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Craveirinha era crítico dos resíduos da ideologia colonial

Foi lançado na noite de Quarta-feira, em Maputo, a título póstumo, a obra de José Craveirinha, com o título “Floclore Moçambicano e Suas Tendências”. Luís Cabaço, antigo Ministro da Informação, autor do prefácio desta obra, descreveu Craveirinha, poeta nacionalista moçambicano, como um indivíduo polémico, provocador e critico em relação aos resíduos da ideologia cultural colonial. Falando durante a cerimónia do lançamento da obra póstuma de Craveirinha, Cabaço disse que Craveirinha provocava frequentemente os seus próximo, desafiando-os para pensarem nos problemas do país.

Estas dimensões do Craveirinha, sobretudo o seu lado polémico, estão patentes nesse seu recente livro lançado sob a chancela da “Alcance Editores”, seis anos após a sua morte (em Fevereiro de 2003), juntando-se a outras obras emblemáticas como “Xigubo”, “Cela Um”, “Maria”, “Karingana wa Karingana”, “Babalaza das Hienas”, entre outras. A obra resulta da compilação de textos escritos por Craveirinha entre 1955 a 1987, parte dos quais durante a altura em que ele gozava da liberdade condicional cedida na sequência da sua detenção pela policia do regime colonial português (PIDE) por motivos políticos.

“Não é um livro sem polémica”, disse Cabaço, lembrando que alguns dos textos que constam na obra foram mesmo polémicos na própria altura da sua publicação em diversos canais, incluindo nos jornais onde Travessinha trabalhou como jornalista. “Mas o homem estava numa situação extremamente delicada, ele era um crítico nato do regime colonial vigente na altura, mas tal não podia ser feito de maneira directa senão recolhia novamente a cadeia”, contou Cabaço.

“Travessinha era um grande poeta, mas também foi um notável jornalista cultural e jornalista desportivo e dando esse carácter informativo e científico as notícias, ele furtava-se a dar uma interpretação politica”, disse Cabaço, sublinhando que quando este fazia “jornalismo desportivo fazia jornalismo desportivo político. Quando fazia jornalismo cultural, fazia jornalismo cultural político”. Os textos polémicos de Travessinha publicadas em “Floclore Moçambicano e Suas Tendências” abrangem diversa temática tendo como palco principal a Mafalala, o então principal bairro indígena onde viviam os negros e mulatos pobres, na sua maioria empregados dos brancos residentes dos bairros de pedra.

Um desses temas é o conflito “mulato biológico” e “mulato cultural”, em que o autor insurge-se contra o facto do mestiço que tem as suas raízes culturais africanas procurar se afastar da mesma e procurar ascensão na classe branca. A Marrabenta é pornográfica é outra questão polémica levantada por Travessinha, questionando igualmente a sua origem. Aliás, dois grandes músicos de Sul de Moçambique (o falecido Fany Fumo e o ainda vivo Dilon Ndjindji) reclamam o título de obreiros deste género de música e dança.

Travessinha não atribui o título a nenhum deles. Para o grande poeta, a Marrabenta não foi fundada, surgiu. Segundo ele, a Marrabenta surgiu na sequência das diversas reinterpretações de Magikhah e outras danças tradicionais durante as noites de diversão nas boates da Mafalala. “A dança era tão enérgica que as pessoas iam dizendo ‘rebenta’, ‘rebenta’”, disse Cabaço, comentando a abordagem de Travessinha sobre o surgimento do nome Marrabenta. A abordagem de Travessinha sobre a dança não termina por ai.

Para ele, existe uma diferença entre o palco de realização das danças africanas e europeias. Enquanto as africanas se realizam no chão, no contacto entre o pé e a terra, as danças europeias, como a valsa por exemplo, são aéreas, isto é se realizam no espaço com tendência a subir ao céu.

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