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Deficientes auditivos clamam por um espaço sociopolítico no país

Deficientes auditivos clamam por um espaço sociopolítico no país

Um pouco por todo o país, diversas são as pessoas com deficiência auditiva que se isolam do convívio social porque são mal interpretadas. Como que condenadas à sua deficiência, são barradas o acesso a diversos lugares, públicos e privados, onde, quiçá, poderiam influenciar na tomada de decisões, quer através do voto quer por outro mecanismo. O que mais preocupa a este grupo de cidadãos, que para combater os problemas que lhes apoquenta precisa enfrentar inúmeras adversidades, é o facto de as suas aspirações serem aparentemente ignoradas por quem de direito.

Elsa Costley White Pereira, docente universitária da língua portuguesa e co- laboradora do Centro de Formação em Línguas de Sinais, não padece de pro- blema. Mas traz-nos, a partir da sua experiência, um pouco do dia-a-dia dos deficientes auditivos.

Primeiro conta que integrou no lugar onde trabalha porque precisava sentir-se útil ajudando os mudos e surdos do Centro de Formação em Línguas de Sinais, como facilitador.

Abraçou a tarefa gratuitamente. Saber que pode ajudar essas a ter uma integração social, económica e política já lhe compensa. Para materializar a sua benevolência, começou por consciencializar os deficientes auditivos a entender e saber votar como uma forma de exercer a cida- dania no país.

Para lembrar sempre este propósito, ocasionalmente são pro- movidos Workshops nas cidades de Maputo e Matola com o grupo alvo.

Em entrevista concedida ao jornal @verdade, Elsa Pereira afirmou que persis- te, em Moçambique, a exclusão dos deficientes auditivos em várias áreas. Foi esta mesma exclusão que obrigou o grupo em apreço a apostar na criação de uma agremiação como forma de exigir a sua reintegração nas comunidades onde está inserido.

Outro passo decisivo foi a submissão, ao Secretariado Técnico de Administração Eleitoral (STAE), de um projecto que defende a difusão de informação e sensibilização para esta camada social nos processos eleitorais.

“Penso que o esquecimento dos deficientes auditivos não pode ser justificado com as dificuldades de comunicação. Devia-se apostar na formação em línguas de sinais para todos na sociedade. Isto não acontece e nem há sinais de vir suceder”, comentou.

Para a interlocutora a supressão destes e outros problemas que preocupam os deficientes auditivos exige que haja um governo inclusivo, capaz de responder paulatinamente as inquietações da sociedade de forma abrangente e não partitiva.

Nota-se, disse, um grande desinteresse para a padronização da língua de sinais e gestual ora em uso no centro de formação onde colabora. Este desafio é imposto ao Ministério da Educação.

Convenção das Nações Unidas é ignorada

Segundo Elsa Pereira, o artigo 29, da Convenção das Nações Unidas sobre os direitos da pessoa com deficiência, preconiza que este grupo tem o direito e dever de participar na vida pública e política da sociedade em que estiver inserido.

Contudo, em Moçambique parece que este artigo não é respeitado porque não existe uma instituição que represente a classe. “Pouco ou quase nada se faz para que haja igualdade social. Precisamos que haja representatividade equitativa em todas esferas sociais”.

Falta visão clara sobre a educação inclusiva

O Governo moçambicano não tem uma visão clara do conceito “educação inclusiva”. Não basta inserir os deficientes numa sala de aulas com pessoas ou vintes, é preciso também criar condições para formação de professores capazes de fazer face aos problemas destes deficientes, disse Elsa Pereira, para quem a Educação devia criar estabelecimentos de ensino especializado e munidos de ferramentas capazes de quebrar a barreira da comunicação nos usuários de línguas de sinais.

Passam os tempos e nada muda no país

O tempo em que perduram os problemas dos deficientes auditivos no país corresponde ao da independência nacional, 37 anos, disse Elsa Pereira.

Na sua óptica, alcançou-se um Estado democrático e multipartidário, “mas a democracia é ainda uma miragem. Estamos ainda longe de termos uma sociedade aberta. A descriminação virou imundície em diversos cantos das instituições públicas e privadas”.

Lutar pela valorização dos surdos e mudos

Valdique Charas é coordenador da Associação do Centro de Formação de Línguas de Sinais. A sua maior preocupação é ver os surdos e mudos a serem considerados em todos locais públicos e privados, participar em grandes eventos de grandes decisões para o país. Para superar os problemas deste grupo “fazemos contactos para que a formação seja mais abrangente”, secundou.

Há que fazer fluir a informação

Sousa Camanguira, facilitador de um Workshop havido Sábado passado na Matola, disse que a capacitação é um veículo importante para que os surdos e mudos tenham oportunidade de participar gestão da na vida política nacional.

Ele sublinha a necessidade de se uniformizar o ensino dos sinais no país. “As capacitações ajudam estas pessoas a saírem do anonimato e ganharem a consciência de que também podem participar em qualquer evento conjunto sem auto descriminação”.

Maria Jacob, uma das beneficiárias do Workshop em alusão, disse que eventos daquela natureza ajudam a entender como é que a informação pode fluir nas pessoas deficientes.

“Não podem apenas ficar pela capacitação, precisamos educar as comunidades urbanas e rurais sobre a relação entre os deficientes auditivos e pessoas ouvintes. Precisamos de apoio”.

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