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Chuvas mais destrutivas, secas intensas, subida do nível do mar e aumento de ciclones são alguns dos impactos das Mudanças Climáticas que poderão reduzir os rendimentos da agricultura em Moçambique

Chuvas mais destrutivas

Cidadão Repórter AdrianoOs cidadãos da vila do Songo, no distrito de Cahora Bassa, na província de Tete, presenciaram na tarde desta segunda-feira(16) um fenómeno natural inédito: caíram granizos durante mais de 2 horas. Embora não tenha uma relação directa é mais um sinal das Mudanças Climáticas que o nosso planeta está a registar. “(…)Vamos ter menos dias chuvosos e a chuva vai ocorrer com maior intensidade e com poder destrutivo maior”, afirmou o académico Rui Brito que prevê também “secas mais intensas, mais frequentes, em áreas maiores”, a subida do nível do mar que deverá inundar várias regiões de cultivo nos deltas dos rios Zambeze e Save a ainda o aumento de ciclones “com maior capacidade de destruição”. Conjugados estes fenómenos climáticos poderão ter impactos negativos nos rendimentos da agricultura em Moçambique.

“Está-se a prever que este ano a média global da temperatura seja já um grau superior a média total, é a primeira vez que isso vai acontecer, portanto nós já estamos numa situação em que o crescimento da temperatura já está a acontecer e já está a criar problemas ao nosso desenvolvimento, a nossa sociedade” começou por traçar o cenário o académico moçambicano num seminário da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) a propósito do Ano Internacional dos Solos que se celebra este ano em todo o mundo, realizado na semana finda em Maputo.

“Se as tendências de subida de temperatura, que nós estamos a observar agora, se mantiverem durante os próximos anos nós estamos a ver que em 2050 nós teremos mais dois graus centígrados a acima da média global, significa que em Moçambique teremos 4 graus mais” explicou o académico Rui Brito acrescentando que um dos impactos primários será que “(…)as chuvas não vão cair mais em termos quantitativos mas ela vai estar concentrada, significa que vamos ter menos dias chuvosos e a chuva vai ocorrer com maior intensidade e com poder destrutivo maior”.

Além disso Moçambique que já é um país semi-árido no futuro deverá “ter secas mais intensas, mais frequentes, em áreas maiores”.

Uma outra preocupação do professor Brito são os ciclones que têm aumentado de intensidade, de frequência e com maior capacidade de destruição. “(…)Com as Mudanças Climáticas a intensidade dos ciclones está aumentar e eles estão também a emigrar mais para Sul. De 1980 a 1993, são 14 anos, em Moçambique houve quatro ciclones com ventos de cerca de 100 quilómetros por hora. No mesmo período de 14 anos, já entre 1994 e 2007, registaram-se onze ciclones. Portanto a frequência aumentou e a maior parte tiveram intensidades maiores (com ventos superiores a 120 quilómetros por hora)”.

Produção agrícola vai reduzir em cerca de 18%

Apresentação Rui Brito UEMA apresentação do académico versou sobre os impactos destas Mudanças Climáticas na agricultura de sequeiro praticada em Moçambique com enfoque em seis culturas diferentes: milho, mapira, mandioca, amendoim, algodão e soja.

“Na zona norte vai haver um ligeiro aumento (da produção de milho), devido ao aumento da chuva. Nós vamos ter um balanço positivo mas na zona Centro vamos ter rendimentos mais baixos, portanto no futuro estamos a antever perca na ordem dos 400 quilos por hectares, mais ou menos equivalente a um decréscimo de 15% da produção. Na zona de Tete estamos a prever que o rendimento da agricultura em sequeiro vai baixar só por causa da mudança do regime hídrico”, prognosticou Brito.

“Olhando só para a temperatura, quando ela sobe o ciclo da cultura fica um pouco menor e isso tem efeitos nos rendimentos. Na mandioca (que é uma planta que dura o ano todo) o rendimento será mais positivo. Se em termos médios a temperatura aumentar 2,1 graus nós teremos um rendimento médio da mandioca superior a 6%. Mas olhando para as outras culturas esta subida vai afectar os rendimentos na ordem dos 11% negativos”, previu também o professor da Faculdade de Agronomia e Engenharia Florestal da Universidade Eduardo Mondlane.

“Outro problema é a concentração de ozono, tem efeito na taxa de respiração e, quanto maior for o ozono menor será o rendimento da planta, e aqui está-se a prever subidas na ordem de 23 partes por milhão, em termos médios em todo o país, há um impacto diferenciado para as culturas sendo o algodão o mais afectado e o milho e a mapira serão os menos afectados. No âmbito da subida da concentração de ozono equivale a um decréscimo na ordem de 37% na produção de algodão, soja 28%, amendoim e mandioca 14% e mapira menos 9%”, conjecturou ainda Rui Brito.

