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Dizem que há uma (dura) imposição na literatura moçambicana

Paulina Chiziane lança

Enquanto a célebre escritora moçambicana, Paulina Chiziane, instigava-os a ser, cada vez mais, arrojados em relação às suas pretensões na arte de fazer literatura, do outro lado, os jovens escritores moçambicanos (e potenciais) lamentaram em uníssono a suposta ditadura – manifestada de diversas formas – que se lhes impõe na literatura moçambicana.

Está em curso na capital moçambicana, Maputo, a 77ª Feira do Livro da Livraria Minerva Central. Muito recentemente, a instituição reservou espaço e tempo para acolher a comunidade de protagonistas e amantes da literatura a fim de – no seu espaço físico – realizar um sarau cultural no âmbito do qual se discutiu sobre as tendências e os desa fios da literatura moçambicana, com especial enfoque para os escritores emergentes.

Foi nesse sentido que se convidou a conceituada escritora moçambicana Paulina Chiziane e os jovens escritores Dércio de Celestino Pedro e Manuel de Jesus, autores jovens das obras “O Ventre Acocorado” e “Quando o Coração Dizpára” chanceladas e publicadas no ano passado pela Minerva Central.

Um desa fio – é assim que Paulina Chiziane descreve o estágio da literatura moçambicana. A final, “como é que posso a firmar que a nossa literatura está a crescer quando no mapa do país, nós os escritores não chegamos a fazer uma mancha? Na capital moçambicana, há muitas pessoas interessadas na literatura mas no interior do país não encontro ninguém. Logo, o país inteiro precisa de ter escritores. Penso que ainda estamos a crescer”, diz.

Paulina Chiziane considera que as estórias que escreve são inspiradas nas di ficuldades que enfrentou ao longo da sua carreira. Em síntese recorda-se de que quando publicou o seu primeiro livro, nos anos 1990, as di ficuldades sociais no país eram inúmeras.

Por exemplo, “quando houvesse água, não havia luz. Quando comecei a escrever o segundo livro sucedia que sempre que eu iniciava a compor as ideias uma bomba irrompia instalando estrondos devido à guerra. Consequentemente, tinha de parar de trabalhar”.

O terceiro livro é uma história muito louca chamada O Sétimo Juramento que “retrata a feitiçaria, uma prática de que se não devia falar na sociedade por parte da mulher”.

O Niketche é outro livro cheio de muitos segredos: “um dia fui ao bar, no centro da cidade, com algumas amigas. Imaginem! Nesse dia bebemos, mas uma boa mulher não deve fazer isso. Quando chegámos ao bar começámos a falar mal dos homens e dizíamos coisas que não se contam a ninguém. Aliás, tais assuntos não devem ser ouvidos por eles. Sucedeu que passámos a noite no referido local. De regresso a casa eu disse: acabei de escrever o melhor livro da minha vida”.

De acordo com a escritora, “esse episódio representou uma di ficuldade na minha carreira porque as mulheres que querem ser bem vistas na sociedade não fazem o que eu fiz”.

Aqui não se arrisca

Por sua vez, o jovem escritor Manuel Jesus considera que um dos fenómenos que di ficultam a produção de livros dos novos autores é o facto de que as editoras apostam mais na publicação de escritores consagrados, o que impacta negativamente no surgimento de novos talentos. Para si, apoiar os jovens escribas signi fica arriscar. Mas, infelizmente, “em Moçambique arrisca-se muito pouco”.

“Penso que o que o escritor moçambicano Mia Couto fez em relação a Dércio – tê-lo apadrinhado – é uma mais-valia, porque se ele se tornar um artista consagrado, no futuro, isso transformar-se-á em orgulho para todos”.

Manuel Jesus lamenta o facto de que muitos autores consagrados “não apadrinham a novos escritores. Não sei que nome atribuir a esse comportamento, mas eu já passei por isso: eles pegam nos nossos livros, em jeito de quem está a ler, prometem-nos apoiar na produção.

No entanto, chegada a hora da publicação, simplesmente, dizem que não tiveram tempo de ler. Há vezes que determinam que se mudem nomes de determinadas personagens – como se a nossa produção passasse pela cabeça deles, como escritores consagrados. E eu não admito isso. A minha produção pertence a mim.

Os únicos aspectos que devem ser corrigidos são inerentes aos erros linguísticos”, diz ao mesmo tempo que acrescenta: “A opção temática, estilística depende de mim. Ele, o escritor consagrado, pode aconselhar mas não deve determinar a mudança do rumo da minha história”.

Dura imposição

Tina Mucavel, outra figura feminina que se evidencia no cenário artístico nacional, advoga que é negativa a imposição de estilos literários e formas de escrever aos potenciais escritores no país por parte das editoras, por isso, “tenho muitas di ficuldades em prosseguir com a minha escrita”.

“Recordo-me de que li um livro (que na verdade é uma relíquia da literatura afro-americana) de uma escritora chamada Zora Houston. Ela foi uma das primeiras escritoras negras nos Estados Unidos da América, que simplesmente desapareceu por ter sido corajosa, como a Paulina Chiziane. O seu livro tem como título ere Are Eyes Searching For God”.

Na referida obra, “além das partes em que fala o narrador, o texto está escrito em crioulo dos afro- -americanos. Isso é impressionante porque quando se lê o livro, ´viaja- -se´ no mundo das pessoas sobre as quais se narra. Então, uma das razões que me fazem sofrer quando escrevo é que sou obrigada a escrever na linguagem pré-estabelecida”.

