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Pandza: Depois de Votar

Depois de votar senti-me estranhamente leve, aliviado do peso do dever. Introduzi o meu voto na boca gulosa da urna como se enfiasse um cartão de crédito num ATM que me desse créditos de futuros. Petisquei com o indicador a tinta indelével, maquilhagem à moda das democracias, e saí caminhando, mais leve que indelével, seguindo confiante e sem pressa, os caminhos por onde o destino me quisesse.

Sorridente, sentia-me anormalmente bem. Nem me pesava o corpo. Dispensei o chapa. Fui a pé. Para o futuro não se vai de chapa. A sola usada do meu sapato leva-me onde eu quiser. Se eu quiser. Democracia é isso. É um jogo de crenças e escolhas. Um jogo em que não há perdedores, perca ou ganhe o meu candidato preferido.

Passei por pessoas e vi-as de alma sorridente. Assim contentes, podia jurar que também tinham ido votar. Se um e outro lutassem, pelo menos não era uma guerra. Se um e outro reclamasse, pelo menos não era uma greve.

Encostada ao lancil do passeio, uma água preguiçosa escorria pela estrada. Segui aquele curso à passo de quem segue pela marginal de um rio. Ao contrário de mim, o rio fi ngia pressa, corria contornando esquinas, descia até um descampado, desaguava num pequeno charco, e permanecia ali exercendo o difícil ofício do ócio.

Naquele charco um velho e solitário sapato jazia, como um navio sem o mastro do destino, atracado no tempo. Mosquitos, como gaivotas em vôos democráticos, esvoaçavam as águas e escoltavam aquele barco de chulé.

Sentei-me como se senta numa marginal. Olhei para o charco como se olha para a lonjura do mar. Aos poucos senti-me a levedar naquela nuvem que nos pesa as pálpebras e nos estorva a vigília. Adormeci.

Tinha anoitecido. Redonda, a lua parecia estar a sugar toda a luz e escurecer o céu. Uma outra lua surgia no reflexo do charco. Eram duas luas, uma subindo pelo escuro da noite e outra descendo na água.

Nas estrelas acenderam-se pirilampos e num vento sem pressa chegou-me uma voz feminina, dócil, suave, cantando “Nwety”: “Olha, é a lua, a surgir na água…” Uma orquestra de grilos fazia-lhe fundo musical.

Seria uma sereia? Há sereias nos charcos? A voz e o vento vinham-me por trás.

A sombra movia-se na minha direcção. Sobre a minha, sobre as águas, sobre os mosquitos, e parou ao meu lado.

Ouvia-se em cada passo o som irrequieto de missangas. O perfume doméstico e a capulana esvoaçante tocavam-me levemente. A voz soava como um pássaro noturno. Eu continuava maravilhado a olhar para as duas luas. A do refl exo e a do céu.

Ela estendeu os braços e pousou delicadamente o pote que trazia. As missangas acompanharam em coro. Tocou-me no ombro com a mão dócil quando se apoiou em mim para se sentar. Foi quando olhei para ela. Os pés descalços, vestia missangas nos tornozelos, nos braços, no pescoço, e uma capulana, amarrada por cima dos seios, disfarçando-lhe as saliências.

– Tú… tú es a Mingas?

Não me respondeu. Quando sorriu as maçãs do rosto cresceram, os olhos minguaram como duas luas alegres, e a dentadura luziu, roubando protagonismo às luas.

Olhando para ela comecei a sentir-me naquele estado de direito que sente diante duma mulher bonita. Fiz aquele olhar que se faz quando se quer conquistar eleitorado e parti em pré-campanha sem panfletos nem cartazes, mais olho-no-olho que porta-à-porta, perguntei:

– Se eu me candidatasse à ti, votavas em mim?

Descaiu a cabeça para o lado, recostando-se no meu ombro. Nossas sombras à beira-charco juntaram-se como dois palmares à beira-mar, alheios ao vento. E respondeu:

– Sabes, a democracia é um sentimento muito forte entre duas luas na mesma noite.

Senti que havia clima para abraçá-la e começar a fazer coisas mais democráticas com ela. Abracei-a e quando me aproximava para boca da urna senti um abanão, como se alguém estivesse a sacudir o mundo.

– Papá, papá, acorda.

– Hein?! Onde está a Mingas?

– Que Mingas, papá? Está a sonhar? Acorda, vamos para casa.

– Quem vos mandou acordar-me? Não vos dei essas democracias de me interromperem os sonhos. Tiraram-me das mãos a garrafa que eu abraçava, sonhando que fosse a Mingas.

– Voltou a beber outra vez? e nem foi trabalhar, papá.

– Tive dispensa, hoje, para ir votar. Ajudaram-me a levantar.

– Votar a dormir na rua?

– Estava a espera da lua, para perceber o futuro – respondi, ainda embriagado de sono – Sabem, democracia é um sentimento muito forte entre duas luas na mesma noite.

– Existe isso? Duas luas na mesma noite, papá?

Procurando resposta olhei para a lua, míngua, e sem brilho:

– Não, claro que não. Só em sonhos.

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