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Dos campos de futebol a saque restam “flats” e terraços para jogar

Dos campos de futebol a saque restam “flats” e terraços para jogar

O “esquema” é idêntico um pouco por todo o país. Convoca-se uma assembleia geral (AG) fantasma para deliberar sobre a troca de um certo recinto desportivo degradado, em zona privilegiada da vila ou cidade, por um campo algures, com a promessa de relvado e bancadas. Por fora ganham alguns “espertinhos” da direcção, o município entra na jogada – nem sempre só para assistir – e à comunidade a notícia é dada como um ganho. Do campo que existia ao pé de casa obteve-se um outro num lugar recôndito. Sobre o tempo e as formas de deslocação para se lá chegar não rezam os contratos. Assim, os jovens que tinham por perto a possibilidade de jogar à bola e assistir a jogadas dos mais velhos no fim-de-semana têm de escolher outra forma de passar os tempos livres.

O resto, já sabemos ou calculamos. Nascerá mais um prédio, um condomínio, um parque de estacionamento de viaturas, um supermercado, um armazém para vender roupa em segunda mão – vulgo “calamidades” – um salão de cabeleireiro para a difusão e tratamento de “tissagens”, um “take-away” e por aí fora. Do resultado desta prática que reflecte uma boa dose de anarquia e apatia por parte das autoridades, da falta de um plano rígido de urbanização e reordenamento territorial que contemple áreas de lazer, campos de jogos e jardins, já há resultados palpáveis e repugnantes no que à saúde física e moral diz respeito: obesidade juvenil, deficiências motoras e até hipertensão precoce.

Aliás, as pessoas que, contra todas estas adversidades, persistem em praticar exercícios físicos, fazem-no em lugares impróprios, tais como as bermas ou os passeios das vias rodoviárias e em situações extremamente perigosas devido ao risco a que estão expostas de se envolverem num acidente de viação. São “facturas” a serem pagas em todo o país a longo prazo, tanto no que toca à saúde pública, em geral, como no que diz respeito ao rendimento desportivo, muito em particular. E as promessas de construção de campos com bancadas e relva ficam- se pelo papel.

Nampula no topo das inquietações

Esta província será apenas uma entre muitos casos pelo país fora. A cidade de Nampula, que contava com 20 recintos desportivos, viu os mesmos serem reduzidos a metade. Em grande parte deles praticava-se futebol e atletismo, mas, agora, estão, paulatinamente, a ser extintos para dar lugar a obras de indústria hoteleira, estabelecimentos comerciais, parques de estacionamento de viaturas, entre outras actividades. Os interesses económicos estão, claramente, à frente de quaisquer proveitos desportivos.

São exemplos desta dura realidade para os praticantes e amantes do desporto os campos Carvalho Durão, localizado no bairro Mahivire, propriedade do Benfica de Nampula, vendido ao Grupo Sonil que o transformou em estabelecimento comercial; Estádio 25 de Setembro, do Conselho Municipal da Cidade de Nampula, atribuído ao Grupo Royal Plastics; o campo do bairro de Carrupeia, que foi transformado em mercado de peixe.

Cenário do género estende-se ao campo de Natikiri, espaço onde actualmente funciona o mercado grossista e retalhista de Waresta; o antigo Campo das Formigas, localizado na zona dos limoeiros, bairro central da cidade de Nampula, que deu lugar à construção do Hotel Executivo. Mas há mais: nos bairros de Natikiri, Napipine, Muatala e Namicopo, um número considerável de campos está a ser invadido pelos populares para dar lugar à construção de habitações, sob o olhar impávido das autoridades municipais.

De campo de salão a parque de estacionamento

Por insensibilidade da edilidade, o campo verde localizado junto às instalações do Conselho Municipal da Cidade de Nampula, que acolhia partidas de voleibol, foi transformado em parque de transportes da edilidade. E nem o facto de este recinto, que “gerou” a equipa de voleibol da Autoridade Tributária de Nampula, campeã nacional da modalidade em seniores masculinos e representante da Zona IV no Africano, refreou os apetites daqueles que empreendem esforços no sentido de extinguir os sítios em causa. Ali se produziram vários atletas, com destaque para a bi- -campeã nacional de ténis, Palmira Intipa.

