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Toma que te dou: Como é que vou pensar nas flores?

Depois das 12.00 horas do dia 07 de Abril, já não estava ninguém na cidade de Inhambane. Nem as pessoas, nem os carros. Nem nada. As ruas e avenidas pareciam mulheres nuas escancaradas, à espera de alguém para lhes amar. As lojas dos indianos – também – estavam fechadas. E as casas de pasto que se encontravam abertas não tinham comensais.

 

Quer dizer, todo aquele vazio representava, na sua plenitude, um lugar em que as pessoas optaram pelo êxodo, ou pelo recolher obrigatório. Era um silêncio absoluto, desmentido, porém, pelo mercado central que teimava em vender algo para as pessoas que não existiam.

 

Aluguei um txopela depois de me cansar da marcha pedestre. Queria continuar a vestir a minha linda urbe, e não tinha um roteiro previamente traçado, mas é assim que eu gosto. Adoro andar à toa. Divirto-me com a possibilidade de mudar repentinamente de rumo, ou de chegar a um sítio agradável, de forma casual, como agora que estou numa bifurcação, onde uma ramificação me leva ao aeródromo, e outra à Praia do Tofo.

Sem que tivesse dito nada ao condutor do txopela, este optou por dirigir o seu veículo à base dos aviões, e eu não protestei. Estou em silêncio desde que lhe disse: “Vamos passear”.

– Vamos para onde, chefe?

– Não sei, vamos andando por aí, depois a ver vamos, como dizem os cegos.

Estou disposto a estoirar quinhentos meticais levitando neste meio de transporte que me faz lembrar – não sei porquê – os riquexós. Sinto-me um personagem na pele do antropólogo que vai pesquisar algo de que ainda não sabe, mas que tem a certeza de que sairá satisfeito. E é isso que move o meu espírito.

O aeródromo está vazio. Completamente oco. Na placa não se vê aeronave alguma. As portas dos escritórios estão encerradas. Olho, de longe, a pista de aterragem sobre a qual os corvos sobrevoam, descem e sobem como os aviões de guerra e, para além desse espectáculo, não há mais nada senão as palmeiras que se erguem ao longe, soberbas, ululando em silêncio.

Reclino-me no cerco de vedação metálica, e sorvo o ar puro que me revigora os pulmões, esperando que algum avião chegue e me alegre os olhos e a alma, mas é uma espera em vão. Olho para trás sobre o meu ombro direito e vejo o txopelista com a cabeça descansada ao volante. Relaxado. Mas temos que ir embora. Temos que voltar pelo mesmo caminho de onde viemos – o que não significa, necessariamente, que vamos encontrar as mesmas coisas.

– Vamos, jovens.

– Desculpa, estava a pensar na vida, chefe.

– Eu sei, isto não está nada fácil. Passamos a vida a fazer contas à vida e nada dá certo. Mas não podemos parar. Temos que manter a máquina quente. Amanhã tudo vai mudar, quem sabe!

– Quem sabe, chefe! Quem sabe! Eu também acredito que amanhã tudo vai mudar.

O motor do txopela ronca sem pressa. Distraio-me com as crianças que vão gritando enquanto passamos, devagar: “É txopela”, “é txopela”, “é txopela”!

– É bom ser criança, não é bom, jovem?

– Depende, chefe.

– Depende de quê?

– Há crianças que passam mal, chefe.

– É verdade. Há muitas crianças que dormem na rua, e comem restos de comida catada dos caixotes de lixo.

– Já viu, chefe, que nem sempre anima ser criança?

– Tens razão. Mas hoje é o dia 07 de Abril. Já compraste uma prenda para a tua esposa ou namorada?

– Onde?!

– Onde, porquê?

– A minha prioridade é o pão diário para ela e para minha filha, e nem sempre consigo esse pão. Como é que vou pensar nas flores?

Alexandre Chaúque

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