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Costa do Marfim: As últimas horas de um presidente

Isolado, cercado, exausto e esfomeado, o antigo presidente marfinense Laurent Gbagbo mostrou-se irredutível até ao fim, não hesitando em ordenar o bombardeamento à residência do embaixador da França. Duas semanas após a sua queda, eis aqui a história da sua captura.

 

 

Quinta-feira, 7 de Abril. Alassane Ouattara, o presidente eleito e reconhecido pela Comunidade Internacional, ordena o bloqueio da residência de Laurent Gbagbo. Sexta-feira, 8 de Abril, a resposta de Gbagbo é violenta: sete obuses e três roquetes caem sobre a residência do embaixador da França. Não há feridos.

Sábado, 9 de Abril. Laurent Gbagbo vai mais longe. Dá ordens para se atacar o Golf Hotel, o QG do seu adversário. A partir da sua residência, assiste-se, então, a uma hora de bombardeamentos maciços! Uma hora de pânico do lado dos partidários de Ouattara.

O saldo é mais assustador do que mortal. Mas estava provado que os bombardeamentos da ONUCI e das forças francesas de Licrone, no dia 4 de Abril, não haviam sido suficientes para desmantelar as forças do presidente cessante. Militarmente, Gbagbo continuava forte e poderoso.

Unha e carne

Melhor, ele conseguia reforçar o seu dispositivo de defesa. Em Cocody, os pilotos de helicóptero da ONUCI em reconhecimento constatam que seis dezenas de blindados e de carrinhas de transporte de tropas vieram dos campos militares de Agban e de Akouédo, para proteger a sua residência.

Doravante, há três vezes mais meios que os que foram utilizados no dia 4 de Abril! À cabeça das manobras está o general Dogbo Blé, o chefe das boinas vermelhas da guarda republicana. Em Outubro de 2000, foi ele que virou uma boa parte do Exército contra o general Gueï.

Naturais da mesma região, velhos companheiros de luta, Dogbo Blé e Gbagbo são unha e carne. O militar encontra-se na presidência, no Plateau. Enquanto isso, o político continua na sua residência, em Cocody. Ambos estão em contacto permanente.

“Bafo de Leão”

Domingo, 10 de Abril. Ao início da tarde, inicia-se a contagem decrescente. Os primeiros bombardeamentos têm lugar às 16h45. Durante a noite anterior, helicópteros de Licrone sobrevoaram Cocody para identificar uma a uma as armas pesadas do campo de Gbagbo. O QG da ONUCI, ao norte do Plateau, é visado por disparos. No seu bunker, Choi Young-jin, o comandante da missão, esgota a paciência. “Nos dias anteriores, permanecia prudente.

Mas, no domingo, ele bufava impacientemente”, revela uma testemunha. À hora combinada, os dois MI-24 da ONUCI, pilotados por ucranianos, entram em acção, atacando as armas pesadas e os blindados que protegem o palácio presidencial, o Plateau. Ao cair da noite, o controlo já está tomado. Próximo objectivo: o bairro de Cocody, onde se encontra a residência de Gbagbo. Os bombardeamentos são precisos e contínuos.

Às 22 horas, uma forte trovoada cai sobre os céus de Abidjan. Os bombardeamentos cessam durante uma hora, para depois se reiniciaram metodicamente até às 4 horas da manhã. Nesta altura, o estado-maior francês acredita que o terreno está “limpo” dando conta disso a Guillaume Soro, o primeiro-ministro de Ouattara.

Mas a determinação do campo de Gbagbo é mais forte do que os franceses imaginam. Domingo à noite, em pleno bombardeamento, o general Dogdo Blé faz chegar à presidência 600 jovens milicianos – alguns deles não possuem mais de15 anos – recrutados no bairro de Blockoss.

Gbagbo não desarma e, apesar da chuva de roquetes franceses que se abate sobre Cocody, conserva ainda armamento pesado junto da sua residência bem como o apoio de 200 homens. Às 8 horas de segunda-feira, 11 de Abril, Guillaume Soro lança as Forças Republicanas da Costa do Marfim (FRCI, sigla em francês) para o assalto final, mas cinco dos seus sete veículos são destruídos pela artilharia inimiga.

Os helicópteros de Licorne descolam novamente. Desta vez eles não têm somente por objectivo os blindados à volta da residência. Eles disparam para o interior, para os tanques que estão situados junto da residência. “Foi uma enorme descarga de pólvora”, conta o seu vizinho mais próximo, Jean Marc Simon, o embaixador da França. “O muro que separa a residência de Gbagbo da minha desabou abrindo um buraco de 15 metros. Sem dúvida devido às explosões.”

Simultaneamente, uma trintena de blindados franceses, equipados de canhões de 90 mm saem do campo militar de Port-Bouët. O objectivo é isolar o ex-presidente na parte sul de Cocody, impedindo a chegada de reforços pró-Gbagbo provenientes do norte. Enquanto isso, os blindados franceses abriam brechas no muro da residência.

“Não me matem”

Ao fim da tarde, os últimos soldados pró-Gbagbo debandam. As forças da FRCI avançam novamente sobre a residência. Vários “comzones” (comandantes de zona) encontram-se já na residência. Duzentos ou trezentos homens tomam de assalto a casa do presidente cessante.

Às 12h45, Laurent Gbagbo decide render-se. O seu secretário-geral, Désiré Tagro, telefona ao embaixador da França: “Quando me ligou havia uma enorme ruído à sua volta, dando a impressão de que todos queriam falar”, refere o representante diplomático francês. Pouco tempo depois, Soro dá 10 minutos a Gbagbo e aos seus partidários para que abandonem o edifício. Soro ordena ao mesmo tempo um cessar-fogo.

Às 13h08, os comandantes Vetcho e Morou Ouattara descem à cave da residência acompanhados de alguns dos seus homens. Segundo uma testemunha, Laurent Gbagbo implora: “Não me matem, não me matem.” Os seus correligionários, em número de 124, rendem-se.

Como a França e Ouattara pediram com insistência, Gbagbo encontra-se são e salvo, embora faminto tal como todos dentro de casa. Minutos mais tarde, o antigo número 1 da Costa do Marfim veste um colete à prova de bala e um capacete e segue para o Golg Hotel. A sua esposa tem menos sorte, sendo reconhecida à sua chegada ao átrio do hotel, e acabando por ser insultada e agredida.

Michel, o filho odiado de Laurent, escapa por pouco ao linchamento. Quarto 468. Simone Gbagbo aparece prostrada, olhos fechados. O seu marido enxuga o rosto e as axilas, muda de camisa e fala com os seus algozes. Parece, contudo, incrédulo diante da sua própria queda.

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