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Constantino Warrila: O decano do canto tradicional

Constantino Warrila dedica-se à música tradicional desde a infância. Por isso, aos 62 anos, a sua produção musical confunde-se com a vivência dos seus apreciadores, havendo, em resultado disso, em Nampula, pessoas que assumem que é sobre elas que o artista canta.

Constantino Warrila canta a música tradicional em Nampula, para retratar o dia-a-dia das comunidades locais, com enfoque para o povo macua. As suas actuações – que se confundem com um ritual tradicional – arrastam multidões, tornando o artista um dos mais populares. É autor e intérprete das composições 25/9, Muana Conthelia o Hienve (As crianças não devem casar precocemente) e Omualana Ossivilewaka.

Warrila tem 62 anos, nove filhos, é professor de profissão e dedica- se ao canto tradicional desde a infância, em Ribáuè, onde nasceu.

Em Nampula, por causa da experiência que possui, Warrila confunde-se com uma biblioteca ambulante, sobretudo para a geração mais jovem. A par da produção musical, o cantor é investigador de raízes no campo da medicina tradicional. Trata-se de uma actividade que acompanha a sua vida. Para si, a música é um meio de disseminar informação e instrução.

Domina a língua portuguesa, mas – quando o assunto é a produção e exposição dos seus produtos musicais – prefere cantar em Emákuà. “Além de me satisfazer, esta língua amplia a minha liberdade para o trabalho que faço”, comenta.

Num outro desenvolvimento, Warrila esclareceu que “aprendi a tocar instrumentos de música tradicional com os meus pais. Eles cantavam em Emákhuà. O meu pai, que era um médico tradicional, tocava instrumentos de música tradicional e cantava. A minha mãe cantava nos rituais femininos enquanto o meu avô materno tocava um ritmo chamado Thakacare”.

O cantor possui um violão de quatro cordas – um Kanakare, como o baptizou. As suas composições são criadas em função das circunstâncias e do contexto vividos por si, guiando-se, assim, pela necessidade de fazer uma intervenção social. Ele canta e toca. “Graças a Deus nunca fiz nenhum tipo de plágio às obras dos outros artistas. As pessoas que acompanham e apreciam as minhas músicas dizem que sou poeta”, refere.

Warrila chama Sebá Sebá ao tipo de dança originada pela sua música, que pode ser praticada de forma solitária ou mesmo aos pares, como acontece nalgumas coreografias modernas.

Cantar para o público

Warrila fez um longo percurso no tempo para tornar as suas obras conhecidas. No entanto, a sua primeira e grande oportunidade apareceu-lhe há cerca de 30 anos. Ele recorda-se da data – 20 de Setembro de 1984, altura em que a Rádio Moçambique, em Nampula, lhe criou condições para gravar as primeiras composições, algumas das quais foram emitidas naquela estação radiofónica.

Actualmente, este artista possui 47 músicas espalhadas por várias rádios que, às vezes, são tocadas. No entanto, ainda que tal número seja expressivo, a maioria das suas obras ainda não foi divulgada.

“Tenho 120 músicas por lançar. O meu primeiro e único CD, composto por 12 temas, foi gravado em 2010 na cidade de Maputo e produzido por uma editora sul-africana, com o apoio da Universidade Lúrio. Pensei que a sua publicação seria uma grande oportunidade para a popularização das minhas músicas, mas houve problemas técnicos. Grande parte dos discos chegou com defeitos e teve de ser restituído à África do Sul”, afirma Warrila que espera pelo envio do produto à capital moçambicana em bom estado.

Um sonho antigo

Entretanto, apesar das dificuldades económicas em que se encontra, o cantor não abre mão de um sonho antigo – ele pretende fundar uma escolinha de música a fim de transmitir o seu legado intelectual às camadas mais jovens. Para o efeito, está a procurar apoios. Pensa que a Casa Provincial de Cultura em Nampula podia ser um espaço ideal para a materialização do seu projecto. Mas outros sítios podem ser seleccionados.

Desvalorização da música

Warrila reconhece que nos últimos anos tem havido uma evolução grande na música moçambicana, incluindo em Nampula. No entanto, quando o assunto é a promoção da música tradicional tal fenómeno não se verifica. Mesmo que se realizem concertos de acesso gratuito, as pessoas não aderem. É essa realidade que desvaloriza o trabalho criativo dos artistas. “O músico precisa de ser acompanhado e acarinhado, no entanto, infelizmente, isso não tem acontecido na actualidade. É preciso valorizar aquilo que é nosso”.

Por exemplo, “no ano passado, a convite dum grupo americano, participei em dois espectáculos na cidade de Maputo, num dos quais era o único músico moçambicano. Na sala que acolheu o evento havia muitos estrangeiros que aplaudiram a minha actuação, contrariamente ao que sucede quando os espectadores são moçambicanos”, afirma Warrila.

Foi histórico

O artista afirma que das centenas de todas as suas actuações, as que o marcaram aconteceram na cidade de Maputo – na inauguração do Centro Cultural Franco-Moçambicano, bem como na tomada de posse do Presidente da República, Armando Emílio Guebuza.

“Assim que soube que iria actuar na cerimónia da tomada de posse de Guebuza, preparei uma música porque pensava que ia cantar. No entanto, quando cheguei à cerimónia fui surpreendido pela informação de que devia recitar um poema traduzido para a língua Emákuà. Havia três artistas que representavam as três regiões do país”.

Em decorrência do facto de presentemente o artista não ter os discos que aguarda da África do Sul, ele considera que “não tenho nenhuma obra à venda, ainda que o meu objectivo também seja ganhar dinheiro, não tenho hipótese de concretizá-lo. De qualquer modo, fico feliz pela possibilidade que a música tradicional me oferece”.

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