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Dependente de uma cadeira de rodas para sempre

O modo de enfrentar a deficiência física varia de acordo com a sua causa, porém, viver eternamente dependente de uma cadeira de rodas, à semelhança do que acontece com o jovem na imagem ao lado, é deveras doloroso quando as culpas dessa limitação são imputadas a um familiar.

Aos 22 anos de idade, Jaimito Rosário, residente no bairro Naquaquali, na vila-sede do distrito de Mecubúri, na província de Nampula, vive “condenado” a uma cadeira de rodas há anos.

Para além de acreditar que contraiu a deficiência por causa de uma agressão física protagonizada pela irmã da sua mãe na adolescência, a maior angústia do jovem é ter a consciência de que nasceu normal como qualquer outro indivíduo e que tinha habilidades para exercer qualquer tarefa sem depender de terceiros, o que actualmente é impossível.

Segundo nos foi narrado, num certo dia, aos cinco anos de idade, Jaimito estava a caminho da machamba na companhia da sua tia. A dado momento, durante o percurso, ele sentiu cansaço e quis descansar. Contudo, a irmã da mãe obrigou- o a que continuassem a andar mas já não aguentava, por isso, resolveu descansar contra a vontade da pessoa com quem seguia a viagem.

Por se sentir desobedecida, a tia do nosso entrevistado recorreu à violência para fazer valer as suas ordens: a irmã da mãe pegou num pau e espancou o rapaz a ponto de este mais tarde se queixar de dores na coluna vertebral. A partir dessa altura, o petiz a que nos referimos começou a enfrentar problemas de saúde caracterizados por um padecimento forte na bacia e na parte do cóccix.

Volvidos alguns anos, as sensações físicas dolorosas pioraram, passaram a ser intermitentes e os membros superiores e inferiores de Jaimito ficaram atrofiados.

Na altura, os seus familiares negligenciaram o problema e estavam convencidos de que o mesmo era uma consequência da agressão física protagonizada pela tia com quem o indivíduo vivia. Actualmente ele mora em casa de Angelina Rafael, outra irmã da sua mãe.

A ser verdade que essa limitação física se deve às sovas, o nosso interlocutor pode ser apenas um exemplo de uma parte de pessoas, sobretudo crianças, que são sujeitas a maus-tratos pelos próprios parentes e, por conseguinte, contraem sequelas que lhes causam traumatismos pelo resto da vida.

Na cidade de Nampula há relatos de vários casos relacionados com a violência física contra os petizes, porém, dentre eles muitos poucos chegam às autoridades para serem dirimidos.

Hoje, Jaimito está traumatizado, principalmente porque não tem dúvidas de que não existe nenhuma terapia que possa fazer com que volte a locomover- -se sem depender de uma cadeira de rodas, não estuda e considera-se um homem inválido cujos sonhos estão gorados. Aliás, ele queixa-se de ser vítima de maus-tratos cometidos por quase toda a família, facto que uma das suas tias confirma.

“Brincaram” com a sua saúde

À nossa Reportagem, o jovem disse que, no princípio, a irmã da sua mãe, a mesma que supostamente o violentou, pensava que ele estivesse a fingir que sofria de dores e que estava a ficar paralítico. Por causa disso, abandonou a casa da irmã da tia e passou a viver com a progenitora, no povoado de Maririmue, a 12 quilómetros da vila-sede do distrito de Mecubúri, em Nampula, onde foi submetido a um tratamento tradicional. Contudo, nesse lar também não teve sossego.

Passados seis meses, entorpecimento de Jaimito agravou-se, não conseguiu ficar novamente de pé e os seus parentes contrataram um enfermeiro que passou administrar-lhe medicamentos, de forma ambulatória, mas não houve nenhum sucesso.

“Não há lugar do corpo onde não recebi uma injecção: na coluna vertebral, nas pernas, nos braços e não faço ideia de outros locais. Tudo foi na expectativa de um dia melhorar de saúde, mas nada resultou”, desabafou o jovem, para quem, aos 21 anos de idade, a sua vida se tornou um calvário na medida em que passou a arrastar-se para se deslocar de um lugar para o outro.

Entretanto, sem ter sido submetido a nenhum exame médico específico, um dos tios de Jaimito requereu, por compaixão, junto do Instituto Nacional de Acção Social (INAS), delegação de Ribáuè, uma cadeira de rodas (alocada em Abril do ano em curso) para o seu sobrinho.

Mais torturas

Jaimito acusou as pessoas com quem vive de se aproveitarem da sua condição física para o maltratar e obrigá-lo a viver em situação de humilhação perante a sociedade, sobretudo a progenitora e os irmãos.

“Quando vivia em casa da minha mãe era obrigado a ir pedir esmola para poder alimentar a família. Se não conseguisse um valor que estivesse de acordo com a expectativa dos meus parentes era agredido fisicamente pelos meus irmãos”, queixou-se o jovem, tendo acrescentado que as violações não terminavam por ali: por vezes, há dias em que não lhe era dado de comer porque na hora das refeições não se encontrava em casa.

Que dizem os parentes

Angelina Rafael confirmou à nossa Reportagem que o seu sobrinho foi vítima de uma agressão física perpetrada pela tia quando o jovem tinha cinco anos de idade. Ela considerou que o acto não foi propositado. A senhora cuidava do menor e levou-o para Nampula com a finalidade de estudar mas isso não chegou a acontecer. “Ela puxava as orelhas, batia um pouco como forma de educar, numa dessas ocasiões causou lesões no menino a ponto de nunca mais voltar a andar”.

A nossa entrevistada fez saber que, neste momento, Jaimito vive com ela porque em casa da progenitora sofria também agressões físicas, era marginalizado, não se alimentava devidamente e era forçado a pedir esmola pois, devido à sua situação física, ele poderia facilmente comover as pessoas.

“Levei o rapaz a fim de viver comigo devido ao sofrimento a que estava sujeito na casa da mãe no povoado de Maririmue. O único sofrimento que enfrenta nos últimos dias é a falta de banho porque sozinho não consegue, devido à imobilidade dos seus membros inferiores e superiores”.

Há que consultar um especialista

O @Verdade ouviu Joselina Calavete, médica generalista no Hospital Central de Nampula (HCN). Segundo ela, caso as tareias tenham atingido a medula cerebral ou a coluna vertebral, é possível que haja lesões e deformações físicas.

Entretanto, a terapeuta acredita que o problema que apoquenta Jaimito seja resultante de uma doença como a poliomielite, por exemplo, que, não raras vezes, afecta crianças na mesma faixa etária em que o cidadão a que nos referimos contraiu a deficiência.

A técnica de saúde sugere que, apesar de ser tarde, os parentes do jovem devem contactar um especialista com vista a diagnosticar o que pode ter causado deficiência física.

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