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Contaminada por causa da negligência dos pais: adolescente vive com HIV/SIDA há oito anos

Há uma necessidade extrema de se ter cuidado com os objectos cortantes e picantes, aos quais, vezes sem conta, se recorre para administrar remédios a certas pessoas, em particular nas cerimónias tradicionais inerentes aos costumes de certas famílias. Uma lâmina ou seringa já usada deve ser deitada fora e mantida distante do alcance de qualquer criança. Não serve para mais ninguém. Caso contrário, o seu uso pode significar passar uma doença de uma pessoa para outra. Foi assim que aconteceu com Albertina Moisés Massingue, uma adolescente de 10 anos de idade, que aos dois anos ficou infectada pelo HIV/SIDA durante uma cerimónia tradicional familiar.

Em 2004, o casal Ana Vuma e Moisés Massingue, residente algures no distrito de Chibuto, província de Gaza, Sul de Moçambique, submeteu-se a um tratamento tradicional na companhia da sua filha Albertina, que na altura tinha apenas dois anos de idade, com o propósito de tratar de alguns problemas de foro familiar, alegadamente porque os costumes da família assim o exigiam. Durante o ritual, à criança foram administrados medicamentos através de alguns cortes com uma lâmina, que supostamente havia sido usada por outras pessoas. Esse dia tornou-se fatal para a petiza: contraiu o vírus do HIV/SIDA. O pior é que os pais abandonaram-na.

Albertina Massingue vive no bairro Trevo, arredores da cidade da Matola. É uma criança infectada pelo vírus da SIDA por causa da negligência dos pais. Sofre ainda a dor da rejeição pelos próprios progenitores. Rejeitaram-na, abandonaram-na e relegaram os seus cuidados a uma avó. Entretanto, esta confessa que já não consegue cuidar da menina por falta de condições, apesar do apoio que lhe é dado por uma senhora afável lá no seu bairro.

Segundo a avó Angélica Matável, de 62 anos de idade, Albertina foi abandonada pelos pais ainda aos dois anos porque é seropositiva. O diagnóstico da doença foi feito no Centro de Saúde da Machava sede depois de muitas idas e voltas aos hospitais.

“Quando os pais dela descobriram que estava doente vieram a Maputo deixá-la comigo. A sua saúde piorou e havia pouco tempo que o meu marido acabava de perder emprego. Não tinha e não tenho como cuidar de uma criança doente”, disse Angélica Matável.

Em conversa com o @Verdade, Angélica Matável lembrou-se do dia em que ficou a saber que a sua neta estava infectada pelo vírus do HIV/SIDA. Visivelmente emocionada, disse que depois de pegar nos resultados, cujo diagnóstico era positivo, entrou em desespero. Sentiu o chão a tremer porque já tinha uma ideia do que a doença significava, sobretudo para uma criança como Albertina. “Não sabia como encarar a situação sem o auxílio de alguém, principalmente dos pais da menina”.

O tempo foi passando e um dia Albertina Massingue começou a fazer tratamento anti-retroviral (TARV). A situação financeira complicou-se cada vez mais porque a doente devia ter uma dieta alimentar de acordo com os medicamentos que tomava.

“Em 2008 decidi pedir socorro e imediatamente tive a resposta de uma mulher que parece ter nascido para cuidar de crianças sem afecto e carinho dos pais. Ela chama-se Isabel Muianga. Enchi-me de esperança e de motivos para sorrir junto à menina que aos poucos ia murchando”, narrou Angélica.

A rejeição pelos pais

Angélica Matável disse-nos que não se conforma com o facto de os pais da Albertina terem abandonado a própria filha só porque está contaminada pela SIDA. Eles estão separados e nenhum deles telefona para procurar saber como está a menina. A mãe dela, Ana Vuma, encontra-se no distrito de Magude e juntou-se a um outro homem.

“Estou preocupada com a minha neta e não sei qual vai ser o seu futuro. A doença que ela tem é como se fosse carregar uma cruz nas costas. A minha idade está a ficar avançada e ela não tem ninguém no mundo para lhe dar ensinamentos e conselhos da vida”, desabafou a avó.

De acordo com a nossa interlocutora, o pai de Albertina encontra-se há sete anos na vizinha África do Sul. Não dá notícias, nem quer saber da filha.

Uma mão benevolente

Apesar das dificuldades, Angélica Matável disse que desde que passou a beneficiar da referida ajuda de Isabel Muianga, não se tem queixado tanto. Com ela, Albertina ganhou uma nova família: melhorou a sua dieta alimentar que antes era precária. Já vai à escola desde 2008. Todavia, de forma condicionada porque há dias em que deve abdicar da escola para ir ao tratamento médico. Algumas indisposições têm igualmente interferido negativamente no seu quotidiano. Por isso, no ano passado reprovou na 5ª classe.

O @Verdade conversou também com Isabel Muianga. Para ela a discriminação e o estigma podem acelerar a degradação mental e física dos doentes, não só de HIV/SIDA. Para crianças como Albertina, o carinho dos pais é fundamental porque ajuda a superar e enfrentar a doença.

“Espero que Albertina saiba lidar com as rejeições na sociedade. Que busque forças em Deus para fazer da sua vontade de viver um alicerce para erguer a cabeça nessa luta incessante”, afirmou Isabel, a senhora que presta apoio à doente.

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