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Desvendar “verdades ocultas”

Desvendar “verdades ocultas”

Além do aspecto grotesco ou da beleza manifesta, uma obra de arte, bem elaborada, transporta sempre alguma mensagem enigmática, que se oculta tanto a um bom apreciador de arte como ao criador.

Com vista a convidar os apreciadores de arte a descobrir os enigmas que se abrigam numa tela, bem como nas estruturas tridimensionais resultantes de anos e anos de relação coma cerâmica, o conceituado artista plástico moçambicano Victor Sousa coloca em montra 35 obras de arte, no Instituto Camões – Centro Cultural Português, em Maputo, para marcar a sua 59º efeméride natalícia que se assinala a 17 de Julho.

A mostra que estará patente durante duas semanas decorre entre 15 a 30 de Julho em curso. Espera-se que no evento de estreia se combine uma conversa informal, música e animação, com a participação de artistas de renome como Hortêncio Langa.

Em contacto com @Verdade, Victor Sousa atribuiu à celebração de vida e obra de qualquer ser humano um sentido dicotómico e, até certo ponto, bipolar. Ou seja, feliz e infeliz. Feliz porque, segundo diz, “significa longevidade”. Infeliz porque é, igualmente, “uma contagem regressiva a caminho da morte”.

“Se pudéssemos viver eternamente”, tudo ficava mais simples, afi nal “era apenas somar os anos”, comenta o mestre que nem por isso se incomoda. “Não me desespero porque estou a ficar velho”, diz.

Em relação à questão da beleza oculta – para a qual em quinze dias convida os apreciadores da sua pintura e da sua olaria – a desvendar afi rma que “adiciono na minha arte alguns elementos que apesar de não serem considerados belos pela concepção habitual da beleza – como acontece em relação ao diamante, o ouro, a prata por exemplo –, transportam em si algo de belo. O belo existe em todos nós. No optimismo da pessoa”.

É por essa razão que nalguns objectos tridimensionais de cerâmica numa perspectiva – côncava – a beleza é dada de bandeja. Ao passo que na outra – a convexa – encontra-se uma beleza diferente, interior, até certo ponto oculta para qual o artista convida os seus apreciadores a deleitarem-se.

Jorge Dias – outro artista plástico, responsável pela curadoria da amostra – considera que “Victor Sousa é, na verdade, um exímio utilizador da parábola como forma de expressão”.

Na sua relação de décadas com a paleta de cores e o pincel, Dias encontra na arte de Sousa “uma pintura de vida, de festividade, de simbolismos, de decorativismo, de essências e de plasticidades sociais”.

Ao passo que em relação a alguns valores em termos de estética e informação, este curador é da opinião de que “a incorporação de diferentes elementos e formas multiplicam as leituras das obras que, só aparentemente, se apresentam como simples construções geométricas”.

Sortilégio estético

Recorde-se que Victor Sousa publicou em finais do ano passado o Sortilégio Estético – uma obra por meio da qual, além de animar a vista de um bom apreciador de arte, democratiza o acesso às artes plásticas. Para além da diversidade temática que se encontra em Sortilégio Estético, sobretudo nas obras telúricas, há um debate sobre o mítico bairro da Mafalala.

Efectivamente, Sousa considera que “o bairro de Mafalala tem fama por ser o berço de muitos génios; pelos feitos dos seus habitantes; pelas mulheres bonitas que tem, pela questão da prostituição que no passado vigorou, até porque até nos dias actuais, exceptuando o banditismo e as demais coisas perversas que por lá se fazem, Mafalala continua um bairro famoso. Um bairro a partir do qual é possível tirar várias referências do país para o mundo”.

Na verdade, igual a alguns jovens, na altura Victor Sousa não tinha consciência de que algum dia a Mafalala se podia tornar num forte ‘conceito’, uma referência de história que hoje é. Como tal, não tem muitos registos históricos ou políticos decorridos na época.

De qualquer modo, este bairro foi “um local onde os residentes das zonas arredores encontravam as suas referências em todos os campos das artes e do saber. Penso que é por isso que, em todo o mundo, os bairros mais históricos contêm todas essas qualidades. E deles – os bairros – surgem as histórias mais marcantes da vida dos países”.

