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“Discussão sobre a denominação das gerações é irrelevante”

A voz dos que não tinham onde falar

A propósito dos 35 anos da independência nacional @ VERDADE ouviu Jorge Rebelo, talvez a maior reserva moral da Frelimo. O antigo ministro da Informação do governo de Samora Machel defende que procurar rótulos para as gerações é uma perda de tempo e acha bem que a história seja rescrita se for para “contar a verdade.”

@Verdade (V) O Presidente Guebuza chamou à geração pós-8 de Março, a que presentemente tem entre 30 e 40 anos, a da viragem. O senhor preferiu chamar-lhe a geração da verdade. Porquê?

Jorge Rebelo (JR) – Em relação a isso há uma grande confusão. Esse conceito de geração da verdade não é meu, li no jornal Savana uma carta de um leitor, salvo erro Vali, em que ele defende que o termo próprio para essa geração seria geração da verdade. Mais tarde apareceu um outro conceito, a geração da consciência. Pessoalmente, entendo que esta discussão devia cessar porque é absolutamente irrelevante. Isto só cria confusão e é supérfluo. Em vez de estarmos a discutir isso deveríamos estar concentrados nos assuntos realmente importantes e que interessam ao país.

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(V) – Porque é que Vali defende que se devia chamar a esta geração, a da verdade?

(JR) – Ele chamou a atenção para aspectos importantes como os jovens pautarem pelo patriotismo, unidade, serem contra a corrupção, por isso se chamaria geração da verdade. Achei isto interessante e falei aos jovens desse assunto numa palestra para a qual fui convidado.

(V) – Mas como é que classificaria então esta geração?

(JR) – Não é possível caracterizar esta geração com um adjectivo, seja ele qual for. Se chamarmos a esta geração, a da viragem, então também temos de ir buscar nomes para as gerações anteriores.

(V) – Mas essas já têm nome: geração do 25 de Setembro, geração do 8 de Março…

(JR) – E as anteriores? O Ngungunhane também fez a guerra contra os portugueses! Qual é a geração dele? Devia-se colocar um ponto final nessa discussão e atender- se àquilo que é efectivamente essencial. As tarefas das próximas gerações é que deviam ser definidas.

(V) – E quais são essas tarefas?

(JR) – Em termos gerais, toda a gente sabe, que é o envolvimento na luta contra a pobreza, na luta contra a corrupção, na luta contra o lambebotismo, a bajulação, a adoração. E, talvez este seja o principal, o envolvimento na luta de uma forma não interesseira em termos materiais. O engajamento deve ser desinteressado, espontâneo.

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(V) – Está desiludido com a geração actual?

(JR) – Não. Às vezes alguns jovens perguntam-me porque é que esta geração não se envolve na política, em causas, parece estar perdida, a vaguear. Outros asseguram-me que esta geração não está desinteressada, acontece que há quem promova esse desinteresse, esse afastamento. Os jovens queixam-se de que não têm espaço para manifestar o seu compromisso para com a melhoria das condições de vida da população.

(V) – Quem é que, em seu entender, está a promover esse “desengajamento”?

(JR) – Não se pode dizer que haja alguém intencionalmente a pôr de lado os jovens. Quando ouvimos as declarações dos nossos chefes vimos que eles apelam constantemente à juventude para que esta se envolva. Talvez não o façam com o vigor e interesse que deviam, mas os jovens também não podem estar à espera de que os chefes ou alguém de fora lhes abra um espaço dentro do sistema e diga: – Entrem, fiquem aqui. Até porque esse chefe, seja quem for, já tem os lugares preenchidos. Há muito tempo, na altura em que era discutida a segunda Constituição, tive um encontro com um grupo de militares.

 A dada altura perguntei- lhes: – Vocês acham que deve haver outro partido em Moçambique além da Frelimo? Todos disseram que só devia existir a Frelimo até porque muitos deles eram da geração do 25 de Setembro, não estavam por isso interessados na existência de um novo partido. Até que se levanta um lá no fundo da sala, acho que era sargento, e disse: – Acho que devia haver outros partidos. Fez-se um enorme silêncio, porque a opinião dele ia contra a dos chefes.

Depois continuou: – A Frelimo é uma espécie de um clube e todos os lugares já estão preenchidos, por isso eu, jovem, se quiser tem um cargo importante, sendo desconhecido, não tenho hipótese ao passo que se houver outro partido filio-me ou crio um meu próprio partido e pelo menos posso ser chefe desse partido e ter um lugar de destaque na nossa sociedade o que existindo só a Frelimo não podia ter. A motivação dele era ser chefe.

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(V) – O senhor indigna-se amiúde com a falta de conhecimento da história do país por parte da juventude. Acha que os jovens actuais não estão minimamente interessados naquilo que se passou?

 (JR) – Não é que eles não estejam interessados. No meu contacto com eles reparo que até estão interessados, o que falta é uma acção por parte não sei se do partido Frelimo ou do Ministério da Educação ou seja lá de quem for no sentido de divulgar e inclusivamente introduzir isso como uma disciplina, penso que noutros países se faz isso. A história de Moçambique não é dada de uma maneira objectiva, deve-se escrever o que se passou, e penso que isso, neste momento, não se faz. Isto é muito preocupante, principalmente quando tomamos em conta aquilo que são os momentos da história recente.

Por exemplo: Moçambique ficou independente. É um acontecimento muito importante. Se perguntar aos jovens da escola secundária e mesmo a universitários muitos vão-lhe dizer que aquela data corresponde ao início da luta armada.

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(V) – Ultimamente certos factos da historiografia oficial têm sido postos em causa, nomeadamente o autor do primeiro tiro, quantas pessoas morreram neste ataque, as circunstâncias que rodearam a morte de Eduardo Mondlane, etc. Acha que a história deve ser reescrita, uma vez que se diz que ela está demasiado associada à Frelimo?

(JR) – Não vou dizer nenhuma heresia nem nenhuma inverdade. Quem está no poder é que normalmente interpreta os acontecimentos. Há aquela fábula em que o leão e o homem passeiam juntos e, na conversa, o homem diz que os humanos são muito mais fortes do que os leões. O leão defende o contrário. Por fim chegam a uma estátua onde se vê um leão caído no chão e um homem com o pé em cima da cabeça do animal. O homem diz imediatamente que a estátua prova que o homem é mais forte do que o leão. Este, contudo, rebate a afirmação dizendo que se fossem os leões a fazer a estátua seria o contrário: o leão em cima do homem. Isto para dizer que a história é sempre feita pelos vencedores.

(V) – Então haverá a necessidade de reajustá-la daqui a uns anos.

(JR) – Não vejo mal algum nisso, antes pelo contrário. A história, tal como aconteceu, precisa de ser conhecida.

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(V) – O senhor foi ministro da Informação numa altura em que esta era altamente controlada pelo partido único. Como é que se sentia na pele de censor-mor?

(JR) – A censura, naquela altura, era exercida em defesa dos interesses superiores da nação. Achávamos que ninguém de fora tinha o direito de chegar e vir-nos dizer que estávamos errados ao cortar este ou aquele artigo. Não reconhecíamos esse direito a ninguém. A nós que estávamos ali é que cabia decidir o que efectivamente era melhor para o país. Mas é evidente que hoje a imprensa é muito mais útil para a sociedade do que naquele tempo.

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