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Comerciante amputa os dedos de três crianças depois de lhe terem roubado 520 meticais

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Cortar a mão de quem rouba ou furta, independentemente da classe social ou grau de instrução, faz parte da prática islâmica com o intuito de dissuadir os criminosos desse acto. Entretanto, no bairro Paulo Samuel Nkamkomba, na Vila de Boane, província de Maputo, um comerciante identificado pelo nome de Andrade Chilaúle, decidiu aplicar esta norma contra três crianças ao amputar o dedo indicador da mão direita de cada uma delas, alegadamente porque roubaram 1.500 meticais da caixa da sua loja. Todavia, as vítimas, Moisés Victorino, de 11 anos de idade, Luís Armando e Nerto Naiene, ambos de 12 anos, confirmam que surripiaram apenas 520 meticais.

O negociante, detido na Cadeira Central de Maputo, utilizou um alicate de corte, vulgo “troquejo”, para cometer o crime. A esposa, Graça Leite, disse ao @Verdade que o seu cônjuge não precisou de ser procurado pela Polícia, pois ele entregou-se. O secretário daquele bairro, Domingos Samson, confirmou-nos que o indiciado tomou essa atitude.

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Entretanto, os meninos interromperam as aulas na 4ª e 5ª classe, respectivamente, pois, uma vez terem perdido o dedo indicador da mão direita, não podem fazer uso do lápis ou da esferográfica. Desde o dia em que o episódio se deu, eles parecem ter deixado de ser destros porque fazem tudo com a mão esquerda.

A descoberta do roubo

Segundo as três crianças, elas encontravam-se a jogar bilhar no mesmo estabelecimento comercial onde subtraíram, às escondidas e na ausência dos proprietários, o montante que precipitou a mutilação dos seus dedos.

À nossa Reportagem, Graça Leite contou que os petizes roubaram na loja da sua família 1.500 maticais e não 520 como alegam. Ela afirmou não estar enganada porque tudo aconteceu numa altura em que estava a controlar o caixa e, simultaneamente, ocupada com alguns trabalhos domésticos. Notou a presença dos miúdos em frente da sua barraca que, de seguida, ficaram a jogar bilhar mas não pensou que pudessem ter a iniciativa de roubar quando se ausentou por alguns instantes.

Moisés Victorino, Luís Armando e Nerto Naiene reafirmam que a senhora não está a dizer a verdade porque quando foram descobertos ainda não tinham usado o valor.

“Estávamos a jogar bilhares e decidimos roubar algum dinheiro para continuar a fazer o jogo e comprar um sumo. Dos 520 meticais que levámos, fiquei com 400 para aguardar”, explicou Armando, estudante da 5ª classe.

Na altura em que os petizes saquearam a quantia, Andrade Chilaúle acabava de sair de casa em direcção à vila de Boane com o objectivo de fazer compras. Porém, esqueceu-se do seu cartão do banco, tendo voltado para ir buscá-lo.

Nesse momento, a mulher, que ainda não havia abordado as crianças sobre o desaparecimento do valor em causa, perguntou ao marido se teria sido ele ou não quem subtraiu 1.500 meticais da caixa.

O cônjuge respondeu negativamente, ficou preocupado e disse que nenhuma quantia monetária desaparece sem explicação. Nesse momento, Graça Leite apontou os três meninos como prováveis responsáveis, supostamente porque se encontravam na loja a jogar bilhares antes do referido montante sumir.

Por sua vez, o comerciante, furioso, perguntou às crianças se teria ou não sido uma delas quem entrou na loja e retirou uma parte da receita do dia. Assustadas, as duas (Luís Armando e Nerto Naiene) confessaram o furto de 520 meticais.

O injustiçado

Moisés Victorino conta que foi vítima porque não sabia que os seus amigos haviam mexido em dinheiro alheio. Enquanto isso, Luís Armando e Nerto Naiene dividiram o montante entre eles à revelia do companheiro. Um deles ainda ofereceu 120 meticais à mãe.

Em relação ao caso, os familiares dos três menores tentaram chegar a um entendimento com Andrade Chilaúle no sentido de ressarci-lo do prejuízo de que se queixava, mas o pedido foi rejeitado. O ofendido alegou que não era a primeira vez que perdia quantias monetárias em situações não claras, porém, naquele dia havia descoberto quem lhe prejudicava.

Para além de acusar as três famílias de viverem à custa do seu suor, disse que elas eram incapazes de pagar o valor em causa pretensamente porque não tinham condições financeiras para o efeito. Proferiu também palavras injuriosas no intuito de humilhar e desvalorizar os seus vizinhos.

“O senhor Andrade levou-me à força para a casa dele e obrigou-me a confessar um crime que não cometi. Quando Luís Armando e Nerto Naiene roubaram o montante eu não estava com eles. Mas cortou-me o dedo porque acha que roubei o dinheiro dele”, narrou Victorino, aluno da 4ª classe.

A crueldade

Movido pela fúria, Chilaúle decidiu fazer justiça pelas próprias mãos. O homem caminhou em direcção ao interior da sua casa, de onde trouxe um alicate de corte e, sem compaixão, ignorou a aflição dos meninos e dos seus parentes e amputou, a sangue frio, cada dedo indicador de um dos supostos ladrões. Dos presentes no acto ninguém conseguiu detê-lo nem fazer-lhe reconsiderar da decisão que ia tomar.

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Chilaúle não apoia as crianças

Os familiares de Moisés Victorino, de Luís Armando e de Nerto Naiene consideram que a prisão de Andrade não basta. Ele devia ajudar nas despesas relativas aos cuidados médicos dos adolescentes. Queixam-se ainda do distanciamento da sua esposa, que se mantém indiferente, como se nada tivesse acontecido.

Armando Luís, pai de Luís Armando, diz que nem sequer recebe a visita da Graça Leite para acompanhar a evolução do estado de saúde dos menores que contraíram sequelas para o resto das suas vidas.

O caso dos três rapazes está a correr os seus trâmites no tribunal e o governo da província de Maputo, através do Instituto Nacional de Segurança Social, está a acompanhar o processo e ajuda também nos tratamentos médicos. “O senhor Chilaúle merece uma pena exemplar por ter causado no meu filho uma cicatriz que nunca vai sarar”, afirmou o progenitor da vítima.

Nerto Naiene é órfão de pais e está sob a responsabilidade do seu avô, Paulo Tomás. Este diz que a vida se torna difícil quando uma criança perde uma parte dos órgãos que lhe permitem exercer várias tarefas diárias.

“Os três meninos sentem-se inválidos porque já não poderão usar a mão direita normalmente como o faziam antes. Espero que a justiça seja feita e quem amputou o dedo do meu neto e das outras duas crianças tenha uma pena de prisão exemplar. Nada justifica o que fez”, desabafou Tomás.

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