Fazendo jus ao misticismo que sempre caracterizou a Mafalala, Victor Sousa, este pintor e ceramista que em tempos foi o primeiro professor moçambicano a leccionar arte, revela que “agora percebo que a cada dia que passava, a Mafalala nos revelava algo novo, mas que era antigo. E nós não nos apercebíamos. Por exemplo, agora tenho uma visão diferente de Mafalala, ou de todos os bairros em seu redor quando comparado com o passado”.

E mais: “sinto que algumas pessoas que actualmente vivem na Mafalala (particularmente, os mais jovens) não lhe dão a devida importância. Preferem viver na Sommerschield, ou no bairro Central, por exemplo. Alguns têm vergonha de dizer que são oriundos da Mafalala”.

Fermentar ideias e parir arte!

Pelo que percebemos da conversa com Victor Sousa, os seus momentos de criação artística são bastante turbulentos. É por essa razão que de uma ideia originalmente concebida determinado tipo de arte – uma tela de pintura, por exemplo, é possível passar para a gravura com grandes riscos de desaguar na cerâmica ou mesmo regressar ao ponto inicial: a pintura.

A este processo o mestre Sousa chama de “fermentação de ideias” para fazer a arte. E, cá entre nós, concluímos que o processo assenta muito bem na teoria de Fernando Wagner, na sua “Teoria e Técnica Teatral” quando acerca da música e da pintura argumenta que “há uma técnica perfeitamente definida” de maneira “que ninguém ousaria dar continuidade ou exibir um quadro sem anos e anos de estudo e uma carreira dura, difícil e bem programada”.

Instámos o maestro a comentar este princípio, em função da sua experiência e, certamente, da realidade artística local. Eis a explicação completa nas suas palavras: “Eu costumo fermentar ideias, para ter a certeza de como trabalhar a arte e se de facto vou conseguir, o que me proponho fazer. Trabalho na cerâmica, na gravura e pinto. Há certas obras que experimento na pintura e não fico satisfeito porque não são expressivas. Então, passo para a gravura, não funciona e passo para a cerâmica, com muitas possibilidades de voltar à pintura”.

Para Victor Sousa são “a experiência e a técnica que nos dão a percepção de que qualquer obra não é um produto acabado. Tenho esta capacidade e faço isso como um método de trabalho”. Em jeito de recordação, Sousa resgata alguns aspectos de quando era professor: “Sempre dizia aos meus alunos que nunca está acabada uma obra de que o artista não seconvenceu que está acabada. Porque a gente sabe que uma determinada obra ainda não está terminada. Mas porque faltou-nos material, tempo, ou porque não quero que me digam que sou cabeça dura, etc., acabamos fazendo o que se pode. E se alguém disser que está bom, o artista acredita em tal dito sem questionar”.

Apesar dos truques que o criador possui – algo inexplicável – o artista revela que “é o tempo e a experiência no trabalho que me criaram”. Assim, “eu ensino como se faz – a técnica. O discípulo tem a responsabilidade de aprender e desenvolver a partir do método. Ou seja, a gente sai da faculdade e não sabe tudo o que vai praticar 20 anos depois”.

Com a entrega ao trabalho, “você acumula muitas experiências que a dado passo se questiona: porque é que não me ensinaram na universidade? Afinal, você aprendeu noutra faculdade que é a prática. Em suma, a gente não deve pensar que o diploma é sinónimo de competência. Isso não chega”, finaliza.

Victor Sousa nasceu em Maputo a 17 de Julho de 1952. Em finais da década ´70 começa a participar em exposições colectivas dentro e fora do país. Nas artes contemporâneas é um artista multifacetado, explorando a pintura, o desenho, a cerâmica, bem como a gravura. A sua primeira mostra individual ocorreu em 1982, no Núcleo de Arte em Maputo. Estudou Desenho Analítico e Publicidade, Desenho e Pintura, Cerâmica e Gravura, tendo igualmente sido professor de Arte na Escola de Artes Visuais em Maputo. Tem obras representadas no Museu Nacional de Arte e em colecções particulares no país e no estrangeiro.

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