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É só fumaça! E se não fosse…

Separe-se a diplomacia da Justiça

Quando na passada quarta-feira, por volta das 10 horas, estacionei o carro na Vladimir Lenine, bem antes do encontro desta com a 24 de Julho, já o fumo saía com enorme intensidade dos pisos superiores do edifício da Direcção Nacional de Contabilidade Pública e Orçamento, departamento sob alçada do Ministério das Finanças.

 

À medida que ia caminhando em direcção à Baixa, com o trânsito já cortado pelo aparato, o número de mirones aumentava, dificultando a passagem. Já perto do local ouvi: “É só fumaça!” Lembrei-me imediatamente de uma célebre frase do PREC português de 1975, quando Portugal vivia tempos agitados pelos ventos da liberdade que Abril, um ano antes, havia trazido. Pinheiro de Azevedo – que ficou carinhosamente conhecido pelo Almirante sem Medo – encabeçou o sexto Governo Provisório, pondo fim ao consulado de Vasco Gonçalves, figura muito próxima do Partido Comunista. O Almirante ficou célebre pelas suas tiradas. Por esses dias convocou, em apoio ao seu Governo, uma manifestação para o Terreiro do Paço, o centro do poder da capital portuguesa. A dada altura, no meio da multidão que enchia a praça, rebentou um petardo, depois outro e ainda outro. Pinheiro de Azevedo assomou à varanda e berrou a plenos pulmões: – “O povo é sereno”… é só fumaça! Não tenham medo. É só fumaça.”

Efectivamente, tal como o episódio de Lisboa, em 1975, também na semana passada no departamento do Ministério das Finanças foi só fumaça. Mas e se não fosse só fumaça? Se fossem mesmo chamas com labaredas enormes, daquelas que se propagam num ápice, principalmente quando encontram terreno fértil como era o caso do edifício em causa que utiliza materiais facilmente inflamáveis? Foi milagre disseram muitos. Se não fosse o “milagre”, digo eu, teriam morrido pelo menos sete dezenas de pessoas. A avaliar pela gritante falta de meios de salvamento, a avaliar pela total falta de coordenação, a avaliar pelo atarantamento dos responsáveis, claro que o povo não podia estar sereno, principalmente os que tinham familiares lá encurralados. Eu também, no lugar deles, não estava. Por sorte, ao invés do que diz o ditado, desta vez houve fumo sem fogo.

Do Serviço Nacional de Bombeiros (SNB) – a designação não passa de um eufemismo, já que de serviço tem muito pouco e de nacional não tem rigorosamente nada – viu-se um dos dois carros operacionais que a instituição possui e gente em número suficiente para uma situação deste tipo, mas sem o mínimo de material e de preparação que a ocasião impunha. Aliás, grande parte do material indispensável ao socorro das vítimas, como cordas, picaretas, alavancas e máscaras foi emprestado pela loja vizinha. “Não tinham praticamente nada”, segredou-me um funcionário daquele estabelecimento. Não fora também a equipa de bombeiros da Mozal, essa sim bem preparada e bem equipada – colocou inclusivamente um helicóptero à disposição para o resgate das vítimas –, ambulâncias privadas e o carro dos Aeroportos de Moçambique e a coisa poderia ter sido bem pior. Ficou a sensação que com os nossos “soldados da paz” não se ia a lado nenhum.

E tudo isto ocorreu numas das ruas principais da capital. Imaginem só se isto tivesse acontecido num departamento qualquer do Xai-Xai, área sob jurisdição do SNB, cuja delegação mais próxima fica a 200 quilómetros, ou seja, precisamente aqui em Maputo! Urge efectuar uma séria, responsável e profunda reforma no SNB. Não basta comprar mais dois carros e umas picaretas. É necessário repensá-lo de alto a baixo, privilegiando a formação e a profissionalização das forças para que no futuro o cidadão tenha confiança nos soldados da paz. É que nos últimos tempos, do paiol, passando pela Catembe até aos ministérios, as provas de eficácia dadas por eles são praticamente nulas. E cuidado porque, ao contrário do sucedido na semana passada, normalmente o fumo e o fogo são unha com carne.

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