De acordo com o professor “Somando estes efeitos todos: subida da temperatura, do ozono e do CO2, o impacto no potencial de produção de algodão é de uma redução de 21%, uma redução de 19% nos rendimentos da soja, amendoim e mandioca menos 15%, no milho e mapira menos 13%.”

Mas há mais previsões pouco animadoras se nada fizermos, “Somando o impacto das chuvas e evaporo-transpiração, o aumento da temperatura, do ozono e do CO2 temos uma média final de menos 18% de rendimentos potencial para aquelas seis culturas, isto equivale em certas regiões, por exemplo na Zambézia, a menos 33% de potencial de produção. A consequência disto no PEDSA (Plano Estratégico de Desenvolvimento do Sector Agrário) que projecta para 2020 duplicar os rendimentos e aumentar 25% a área plantada e com isso assegurar que tenhamos um crescimento de 7% nós devemos compensar o efeito das mudanças climáticas devemos aumentar em 2,5 vezes o rendimento actual, e teríamos que crescer ao ano 7,5% para atingirmos os valores projectados.”

Apresentação Rui Brito UEMSegundo o académico da Faculdade de Agronomia e Engenharia Florestal da Universidade Eduardo Mondlane a subida do nível do mar, em consequência do degelo resultante do aumento da temperatura global é outra dificuldade para o grande potencial de produção agrícola que o nosso país tem.

“Hoje as regiões dos deltas do Zambeze e do Save são áreas produtivas mas no futuro serão completamente inundadas por causa da água. No Zambeze por exemplo teremos (em 2046-2065) 240 quilómetros quadrados de áreas actuais de cultivo que vão ser completamente inundadas, no Búzi 19 quilómetros quadrados e no Save 170 quilómetros quadrados”, explicou Rui Brito que apesar de todos estes cenários acredita Moçambique pode continuar a almejar a auto-suficiência alimentar mas para isso tem de encontrar soluções locais. “Por exemplo mapear as zonas de risco com mais informação sobre as zonas de cheias e de secas, não há ainda planos de desenvolvimento territoriais”.

Granizo em Tete

Entretanto na vila do Songo, na província de Tete, onde durante a manhã o calor foi sufocante, registaram-se cerca de 40 graus centígrados, pouco depois das 14 horas começou a chover torrencialmente. Para espanto do cidadão juntamente com a gotas da chuva vieram também os granizos durante cerca de 2 horas 40 minutos.

“No momento em que começaram a cair eu estava no recinto do Hospital Rural de Songo e curiosamente foi o local que caiu muito mais granizo do que outra área da Vila”, relatou-nos telefonicamente o cidadão Adriano Carvalho.

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De acordo com alguns cidadãos mais adultos, e que residem na vila desde antes da independência, nunca viram granizos caírem no distrito de Cahora Bassa.

Um cidadã residente no distrito de Chifunde, também na província de Tete, confirmou que na região também choveu torrencialmente e igualmente caíram granizos.

Para o meteorologista Lelo Tayob, do Instituto Nacional de Meteorologia (INAM), esta queda de granizos “é típico da época de verão” mesmo acontecendo na província de Tete, onde tradicionalmente registam-se temperaturas muito altas e com pouca humidade. “Mesmo na época chuvosa passada enquanto as pessoas prestavam muita atenção para Mocuba a região de Tete estava a registar valores de precipitação mais altos, e depois pelas características do relevo cria poucos danos”.

Cidadão Repórter Adriano“Estas situação são muito rápidas, aquece muito, há condições de convecção (que são massas de ar ascendentes), ascendem e logo condensam a massa de ar, se esse movimento for feito com uma velocidade enorme a chuva é iminente e pode ser chuva muito forte e há esses casos de ocorrência de granizos”, acrescentou o meteorologista que estima que tenham caído mais de 35 milímetros por hora, “é muita água”.

Lelo Tayob revelou-nos ainda que a época chuvosa está atrasada, oficialmente deveria ter iniciado em Outubro, “(…)já teríamos a zona de convergência um pouco dentro e esse atraso é mais por causa de um bloqueio, temos centros de alta pressão, um sobre o Atlântico e outro sobre o Índico, no nosso inverno não ocorreu nenhum frente fria(…) para a zona Sul e zona Centro esse bloqueio está a criar muita influência”.

Não foi possível apurar a existência de vítimas ou danos nas habitações ou em outras infra-estruturas nos locais onde os granizos e a chuva forte caíram na província de Tete.

Na semana finda o Governo de Filipe Nyusi aprovou o seu plano de contingências para esta época chuvosa. Desde o início de Setembro que cinco distritos da província de Gaza enfrentam, novamente, o drama cíclico das cheias. Entretanto, e apesar dos vários milhões de dólares e de meticais disponibilizados para a reparação das principais vias de acesso que permitem a ligação rodoviária em Moçambique grande parte delas não está ainda pronta para novas chuvas. A primeira grande chuva que caiu na província da Zambézia deixou uma estrada nacional interrompida.

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