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Em busca do primeiro remédio milagroso

Que há de comum entre a insulina, descoberta em 1921, e os cocktails de anti-retrovirais contra a SIDA? Duas coisas: salvam vidas, mas custa uma fortuna industrializar a sua produção.

O lançamento deste ou daquele remédio milagroso é regularmente anunciado com estrondo, mas tal só acontece realmente uma ou duas vezes em cada geração. É o caso dos fármacos de sucesso, tidos como capazes de ressuscitar os mortos.

Enquanto a estreia de alguns desses produtos, como os anti-retrovirais contra a SIDA, ainda está fresca na memória, o aparecimento do primeiro deles está quase esquecido.

Trata-se da insulina injectável que, depois de muitas tentativas de investigadores do mundo inteiro, foi finalmente isolada em 1921 por uma equipa de canadianos quezilentos. Com a insulina, crianças moribundas voltavam a brincar, enquanto os pais choravam de alegria e os médicos falavam em ressurreições bíblicas. Mas o milagre ficava-se por aí: a insulina não era uma cura.

O que a insulina fez foi transformar uma patologia breve e mortal num combate longo e persistente e, tanto a exposição como o livro, Breakthrough (Descoberta), por Thea Cooper e Arthur Ainsberg, na qual este se baseia, realçam as complicadas perguntas que acompanham inevitavelmente os milagres da medicina: Quem obtém o fármaco em primeiro lugar? Quem o paga? Quem produzirá quantidades suficientes para todos? E, evidentemente, quem remunerará congruentemente os seus inventores?

Nas primeiras décadas do séc. XX, meia dúzia de diferentes grupos de investigação estava na pista da insulina, uma hormona produzida pelo pâncreas, mas difícil de ser isolada das enzimas digestivas (amílase pancreática) também segregadas por este órgão.

Sem insulina, o organismo não é capaz de utilizar a glicose, o seu principal “combustível”. A maioria das crianças diabéticas não produz insulina, enquanto os adultos portadores de diabetes tipo 2, frequentemente associada à obesidade, apresentam resistência à acção desta hormona.

A ingestão de açúcar e amido é um veneno para o diabético, entupindo a circulação sanguínea com uma quantidade de glicose que não pode ser utilizada: esta acaba por ser eliminada através da chamada urina doce (glicosúria), enquanto as células morrem literalmente à míngua no meio da abundância. Os diabéticos com defi ciência de insulina sentem sede intensa (polidipsia) e fome excessiva (polifagia), mas quanto mais comem, tanto mais rápida será a eliminação dos alimentos pela urina (poliúria).

Mesmo antes de a insulina estar disponível, os médicos já conheciam suficientemente este ciclo para compor um tratamento paliativo: os diabéticos eram submetidos a dietas à base de saladas e ovos, sem açúcar nem amido, só com as calorias indispensáveis à sobrevivência. Já magros, estes doentes tornavam- se esqueléticos, mas o excesso de glicose desaparecia do sangue e da urina e sobreviviam mais tempo do que os contemporâneos não tratados.

O dr. Elliott Joslin, cuja clínica em Boston é um célebre centro de estudo da diabetes, lembrou que, antes da insulina, um dos seus doentes sob dieta era “pele e osso”.

Outro grande especialista em dieta terapêutica era o dr. Frederick Allen, médico de Nova Iorque, hoje esquecido, que fundou um hospital residencial para diabéticos, primeiro em Manhattan e depois em Nova Jérsia.

A grande expectativa

Foi ao dr. Allen que recorreu o célebre jurista e juiz do Supremo Tribunal Charles Evans Hughes quando, em 1919, foi diagnosticada a doença à sua filha Elizabeth, então com 11 anos de idade.

Elizabeth Hughes era uma menina alegre, bonita, com metro e meio de altura, cabelos castanhos escorridos e paixão por pássaros. Com a dieta receitada pelo dr. Allen, o seu peso desceu primeiro para 30 quilos, a seguir para 24 quilos e, depois de um episódio de diarreia que quase lhe custou a vida, na Primavera de 1922, para 21 quilos. Nessa altura, tinha sobrevivido três anos, muito mais do que o previsto. Foi quando a sua mãe soube que a insulina tinha finalmente sido isolada no Canadá.

O herói improvável foi Frederick Banting. De origens rurais do Ontário bem vincadas, licenciara-se em Medicina sem distinção. Fora ferido na I Guerra Mundial e tinha mais ou menos forçado a sua entrada num laboratório da Universidade de Toronto com uma ideia sobre a forma de obter a esquiva substância.

