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Crónicas de Maputo interpretadas por uma cidadã sérvia

Nas suas “Crónicas de Maputo” – uma mostra de arte recentemente encerrada na Mediateca do BCI-Fomento, Espaço Joaquim Chissano, em Maputo – a artista plástica sérvia Branislava Stojanovic (Brana) retratou os aspectos nobres da capital moçambicana. No entanto, a intenção de desenvolver uma crítica construtiva, em relação aos aspectos negativos, não chega a suavizar a corrupção. Na sua pintura, os agentes da Lei e Ordem são apenas um exemplo dos actores desse mal…

@Verdade: Desta vez, Brana decidiu retratar a cidade de Maputo. Qual é a motivação?

Branislava Stojanovic (BS): Essa exposição chama-se “Crónicas de Maputo”. Como eu vivo aqui há quatro anos, decidi expor na tela o meu ponto de vista sobre a urbe. Por exemplo, nas minhas mostras precedentes falei muito acerca dos aspectos bonitos de Maputo que é uma cidade que aprecio. Sinto-me praticamente em casa. Por essa razão senti que devia dar o meu ponto de vista em relação ao espaço em que me encontro. De forma irónica, retrato os problemas que constituem o quotidiano dos maputenses na urbe.

Os moçambicanos são um povo muito alegre, animado, que ainda que não sejam ricos – sob o ponto de vista material – sabem enfrentar as dificuldades com alegria. Então, de certa forma, eu tentei falar sobre as problemáticas com que a sociedade moçambicana, como um todo, se debate, mas de uma maneira alegre como os moçambicanos são. É esta a ironia que eu desenvolvo nas minhas peças.

@Verdade: A obra que resume a sua mostra tem como título “Esconde-esconde”. O que é que está escondido em Maputo?

BS: Na produção das minhas telas, sempre tenho usado o mesmo material, a capulana, que é um símbolo muito forte em Moçambique. É verdade que ela não é daqui, mas ela ganhou um significado peculiar na vivência do povo. Tanto é que assim que eu cheguei aqui, descobri-a e encantei-me com a forma como a capulana faz parte do quotidiano da mulher moçambicana.

Então, penso que por aqui tudo está escondido, a capulana, a vida, a moçambicanidade, a beleza da mulher, as coisas que não são lindas mas que constituem o quotidiano da população local.

@Verdade: Num determinado quadro, inverteu a umbrela para propor Uma Nova Lógica. Como a traduzi na vida prática?

BS: Muitas vezes eu sinto que os moçambicanos não conhecem muitas coisas que constituem a vida dos europeus. Por isso percebo que eles – e, em certo grau os africanos – vêem a realidade de uma outra maneira, com base numa outra lógica. O que eu não quis dizer é se esta lógica é certa ou errada, se é justa ou injusta, mas sublimei a sua diferença. Daí que o guarda-chuva aparece ao avesso, não para abrigar-nos da chuva mas, antes, para acolhê-la.

@Verdade: Na obra Fui Admitido, desenvolve uma questão que tem a ver com a vida pessoal ou é mesmo fruto da sua imaginação criativa?

BS: Muitas vezes, nós, as pessoas, trabalhamos em sectores em que não nos sentimos felizes, mas, devido às complicações sociais de diversa natureza, somos impelidos a trabalhar. Noutras situações, por causa do referido contexto, as pessoas são tratadas como objectos e não como seres humanos. Ou seja, há vezes que nós não tratamos bem os nossos chefes, havendo, inclusive, momentos em que somos maltratados por eles.

Então, esse é um problema adjacente à questão da admissão ao trabalho. Em relação ao tópico retratado, utilizei cores coloridas porque não pretendo fazer uma crítica destrutiva, mas emitir uma mensagem que seja edificante. É certo que, em determinados trabalhos, desenvolvo assuntos que tenham um pouco a ver com a minha vida pessoal porque não é sempre possível transmitir uma experiência que não vivi.

@Verdade: Criou uma obra em que aparece um polícia que usa um colecte costurado com base em material metálico das latas de refresco. Ele possui uma arma – o que nos dá a ideia de que é o garante da segurança, mas também podia ser uma pessoa que está (bem) preparada para a guerra. Qual é o sentido que pretende emitir?

BS: Pode ser que o quadro represente uma acusação contra os polícias que, ainda que estejam na rua (por diversos motivos), não inspiram segurança ao cidadão. Os polícias passam a vida a pedir esmola, ao citadino, para comprar refresco. Isto, para eles, pode parecer normal mas não está correcto. Então, está-se perante uma brincadeira em que eu mostro um polícia que veste um protector costurado com base nas latas de refrescos que ele pede aos cidadãos.

@Verdade: Estará, no mesmo quadro, a falar da questão da corrupção?

BS: Talvez! Acho que é um ponto de vista válido.

@Verdade: Concebe o guarda- -chuva como um instrumento de protecção, para noutra ocasião invertê-lo criando Uma Outra Lógica. Que relação existe entre ambas as obras?

BS: Penso que se trata de um caso em que temos uma coligação que não foi pensada, premeditada, mas é intuitiva. São temas diferentes porque Uma Outra Lógica mostra-nos como usar o material de forma diferente, enquanto A Protecção revela- -nos a possibilidade da união para desenvolver um trabalho colaborativo de forma conjunta.

@Verdade: Como analisa a questão da moda nessas “Crónicas de Maputo?”

BS: Como se pode perceber, eu uso muito a capulana, o que significa que aprecio muito a moda da cidade de Maputo. As mulheres moçambicanas têm uma criatividade espontânea. Vestem-se todos os dias, sem pensar muito nisso mas ficam muito bonitas. A capulana, em si, é uma peça linda e rica.

@Verdade: Há aspectos lunáticos – ou até filosóficos – por aqui, como por exemplo, Um Abraço Espacial…

BS: É apenas um pouco da expressão de um desejo de voar. A vontade de fazer as coisas surreais ou sobrenaturais.

@Verdade: Tem enfrentado algumas limitações nesse campo?

BS: Agora não me ocorre nenhuma. Penso que na pintura tenho mais liberdade do que se trabalhasse com outros materiais. A pintura dá-me a possibilidade de desenvolver acções que, talvez, na vida real não seriam possíveis.

Inocêncio Albino

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