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“Chernobyl era um Ferrari a acelerar. Fukushima é um Ferrari a travar a fundo”

O acidente na central nuclear japonesa de Fukushima é o segundo mais grave registado até hoje, classificado com grau de cinco ou seis numa escala de gravidade que vai até sete. Um nível que foi atingido em Chernobyl, actual Ucrânia, em 1986.

Porém, as duas situações são distintas. Enquanto a central ucraniana estava a operar em pleno quando aconteceu o acidente, onde houve erro humano, a central japonesa está a tentar parar desde que, sextafeira, se desligou automaticamente depois do sismo que atingiu o país. “Chernobyl era um Ferrari com o acelerador a fundo, Fukushima é um Ferrari a travar a fundo.”

A imagem é de um especialista italiano em energia nuclear. Gianfranco Sorasio, ex-professor do Técnico que trabalha na empresa portuguesa de energia fotovoltaica WS Energy, explica que uma central nuclear quando é desligada não pára de produzir neutrões automaticamente.

É um processo lento, que demora até uma semana e é muito delicado do ponto de vista técnico. Durante esta fase, o reactor continua a produzir calor, pelo que necessita do sistema de refrigeração com água fria. O que aconteceu em Fukushima foi um “evento extremo e raro”, sublinha o especialista.

A queda abrupta de consumo – com habitações, fábricas, comboios e redes destruídas em segundos – que se seguiu ao sismo desligou automaticamente vários reactores nucleares. A posterior falha de electricidade afectou o sistema primário de refrigeração.

A água do tsunami que se seguiu impediu o arranque dos geradores, que constituíam o sistema de backup para manter em funcionamento as bombas de água. Foi devido a falhas no arrefecimento de algumas barras usadas para absorver o calor produzido na central que ocorreu a explosão inicial, que, no entanto, não afectou ainda o reactor, mas algumas estruturas à volta.

Água do mar: último recurso

O cenário teria sido ainda mais negro se as centrais tivessem continuado a operar. O que os técnicos e as autoridades do país estão a tentar agora é assegurar o arrefecimento dos reactores enquanto não for possível matar o processo de geração de calor e energia. E ainda vai demorar alguns dias, talvez uma semana, controlar as consequências da situação.

Este é o cenário optimista, diz Gianfranco Sorasio, porque até agora ainda não terá havido uma contaminação grave da atmosfera, apesar de terem existido fugas de radioactividade. O cenário pior acontecerá se o sobreaquecimento derreter a estrutura que protege o núcleo do reactor e as barras que o rodeiam, o que originará uma fusão nuclear descontrolada – um nuclear meltdown.

Quanto à utilização de água do mar para arrefecer o reactor, recurso já usado em Fukushima, este especialista considera que é já uma opção de último recurso, porque, ao contrário da água pura, que tem capacidade de se regenerar após exposição a radiações, as muitas partículas presentes na água salgada propagam as radiações. Sorasio realça, contudo, que os técnicos japoneses estão entre os mais bem preparados a nível mundial.

A central nuclear de Fukushima é uma das unidades com maior capacidade a nível global. Tem uma potência instalada de 4700 MW (megawatts). As centrais nucleares japonesas satisfazem cerca de 25% do consumo de electricidade do país. Estas unidades foram concebidas para resistir aos sismos mais fortes até então registados nos locais em que foram instaladas.

Esta crise nuclear fez soar o alarme e em parte eclipsou a tragédia humana provocada pelo terramoto de 9º na escala de Richter e o tsunami que se seguiu, que causou mais de 11 mil vítimas, entre mortos e desaparecidos, pulverizando a costa noroeste do Japão.

Os últimos 50 técnicos que permaneciam a trabalhar para evitar o derretimento dos reactores da central nuclear de Fukushima um voltaram ao trabalho no final do dia de quarta-feira, após terem sido retirados do local temporariamente por ordem do governo devido a um grande aumento do nível de radioactividade no local.

Segundo o porta-voz do governo japonês, Yukio Edano, os níveis de radiação caíram na fabrica, possibilitando o regresso seguro dos funcionários. A retirada dos 50 técnicos ocorreu após o governo anunciar que o vaso de confinamento do reactor três se encontra “parcialmente danificado”, enquanto a TV japonesa mostrava uma nuvem de fumaça branca sobre o complexo

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