APAN tem a palavra

O secretário-geral da Associação Provincial de Andebol de Nampula, Celso Capepa, considera que a falta de infra-estruturas com que a cidade se debate pode comprometer a evolução e o desenvolvimento de várias modalidades desportivas naquele ponto do país. À semelhança de Chapepa, José Sarajabo, vice-presidente para a alta competição na Associação Provincial Futebol de Nampula, diz que está preocupado com o cenário, porque se retrocede o desporto na província.

Ele afirma que tal facto se deve à ausência duma legislação que proteja os campos de futebol e que trate de situações relacionadas com a venda e/ou transformação, em particular, dos recintos desportivos dando-lhes outros destinos. José Sarajabo vai mais longe ao afirmar que “alguns campos desportivos são propriedade de alguns clubes, à excepção dos recintos públicos. Daí que as direcções sejam livres de fazer o que bem entenderem deles. Mas tal facto constitui preocupação para os amantes do desporto. Assim, apelo ao Governo para que encontre formas legais com vista a inverter este cenário”.

DPJD reconhece o saque

Por seu turno, Rita Muitha, chefe do Departamento de Desportos na Direcção Provincial da Juventude e Desporto (DPJD) de Nampula, reconheceu que têm estado a desaparecer infra-estruturas desportivas nesta parcela do país, sobretudo na capital provincial, onde estas são vendidos para dar lugar à construção de centros comerciais, por exemplo, devido ao “boom” económico que se regista nos últimos tempos.

Aliás, a disputa de espaços tem vindo a ganhar terreno, daí que os recintos desportivos não sejam poupados no negócio. Sem avançar dados numéricos dos campos desportivos transformados em complexos turísticos, Rita Muitha disse que desde Julho passado se está a proceder ao levantamento de infra-estruturas desportivas e a avaliar o respectivo estágio com vista à sua reabilitação.

Resgate de campos desaparecidos

De acordo com Zuber Boa Vida, director do Departamento de Desportos do Conselho Municipal de Nampula, a situação é grave, mas a sua instituição tem em carteira planos de resgate e reabilitação de pelo menos cinco recintos desportivos ainda este ano: os campos da Texmoc, no bairro de Napipine; de Textáfrica, no bairro de Muatala e outros em Namiepe e Marere. Mesmo sem revelar os custos e detalhes do programa para a efectivação das obras em alusão, Boa Vida deu a conhecer que antes do fim do mandato do seu elenco serão construídos e reabilitados pelo menos 20 campos de futebol polivalentes, um pouco por todos os bairro da cidade de Nampula.

 

Extinção de campos tira sono aos citadinos da capital do país

Diversos espaços que no passado eram usados para a prática de actividades desportivas estão a desaparecer na cidade de Maputo para dar lugar a infraestruturas comercias, o que deixa os citadinos desta urbe de costas voltadas com as estruturas locais e com a edilidade. O Campo de Inafrio, no bairro do Bagamoyo, que no passado funcionava a escola de jogadores “O golo de vitória”, desde 2011 em vez de futebol serve com salão de festas, sendo que em 2010 a seleção do Brasil quem em 1994 conquistou o Campeonato do Mundo realizado nos EUA, deslocou-se à Maputo com vista a angariar fundos para o funcionamento da mesma.

A nossa equipa de reportagem deslocou-se ao bairro do Bagamoyo para saber o que decerto aconteceu para que o campo que no passado produziu talentos que hoje despontam no Moçambola, deixou de servir o desporto para acolher festas de arromba.

O actual secretário do bairro Bagamoyo, Luís Chembene, declarou que não sabe o que aconteceu para que o espaço deixasse receber actividades desportivas, afirmando que ocupou o cargo naquele bairro à pouco tempo. Mas por lado tentou tapar o sol com a peneira afirmando que já esta em andamento o processo de devolução do recinto para as actividades desportivas.

?O processo de atribuição do terreno ao dono do Arena não foi legal, por isso, o Conselho Municipal da cidade de Maputo decidir devolver o espaço aos munícipes” disse Chembene Segundo o que o @Verdade apurou no local, as tendas que funcionavam com salão de festas foram removidas “nos próximos dias vamos fazer as demarcações do campo e colocar marcos para que o mesmo volte a ser palcos de jogos, assim como era no passado” disse Chembene Edmilde Miguel de 17 anos, residente naquele bairro, não se conteve de alegria quando ouviu que o campo da Inafrio voltaria a servir o desporto em detrimento de salão de festas. “Já não precisamos percorrer grandes distâncias para jogar futebol, as tendas foram removidas e em breve vamos começar a jogar isso é um alívio para os jovens de Bagamoyo”

Laulane sem espaços para acolher actividades desportivas

O campo “Bico Rico” localizado no bairro de Laulane, arredores da cidade de Maputo, que no passado acolhia jogos do Torneio Infanto-Juvenil Bebec, hoje em dia encontra-se vedado e com guardas para proibirem os jovens daquele bairro a frequentar o mesmo. O @Verdade deslocou-se ao local para se inteirar do assunto, constatou-se que o mesmo já não tem balizas e não possui condições para a prática de futebol.