Durante o abrasador Verão de 1921, o dr. Banting e o seu assistente Charles Best procederam a experiências em cães diabéticos, com sucesso limitado até ao cão número 92, um collie dourado, que, depois de lhe ser administrada uma injecção, saltou da mesa começando a abanar a cauda.

Entretanto, o dr. John J.R. Macleod, director do laboratório e mentor do dr. Banting, passava férias na Escócia. Banting nunca perdoou a Macleod o facto de, no Outono, ao regressar de férias, descansado e revigorado, ter assumido a direcção da investigação.

Essa acesa hostilidade persistiu anos a fio, mesmo depois da cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Medicina de 1923, à qual Banting se recusou a comparecer, pois, apesar de partilhar o prémio com o dr. Macleod, não admitia estar presente no mesmo pódio que o seu odiado colega.

Entrementes, mães de todo o mundo enviavam-lhe cartas pungentes. “Caro Dr. Banting, estou ansiosa por saber mais sobre a sua descoberta”, escrevia uma, antes de descrever o caso da filha: “Ela está num estado lamentável, esgotada e abatida”.

Quem assinava era a mãe de Elizabeth Hughes, Antoinette. Charles Evans Hughes tinha, nessa altura, deixado temporariamente o Supremo Tribunal para assumir o cargo de secretário de Estado no Governo do Presidente Warren G. Harding.

O dr. Banting, não se deixando impressionar, respondeu que lamentava muito, mas não tinha insulina disponível. A verdade era que a equipa não conseguia produzir mais do que para uma mão-cheia de doentes. No entanto, passadas umas semanas, Banting mudou de ideias.

Forças superiores intervieram provavelmente, ou talvez o próprio juiz Hughes – um homem severo e sisudo, a quem Theodore Roosevelt tinha alcunhado de “icebergue barbudo” – tenha puxado os cordelinhos. Seja como for, Elizabeth pôs-se rapidamente a caminho de Toronto e das injecções salvadoras.

Seria o fim da sua jornada, mas apenas o início para muitas outras crianças sem “cunhas”, que tiveram de aguardar enquanto os cientistas canadianos discutiam acaloradamente sobre a maneira mais justa de distribuir as pequenas quantidades desta substância susceptível de salvar vidas.

O dr. Banting ainda deixaria um dos seus colegas com um olho negro antes de dar o assunto por encerrado. Finalmente, o laboratório farmacêutico Eli J. Lilly and Co., de Indianápolis, conquistou o direito a produzir insulina em grande escala. Foi o primeiro acordo celebrado entre académicos, médicos e a indústria farmacêutica.

Quase no final do século, quando as primeiras quimioprofi laxias prescritas aos doentes com SIDA começaram a salvar vidas de forma, também ela, aparentemente milagrosa, o dr. Kent Sepkowitz, especialista em doenças infecto-contagiosas no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center de Nova Iorque, debruçou-se sobre a literatura que relatava a descoberta da insulina e encontrou muitas semelhanças entre as duas eras. “De certa forma, a descoberta é a parte fácil”, disse. “Depois dela, começa o trabalho a sério.”

Tanto no caso da insulina como no dos medicamentos para o tratamento da SIDA, o grande desafi o era “o caminho a percorrer”, explicou o dr. Sepkowitz. O custo e a logística, associados à produção da insulina em grande escala, eram inicialmente assustadores.

Mas não decorreu muito tempo até que grandes carregamentos de carne congelada e pâncreas de porco saíssem dos gigantescos matadouros de Chicago em direcção à fábrica da Lilly. Em 1932, o preço do medicamento tinha caído 90%. Entretanto, a ideia de admitir que os doentes fizessem, eles próprios, a análise da concentração de glicose na urina e calculassem as doses de insulina foi problemática para muitos médicos.

A diabetes era a primeira doença que os forçava a ceder parte da decisão médica ao doente, disse Jean Ashton, um dos curadores da exposição. Com a insulina, o diabético adquiriu, subitamente, tanto o direito, como a responsabilidade, de gerir a sua própria saúde.

Algumas das crianças que receberam insulina pela primeira vez tornaram-se grandes defensores dos direitos dos diabéticos, fazendo intervenções públicas até uma idade muito avançada. Não foi o caso de Elizabeth Hughes: fugiu na direcção oposta, para bem longe das manchetes nos jornais que, por breves momentos, a tinham convertido na mais famosa criança diabética dos Estados Unidos.

Apesar de ter recebido cerca de 42 mil injecções de insulina até morrer, em 1981, aos 74 anos de idade, destruiu sistematicamente a maioria do material que documentava a sua doença, eliminou todas as referências à diabetes da biblioteca paterna e chegou, ocasionalmente, a negar ter estado doente em criança.

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