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Editorial – Contradições

Nas últimas três semanas, a violência, e a consequente insegurança, têm pautado o quotidiano da capital deste país. Para além do incremento de assaltos a casas comerciais e a residências particulares, o assassínio em série de agentes da Polícia de Investigação Criminal (PIC) não pode deixar ninguém indiferente.

São, salvo erro, oito, o número de agentes mortos em menos de um mês. Hoje, mais do que nunca, pertencer a esta instituição de segurança é sinónimo de ter a cabeça a prémio. Não faço a mínima ideia de quantos agentes tem a PIC mas em termos percentuais são, indubitavelmente, a classe profissional com o mais alto índice de mortalidade deste país. Dir-me-á o leitor que “quem anda à chuva molha-se” ou que “são ossos do ofício”. É certo que estes agentes de segurança são os mais atreitos, pela idiossincrasia dos casos – vêem parar-lhes às mãos sempre os mais delicados -, a sofrer assassínios mas tanto não.

O isco utilizado para atrair os infelizes tem sido quase sempre o mesmo: uma chamada de telemóvel, combinando a hora e o local fatídicos. A esta chamada para a morte segue-se um descarregar de metralha que deixa o alvo crivado de balas – num dos casos chegaram a ser oito só na cabeça. A raiva parece ser cega, semelhante às máfias de Chicago dos anos 20, à Camorra siciliana ou às tríades chinesas.

Não faço ideia das causas que estão por trás, mas os ajustes de contas parecem estar na ordem do dia. Soa muito a incumprimento de promessas e quebras de confiança. Esta semana ouvi na televisão alguém dizer que esta instituição – referindo-se à PIC – estava pobre por dentro e que estas mortes nunca iriam ser esclarecidas.

Na sexta-feira, no dia seguinte à morte de mais três agentes – dois morreram no local do tiroteio e um veio posteriormente a falecer no hospital -, ouço uma porta-voz da PRM dizer, com uma convicção destemida, que a instituição iria fazer tudo para capturar os bandidos a monte, mostrando grande confiança na sua prisão. Pouco tempo depois, na rádio nacional, numa clara contradição com as declarações da porta-voz, escuto atónito a notícia: “Polícia não confirma tiroteio de ontem à noite nas barracas do Museu.”

Como, e sobretudo porque, se negam evidências? Não foram mortos dois agentes seus? Não ficou outro gravemente ferido? O bairro todo e arredores não ouviu os tiros? O que é que se pretende esconder? Nos dois noticiários seguintes mais do mesmo. Mas, desta vez, ao contrário do que sucedeu com as três negas de S. Pedro em relação a Cristo, o galo não cantou. Ainda era cedo demais para amanhecer.

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