Segundo um dos guardas do campo em causa, ainda não se sabe o que será erguido naquele espaço, mas o mesmo falou a nossa fonte de reportagem que o mesmo foi vendido pelas estruturas locais. Jaime de Sousa Níquisse Chefe de habitação do bairro de Laulane, declarou que naquele bairro não há espaços para campos de futebol, pelo que o secretariado local ainda está a procura de espaço para um posto policial e um posto de saúde, pelo que não pode comentar a extinção do espaço em causa.

“Sobre o campo não tinho nada a tecer, só sei que o mesmo foi vendido pelos donos” Para jogarem futebol os jovens recorrem-se ao campo da Escola Primaria de Laulane, mas o mesmo já não tem grandes dimensões, pelo que uma parte do espaço foi usado para construir salas de aulas, restando espaço para as aulas de educação física. “Os espaços que no passado eram usados para a prática do desporto estão a desaparecer no bairro, já não temos campos, somos obrigados a jogar futebol nas ruas e isso coloca em causa a nossa integridade física, porque dividimos o espaço com os carros” disse Óscar Benjamim, jovem de 28 anos de idade.

Bairro 3 de Fevereiro enfrenta mesmo dilema

Já no bairro 3 de Fevereiro os jovens estão de costas voltadas com as estruturas locais e com a edilidade por terem vendido o espaço que no passado era usado para a prática de actividades desportivas. O complexo desportivo em causa acolhia modalidades como karate, basquetebol e futsal. Mas a dois meses atrás os moradores foram surpreendidos por um empreiteiro chines a iniciar obras sem aviso prévio. O que deixou os jovens daquele bairro atónitos, porque aquele era o único espaço que o bairro tinha para a prática do desporto.

A nossa equipa de reportagem tentou ouvir as estruturas locais para saber o que terá motivado a venda do espaço, mas as nossas aspirações foram “sol de pouca dura”, porque o secretário do bairro não se encontrava no seu gabinete e, ninguém podia prestar qualquer declaração sobre o assunto. Alfredo Fernando de 23 anos de idade mostrou-se preocupado com extinção dos recintos desportivos na capital do país.

“É lamentável a cada ano que passa estão a desaparecer os espaços que no passado serviam o desporto, já não temos aonde brincar e isso pode levar muitos jovens a pautar pelo álcool e consumo de drogas, pelo que já não espaço jogar futebol ou basquetebol”

“Não há formação nos escalões de iniciados em Nampula”

O treinador do Sporting de Nampula, Usaras Mohamed, considera que o futebol moçambicano, com particular destaque para o de Nampula, perdeu o seu valor na área da formação, devido à falta de sensibilidade dos dirigentes dos clubes desportivos no país. Mohamed diz que há dirigentes que entraram para o desporto para tirar proveitos pessoais, relegando para último plano os projectos da colectividade, razão pela qual se observa, em muitos clubes, a falta de movimentação dos escalões de formação, o que seria benéfico para a identificação de talentos.

“Os clubes hoje já não formam, apenas pega-se em meia dúzia de crianças sem as devidas condições para um praticante de futebol para justificar que movimentam escalões dos petizes. No meu tempo, quando ajudei a formar Tico-Tico, Dário Monteiro e outros, existiam dirigentes com projectos sérios, mas as pessoas não souberam acarinhá- los”, disse.

O técnico de Sporting de Nampula afirmou ainda que os gestores do desporto-rei pecam por não introduzirem competições nos escalões de formação na província de Nampula, uma situação que se estende um pouco por todo o país. O nosso interlocutor defende, por outro lado, a necessidade de se investir nas formações de atletas daquela modalidade desportiva.

“De onde é que vão sair os atletas que vão dar forma às nossas equipas de futebol, se não há formação?”, questionou, acrescentando que os pais e encarregados de educação nada fazem no acompanhamento dos seus filhos, sobretudo aos que abraçam a modalidade.

