Verdade: Já sabe como, quando, onde e para quem cantar?

Fig Dela Virgem: Agora que me enquadrei já sei – canto para todas as pessoas, porque a mensagem divina deve ser difundida em todo o mundo. Faço o Gospel porque há muita gente que demanda a mensagem de Deus. Há muitos rappers que precisam de ser convertidos. Com o talento que tenho, preciso de providenciar algo para eles. Sei que através do bit os rappers vão abanar a cabeça ouvindo a mensagem.

@Verdade: Como é que sabe que a maioria dos rappers moçambicanos consome drogas e que muitos deles são dependentes?

Fig Dela Virgem: Conheço as ruas em que vivi e tive condições para ser drogado. Dou graças à Deus porque durante o tempo em que me encontrava lá – pela Sua graça – não entrei nessa vida. Com as companhias que eu tive, e nos lugares onde entrei – sem a intervenção de Deus – não seria possível que eu saísse e continuasse do modo que sou. Tive muitos amigos que perderam a vida. Alguns estão a perecer. Outros desperdiçaram as suas (melhores) esposas e namoradas. Outros ainda venderam os seus bens e abandonaram a escola. Falo com sinceridade. Conheço as ruas e sei como elas são.

@Verdade: Chegou a fumar?

Fig Dela Virgem: Não. Mas fumei passivamente, porque quando se anda com fumadores corre-se esse risco. Consome-se de forma passiva.

@Verdade: Que significado tem o grafite Smoking The Holy Spirit que criou?

Fig Dela Virgem: Eu sou louco por Jesus. No meu dia-a-dia sinto-me inspirado por Ele. Quando nós precisamos de algo temos de nos apegar à palavra de Deus e investigá-la. Neste sentido, em tudo o que eu faço penso em Deus. É como se eu estivesse a drogar-me pelo Espírito Santo. Se as pessoas se drogam consumindo estupefacientes, então eu vou fazer o mesmo a consumir a palavra de Deus. Eu sou um artista – porque canto e pinto – e a arte é divina. Eu embriago-me com a graça de Deus. Não tenho vergonha de fazer algo quando sei que é para louvá-Lo. Sei que o que me estimula é o próprio Espírito Santo.

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