Ou seja, “sou inibida de usar uma linguagem coloquial, a forma como me comunico no dia-a-dia. É que é essa a realidade que quero ver escrita e descrita nas minhas obras. No entanto, o que sucede, e já me aconteceu por várias vezes, é que quando entrego os meus livros às editoras e aos conceituados escritores eles simplesmente dizem que o texto não será aprovado por causa das normas que se impõem”.

Num outro desenvolvimento, Tina Mucavel a firmou que “o que eu sinto, por exemplo, quando leio a obra de Ungulane Ba Ka Khosa é que ele tentou falar na voz do seu antepassado, mas não conseguiu porque as mensagens estão escritas num português muito no. Em consequência disso, perdeu-se a originalidade da voz do referido ancestral”. Como tal, “penso que esta imposição estilística existente na literatura moçambicana deve ser quebrada. Eu quero escrever os meus textos da forma como falo diariamente”.

São antenas da sociedade

Por sua vez, o jovem declamador Herdino Polinésio parte do princípio de que os escritores são a antena da sociedade, o que signi fica que eles pensam e re flectem sobre os problemas sociais. Ora, quando não se apoiam todos estes escritores; se não se editam as suas obras; então, signi fica que se está a inviabilizar a emergência de uma nova e, possivelmente, diferente forma de pensar.

Ou seja, “estamos a coarctar a possibilidade de o público saber o que é que se pensa de forma diferente”. Por exemplo, “o Mestre Tchaka é um poeta que escreve na língua xichangana. Ele declamou o seu poema e todos nós gostámos.

Se se inviabilizar a edição e publicação dos seus textos, então, as pessoas que se identi ficam com a sua forma de pensar e que nos entendem perfeitamente por causa do código linguístico que explora, ser-lhe-ão reduzidas as possibilidades de conhecer a sua visão sobre os fenómenos sociais que lhes rodeiam”.

Trabalhem!

A escritora Paulina Chiziane compreende as complicações com as quais os jovens se debatem. Até porque, segundo a firma, “de vez em quando aparecem jovens escritores que me entregam textos de 300 páginas para ler. Aí eu explico- lhes que não tenho tempo e que por isso não dá. Há vezes que os jovens pensam que se trata de falta de vontade. Mas não é”.

De qualquer modo, antes de fazer uma analepse – espécie de recuo no tempo – a escritora recordou aos jovens de que eles nasceram num mundo em que vigoram as tecnologias e, por isso, “nasceram melhor”.

“Vou começar por contar a história do meu pai, já falecido, que partiu de Chidenguele até Pretória a pé. O outro exemplo é referente a Eduardo Mondlane que saiu da província de Gaza e foi parar nos Estados Unidos da América”.

No entanto, a par disso, a sua história também não deixa de ser exemplar: “comecei a escrever sozinha. Não tinha ninguém para me ajudar. Publiquei pela Associação dos Escritores Moçambicanos e cheguei a fazer publicação do autor”. Ou seja, “busquei tantos e vários caminhos”.

Finalmente, “tornei-me uma escritora consagrada por causa de um trabalho laborioso e oneroso. Agora, porque é que vocês nascem agora e querem tornar-se consagrados de um momento para o outro? Precisamos de padrinhos para quê? Quem vos disse que eu sei escrever melhor que vocês? Quem vos disse que eu tenho melhores capacidades que vocês?”

Se calhar é no vosso seio que surgirá um escritor Nobel, o que significa que vocês precisam de prestar mais atenção. Mas também o prémio Nobel é apenas uma forma de catalogar os escritores: cada um tem a sua força, o seu estilo e, por isso, cada um deve abrir o seu próprio caminho.

Eles não sabem tudo

Segundo Chiziane, é provável que seja dentre os jovens que actualmente se empenham de forma a fincada na literatura que surgirão outras escritora moçambicanas consagradas. Como tal, “eu assumo que não sou a melhor, simplesmente estou a fazer o meu tempo.

A literatura moçambicana ainda não tem escritores. Eles irão surgir. Eu tenho saudades de um futuro que nem conhecerei, porque vou morrer antes de ver a consagração de novas mulheres nas letras moçambicanas”.

Por exemplo, “eu gosto de escrever coisas com ética, sobre o antigamente, que retratem a vida na aldeia e acerca da velhice. Em contra- censo, vocês os jovens nasceram numa época em que vigoram as Tecnologias. Porque é que querem a opinião dos velhos?

Tirem da cabeça a ideia de que os escritores consagrados sabem tudo sobre a literatura, porque é mentira. Eu fui consagrada ontem, porque na minha época não havia escritores iguais a mim. Fui uma das primeiras, se calhar a mais atrevida”.

Mais adiante, Paulina Chiziane não perdeu a oportunidade para dar um conselho: “meninos trabalhem. Busquem o vosso caminho e modelo. Por exemplo, o jovem está a escrever um texto e gostaria de ouvir a opinião de José Saramago sobre o mesmo.

Mas, já não é possível ter a opinião de Saramago porque ele encontrou a morte. A única forma de tal acontecer é ler os seus textos, dialogar com os mesmos, como forma de consolidar a sua mente com a de Saramago”.

Sobre as últimas semanas, Paulina Chiziane diz que leu o su ficiente de tal sorte que ficou fatigada. “Agora se alguém me aparecer com um livro, pedir o meu apoio e eu não puder dar – dirão que estou a negar? Não é verdade. É que estou cansada e não posso. Mas cada pessoa é um caminho. Mia Couto dizia: ´Cada homem é uma raça`”.

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