Por seu turno, Faza João, treinador da camada de iniciados do Ferroviário de Nampula, avalia de forma negativa a formação na província de Nampula, pelo facto de haver muita falta de interesse por parte dos clubes e da Associação Provincial de Futebol de Nampula (APFN). De acordo com João, em Nampula existem apenas três clubes que apostam seriamente na formação, nomeadamente o Ferroviário de Nampula, Benfica e a Casa Issufo.

“No ano passado, não se realizou o Campeonato Provincial de Juvenis e Juniores, apesar de termos inscrito as nossas equipas. Não recebemos nenhum esclarecimento por parte da APFN sobre as causas que ditaram a não realização desta importante prova, e os petizes ficaram desanimados; alguns até chegaram a abandonar o futebol.

Nesta época, arrancaram, recentemente, os campeonatos em juvenis e iniciados, mas receio que venham a chegar ao fim, pois as equipas são poucas e algumas já nem sempre comparecem aos jogos”, disse. João afirmou que, no âmbito da massificação, a alternativa tem sido envolver as suas equipas nos campeonatos recreativos. O nosso interlocutor acrescentou, ainda, que com o desaparecimento dos espaços onde se praticava o desporto, que se encontravam localizados um pouco por todos os bairros na cidade de Nampula, tal contribuiu, de forma significativa, para a desmotivação dos petizes.

“Os miúdos aprendem a dar os primeiros toques no bairro, mas cá na cidade de Nampula não temos espaços; dos poucos que existiam tiveram outros destinos, foram transformados em mercados, lojas, hotéis, casas, entre outros, e as estruturas de direito não se preocupam com o desporto”, disse. João Luís, da Associação Provincial de Futebol de Nampula, explicou que a problemática de formação nos clubes que movimentam diferentes modalidades desportivas em Nampula agrava-se a cada ano que passa, tendo apontado a falta de vontade para o desenvolvimento do desporto por parte de dirigentes, Governo, pais e encarregados de educação, como a principal causa.

“Os miúdos precisam apenas de umas sandes de ovo, um refresco e uma garrafa de água. Num clube com cerca de 15 atletas, o gasto para um jogo não vai para além dos 500 meticais. E, por outra, os pais e encarregados de educação não se preocupam com os seus educandos quando estes abraçam o desporto, mesmo que comparticipassem com um par de sapatilhas”, afirmou. Luís disse ainda que a falta de espaços para a realização de partidas constitui outra dor de cabeça para a massificação do desporto em Nampula. “Todos os campos já foram vendidos; os miúdos são obrigados a percorrer longas distâncias para realizarem jogos, e isso é desencorajador”, disse a terminar.

Campo do Têxtil de Púnguè torna-se parque de estacionamento

Na zona centro de Moçambique, os adeptos e simpatizantes do Têxtil de Púnguè acusam a direcção deste clube de ter entregue, de bandeja, todas as infra-estruturas desportivas que o clube possuía desde a sua fundação, em 1943. Os bens do clube foram perdidos entre 2000 e 2003, altura em que o Governo os vendeu em hasta pública à companhia fabril, sem no entanto salvaguardar a componente desportiva.

Mucuate Carimo, adepto dos fabris e residente no bairro da Manga, acompanhou @Verdade até ao espaço onde se localizava o campo que foi transformado num parque de estacionamento de camiões de carga da empresa Transcom Sharaf. Ele manifestou a sua preocupação com a situação que o clube vive, em virtude de não possuir um campo próprio para treinos nem para realizar jogos oficias.

“É preocupante e até vergonhoso um clube como o Têxtil de Púnguè não ter campo para treinar. Agora, a colectividade depende de terceiros para efectuar os seus jogos. Para treinar usa o campo do Matadouro, facto que contribui para que o clube não movimente escalões de formação”, disse o nosso interlocutor.

Ainda na cidade da Beira, alguns desportistas ficaram desprovidos de recintos desportivos e certos cidadãos ficaram sem espaços para realizar exercícios físicos a partir da altura em que o campo da extinta Moçambique Industrial, actualmente designada Capital Food – empresa que se dedica ao fabrico de sacos e processamento de farinha de trigo – passou a tomar conta das instalações.

