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Duas mulheres, duas vidas

Duas mulheres

Uma é um dos rostos mais visíveis entre as mulheres empresárias nacionais: chama-se Esperança Mangaze e tem 46 anos de idade. A outra é Amélia Macuácua, de 59 anos, vendedeira de amendoim no mercado de Xipamanine, e é apenas mais um rosto de mulheres no “informal” em busca de sustento para a sua família. Mas ambas têm algo em comum: além de serem moçambicanas, nasceram no meio rural. @Verdade acompanhou as suas vidas por ocasião do 7 de Abril, dia da mulher moçambicana.

Num dos bairros com menor poder de compra da cidade de Maputo, Amélia Macuácua, de 59 anos de idade, vive do que o sacrifício garante. Ou seja, com mais ou menos esforço há sempre alguma coisa extra que minimiza os buracos que o magro orçamento doméstico deixa. Contudo, o que se leva à boca não chega ao fim do mês. Amélia é casada, tem sete filhos e 20 netos. Há mais de 15 anos, ganha a vida no mercado de Xipamanine.

O dia ainda não se decidiu a nascer e a dona Amélia já está de pé. Mora no Quarteirão 7, no bairro de Minkadjuine. Todos os dias, levanta-se às cinco da manhã para fazer as tarefas domésticas, antes de se deslocar ao seu posto de trabalho. Ela desconhece aconchegos, pois a sua vida foi sempre pautada por todo tipo de privações.

São seis da manhã, a hora de partir para vender no mercado de Xipamanine, e leva na cabeça um saco de amendoim. Sai de casa andrajosamente vestida. Àquela hora o bairro já está acordado, não há lugar para vergonhas. Aliás, “ganhar a vida com suor não é vergonha”, explica. Cumprimenta os vizinhos e ruma ao local onde ganha o sustento diário. E só regressa quando o sol se vai deitar.

A receita, que lhe ‘engorda’ o rendimento mensal inferior a dois mil meticais, garante o sustento da própria e de mais de cinco pessoas: o marido e dois filhos, um dos quais com dois filhos e esposa. Os outros cinco filhos estão casados e vivem nas suas respectivas residências.

“Vivemos do que eu e o meu marido ganhamos. Os meus filhos não trabalham, vivem de biscates. A vida não está nada fácil”, desabafa com olhar fugidio. Os dias são mal passados porque a renda familiar não “dá para nada”. Os biscates dos seus filhos rendem algum dinheiro, mas nenhum serve para engordar o pobre orçamento doméstico. Amélia não se queixa, já se acostumou com a ideia de ser mão para sempre e a não esperar nada dos filhos.

Na família Amélia, só ela é o esposo é que tentam fazer alguma coisa para engordar o orçamento mensal, mas, diz, “as coisas não são fáceis”. Esta é uma família paupérrima, que vive, basicamente, do “amanhã Deus dará”. Mais do que a crise de combustíveis e cereais a nível internacional, é aos governantes que Amélia imputa a culpa pelas compras de miséria.

Adquire um produto por dia para aproveitar os descontos. A carne fica reservada aos dias de festa, sempre no fim do ano. Ontem, dia 7 de Abril, dedicado à mulher moçambicana, Amélia não mudou um centímetro da sua rotina diária. “A pobreza não muda nessas datas”, afirma.

É casada com Alfredo Sitoe, de 67 anos, e, apesar da idade, ambos não se deixam vergar diante das dificuldades da vida. O seu marido trabalha no sector da limpeza, na Escola Secundária Eduardo Mondlane e aufere um salário mínimo de dois mil meticais.

O valor chega apenas para obter uns quilos de arroz, peixe de terceira, e pagar a conta de água e luz. Entretanto, cabe à senhora garantir o caril e o carvão durante o mês.

O seu marido, Sitoe, é da época em que a cabeça dos jovens era inundada pelo sonho de rumar às minas da África do Sul, todavia, a aventura da emigração nunca lhe rimou nos ouvidos. Lá para as terras do rand, Amélia já não se lembra de quantos homens viu partir, mas Sitoe foi muito pouco.

“Duas ou três vezes, mas não tenho tanta certeza”, afirma e acrescenta: “primeiro, foi até Nelspruit, com uma muda de roupa, para trabalhar nas ‘farms’, não deu certo e voltou para casa. Depois, foi novamente, levou mais de dois meses e regressou. E isso nunca mais voltou a acontecer”.

Embora as privações de alimentos agudizem diariamente, Amélia não alinha nos queixumes da velhice e tão-pouco o facto de a vida nunca lhe ter sorrido, mas pedir-lhe para falar dos seus filhos abala-lhe a estrutura. “Os filhos que já não estão a viver comigo não me ajudam em nada”, queixa-se.

Mas as lágrimas invadem os seus olhos quando se lembra do seu filho mais novo. Ele tem apenas 24 anos de idade, e encontra- se na prisão há dois meses e deixou uma mulher grávida. “Não sei quando é que ele irá sair da cadeia. A mulher não trabalha e não sei como será o futuro do meu neto que está para nascer”, questiona-se.

O filho estava quase a terminar a 12ª classe, aliás, faltam-lhe apenas duas disciplinas por fazer. Não comenta as razões que levaram o seu filho a parar numa cadeia. “Não gostaria de falar sobre esse assunto”, diz como os olhos inundados de lágrimas que insistem em sair. Com o nascimento de mais um membro na família, Amélia contará com 21 netos.

Não tem dia de descanso, até porque as dificuldades por que passa não permitem. Todos os dias, é obrigada a ir vender no mercado para garantir o sustento da família. “Quem me vê pode pensar que estou bem, mas o meu interior está mal por causa da difícil situação em que vivo”, diz disfarçando um sorriso.

Apesar da pobreza e do trabalho de escravo para levar comida à boca dos seus, dona Amélia não deixa de sonhar, embora sem fé no futuro: “as coisas um dia vão melhorar”, vaticina e acrescenta: “na verdade, já não tenho mais esperanças, pois, uma vez não contando com o apoio dos filhos, resta-me apenas fazer a gestão diária com o pouco que ganho”.

Já tentou contrair um empréstimo num banco de microcrédito, amortizando-o em prestações progressivas, confiantes de que a vida melhoraria. Inutilmente. O negócio simplesmente não prosperou e já não tinha dinheiro para pagar a mensalidade do banco.

Presentemente, o dinheiro que diariamente amealha não é suficiente para custear as despesas. Tudo porque as vendas não vão bem e o negócio não é rentável, além de, em muitas situações, o saco de amendoim pesar menos do que deveria. “Posso ficar uma semana só para vender um saco de amendoim, se pudesse mudava de negócio, mas não tenho dinheiro”, comenta.

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