A nossa Reportagem soube de alguns dirigentes e desportistas que, há quatro anos, a companhia acima referida proibiu o uso daquele campo, acto que foi seguido pela retirada de balizas e presença de agentes de segurança para vigiarem o espaço. Algumas pessoas entrevistadas pelo @Verdade afirmaram que as estruturas municipais foram informadas sobre a necessidade de se reaver o recinto desportivo em alusão, mas até o presente nada de concreto foi feito. O silêncio da edilidade da Beira e de outras entidades directa ou indirectamente envolvidos no assunto está a ser preocupante.

Conselho Municipal da Beira faz promessas

Samuel Mateus, chefe do pelouro da Juventude e de Desportos no Conselho Municipal da Beira, disse à nossa Reportagem que o caso do campo do Têxtil de Púnguè, por exemplo, não está sob a alçada da edilidade, uma vez que a antiga fábrica foi vendida pelo Governo em hasta pública, devido a problemas de sustentabilidade.

“A nossa responsabilidade é atribuir um terreno para que o Púnguè possa construir um novo recinto desportivo, mas é preciso que estejam organizados para o efeito”, disse Samuel Mateus, acrescentando que no que tange ao campo da Capital Food “não temos conhecimento da interdição de uso por parte dos munícipes. Vamos investigar para percebermos o que está a acontecer…”

Outro recinto desportivo extinto, na Beira, é o ex-campo de Macúti, onde foi construída a sede da UNIZAMBEZE. Sobre este caso, Samuel Mateus explicou que houve um acordo entre o Conselho Municipal da Beira e a instituição de ensino e seria encontrado outro terreno para as duas partes construírem um novo campo melhorado e com relva, o que não até o presente não passa de promessa.

Moradores do Aeroporto “B” em alvoroço

Os citadinos do bairro do Aeroporto “B”, na capital moçambicana, ficaram surpreendidos, na manhã de um certo sábado, em Julho passado, ao receberem a notícia de que o campo de Zixaxa iria ser vendido. O secretário daquele bairro, Francisco Machel, foi acusado de estar envolvido no caso em conluio com a uma ex-vereadora do Distrito Municipal KaMpfumo.

“Não vamos deixar que se venda este campo, pois é importante para a comunidade. Ocupa os jovens nas horas vagas. Os espaços para a prática do futebol estão a saque. Há meses que se tenta vender o campo de Zixaxa, mas o povo não permitiu”, disse Justino Mondlane, residente na cidade de Maputo.

Alguns moradores do Aeroporto “B” e desportistas inconformados com a situação fizeram um abaixo-assinado contra a pretensão de venda daquele recinto desportivo. Entretanto, o secretário do bairro, Francisco Machel, refutou as acusações que pesam sobre si e alegou que o campo nunca esteve à venda.

“O campo não está e nunca esteve à venda, são alegações de um punhado de gente de má-fé. Aquele espaço pertence à comunidade. As pessoas procuram problemas onde não existem”, disse Machel, acrescentando que a edilidade prometeu disponibilizar dinheiro para a colocação de relva e bancadas, bem como para a melhoria das condições de uso.

 

Treinadores preocupados com a extinção de campos em Moçambique

A formação de um jogador não começa no clube mas sim nos bairros. Contudo, nos últimos dias, os campos que no passado serviram para a prática de desporto tendem a desaparecer para darem espaço a infra-estruturas comercias, facto que deixa os treinadores de futebol preocupados, porque estas áreas serviam de “canteiras” para os clubes e para a selecção nacional.

Segundo Augusto Matine, seleccionador nacional na categoria dos sub-20, os sítios que no passado viram nascer jogadores como Dominguez, Mano, Faife, Tico – Tico e muitos outros que no presente passeiam a classe nos relvados nacionais e internacionais têm vindo a desaparecer para dar lugar a supermercados e dumba-nengues, o que de certa forma põe em causa o desenvolvimento do futebol em Moçambique.

“É triste ver essa pouca vergonha. Os locais que no passado eram usados para a prática das actividades desportivas no presente tornaram-se supermercados e outras infra-estruturas que não têm nada a ver com o desporto e isso é preocupante. No passado fazíamos corridas de 800 e 2000 metros nos nossos bairros, mas isso hoje em dia não acontece porque os tais campos deram lugar a outras coisas e essas atitudes contribuem para que os jovens trilhem caminhos errados, porque já não têm espaços para praticar desporto” Indo mais longe, Matine afirmou que a falta de locais para a prática de desporto contribui para o crescimento dos índices de criminalidade, consumo de drogas e alcoolismo.

“Com o desaparecimento dos campos de futebol estamos a criar bandidos, porque os jovens já não têm lugar para brincar e enveredam por caminhos que não constituem boas práticas” Para o seleccionador nacional dos sub-20, como forma de resolver este problema, os vereadores deviam ter em conta que o desporto pode ser um vector importante para o desenvolvimento de uma nação “Esses vereadores não têm cultura desportiva. Eles assumem que são vereadores do Desporto, mas sem nenhuma capacitação para o cargo que vão ocupar”.

Por seu turno, Chiquinho Conde, antigo capitão dos “Mambas” e treinador do Maxaquene, considera que este tipo de casos contribui para a falta de qualidade do futebol moçambicano, pelo que os bairros que forneciam jogadores aos clubes já não produzem talentos.

“No passado os jogadores que despontavam nos bairros eram levados para os clubes para darem prosseguimento à sua carreira, mas não é o que acontece no presente, porque nos subúrbios já não temos campos para que as crianças possam dar os primeiros toques na bola e isso é preocupante porque a maioria dos jogadores que hoje brilham no Moçambola ganharam talento nos bairros, antes de ingressarem nos clubes.”

O treinador do Maxaquene declarou ainda que, se os nossos dirigentes continuarem assim, o nosso futebol em vez de caminhar para a frente estará a andar a passos largos para o precipício, pelo que a formação é a chave para o desenvolvimento do desporto.

Artur Semedo, actualmente sem clube, considera que vender campos de futebol sitos nas zonas residenciais é uma grande aberração porque é nos bairros periféricos que nasceram os grandes atletas. Para o antigo técnico do Desportivo de Maputo, os dirigentes deviam parar e pensar antes de tomarem estas decisões.

“Em vez de melhorar as condições dos locais para que possamos colher frutos no futuro, os nossos dirigentes optam por vender os espaços para a prática do desporto e esta não é uma atitude de um país que ambiciona altos voos, isto é vergonhoso” O nosso interlocutor afirmou ainda que, no presente, por causa destas atitudes, o futebol moçambicano está cheio de atletas que mesmo nos seniores não conseguem dominar a bola, porque no passado não tinham lugar para jogar com os amigos nos seus respectivos bairros.

“Não se pode falar de formação sem mencionar os bairros”

Para o responsável pelo departamento de futebol do Desportivo de Maputo, Calton Banze, a formação de um jogador começa no bairro; portanto, não é recomendável destruir os locais que são usados para a prática de actividades desportivas nos subúrbios. “Não se pode extinguir os campos nos bairros, uma vez que eles são os locais onde os clubes vão buscar jogadores, porque era nesses espaços que a maioria dos atletas que hoje fazem parte da selecção nacional era vista a evoluir e, assim, foram, alguns, convidados a ingressar nos clubes, onde completaram a sua formação.

João Chissano, seleccionador nacional, é da ideia de que os lugares que são usados para a prática do desporto nos bairros deviam ser preservados porque, além de serem indispensáveis na formação e descoberta dos novos valores do futebol nacional, ajudam no desenvolvimento da sociedade, sendo que os jovens, em vez de se ocuparem com coisas fúteis, praticam desporto.

“Os grandes jogadores são fruto do futebol do bairro, por essa razão estes campos que são usados para a prática desta modalidade deviam ser preservados, para continuarem a produzir jogadores para o futuro” disse Chissano. Segundo Matias Campira, responsável pelo departamento de formação do Maxaquene, conhecido nos meandros desportivos por Bebe, não se pode falar da formação sem mencionar os bairros, porque eles fornecem atletas aos clubes. A maioria dos jogadores que estão nos clubes vem dos subúrbios, onde deram os primeiros toques na bola.

“É bastante doloroso ver os espaços que no passado eram usados para a prática do futebol transformadas em supermercados. A maioria dos jogadores que estão nas camadas de formação dos clubes da capital do país é fruto dos torneios organizados nos bairros, como Bebec e Sobec, e se assim continuarmos o nosso futebol não se vai desenvolver” declarou Campira.

António Hua, treinador das camadas de formação do Ferroviário de Maputo, também repudia a extinção dos recintos desportivos nos bairros. Na sua opinião, o grosso dos atletas que compõem o seu plantel foi recrutado no Torneio Infanto- -Juvenil Bebec que se disputa nos bairros. “São os bairros que nos fornecem jogadores. Como técnico este problema preocupa-me, porque no futuro não teremos onde buscar jogadores. Os nossos dirigentes tinham que parar e pensar antes de tomarem estas decisões”.

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