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Celebramos o jubileu do início da Luta Armada de Libertação de Moçambique

Celebramos o jubileu do início da Luta Armada de Libertação de Moçambique

Nesta quinta-feira (25) comemoramos o 50º aniversário do início da Luta de Libertação Nacional. Para recordar a efeméride, publicamos na íntegra o sétimo capítulo do livro “Lutar por Moçambique”, escrito por Eduardo Mondlane em 1969.

“A guerra”

O exército português esperava um ataque, mas tinha subestimado a nossa capacidade, bem como os nossos objectivos. Supunham eles que a nossa estratégia seria baseada em contínuas flagelações das forças portuguesas na fronteira, a fim de pressionar as autoridades portuguesas no sentido de se alcançar um acordo. Por outras palavras, a FRELIMO, protegida pelo «Santuário» da Tanzânia, contentar-se-ia com uma série de incursões de bate e foge através da fronteira. Para se defender dessa acção, o exército português desdobrou uma larga força ao longo da margem do Rovuma e evacuou as populações que viviam nas fronteiras.

Porém, a FRELIMO tinha-se preparado não para uma acção de flagelações, mas para uma guerra do povo contra as forças armadas portuguesas, guerra que a seu tempo levaria à derrota ou rendição dos Portugueses. Esta subestimação das nossas intenções era certamente benéfica para nós nas primeiras fases da guerra.

O Comité Central tinha dado instruções às forças da FRELIMO para montar operações simultâneas em vários pontos do país, todas no interior. Não iam «invadir» o país, como os Portugueses esperavam, mas já lá estavam dentro, fazendo reconhecimentos das posições portuguesas e ganhando novos recrutas.

Em 25 de Setembro a FRELIMO lançou um grande número de acções de ataque a postos militares e administrativos na província de Cabo Delgado. Em Novembro já a luta se estendia às províncias do Niassa, Zambézia e Tete, forçando os Portugueses a dispersar os soldados e impedindo-os de realizar um contra-ataque eficaz. Confrontado com acções de combate em quatro províncias ao mesmo tempo, o exército português não estava à altura de preparar expedições ofensivas sem deixar outras posições vitais a descoberto. O resultado foi que a FRELIMO conseguiu consolidar as suas posições estratégicas no Niassa e em Cabo Delgado, que tinham sido os objectivos desta primeira fase da guerra. As unidades que operavam na Zambézia e em Tete foram então retiradas e provisoriamente reagrupadas no Niassa e em Cabo Delgado, para reforçar a capacidade ofensiva da FRELIMO e assegurar que os avanços feitos nestas províncias fossem mantidos e que fosse estabelecida no interior uma base firme de acção militar e política. Os Portugueses, por outro lado, não podiam retirar as suas tropas de Tete e da Zambézia, visto que assim correriam o risco de encontrar nova ofensiva nestas áreas. Deste modo, o inimigo era obrigado a manter grandes forças imobilizadas, enquanto todas as forças da FRELIMO estavam aptas para a acção.

O sucesso destas primeiras operações abriu-nos o caminho para intensificar o recrutamento e aperfeiçoar a nossa organização. Em 25 de Setembro de 1964, a FRELIMO tinha só 250 homens treinados e equipados, que operavam em pequenas unidades de10 a15 homens cada uma. Pelos meados de 1965, já as forças da FRELIMO operavam com unidades a nível de companhia, e em 1966 as companhias foram organizadas em batalhões. Em 1967 o exército da FRELIMO tinha atingido efectivos de 8000 homens treinados e equipados, sem contar as milícias populares ou os recrutas treinados mas ainda não armados. Por outras palavras, a FRELIMO aumentou os seus efectivos de combate trinta e duas vezes, em três anos.

Pelo lado português, os constantes aumentos dos efectivos do exército e do orçamento militar são a prova do impacte já obtido pela guerra. Em 1964 havia cerca de 35 000 soldados portugueses em Moçambique; pelos fins de 1967 havia entre 65 000 e 70 000. Nos meados de 1967, a Assembleia Nacional de Lisboa aprovou uma lei que baixava o limite de idade de inscrição no Exército para 18 anos e aumentava o período de serviço militar para três anos, ou mesmo quatro, em casos especiais. Nos princípios de 1968, foi anunciado que mesmo os que eram anteriormente considerados inaptos para o serviço militar, como os surdos, mudos, coxos, seriam mobilizados para serviços auxiliares, e que mesmo as mulheres também seriam admitidas a estes serviços.

Em 1963, o orçamento militar para Portugal e as colónias era de 193 milhões de dólares. Em 1967, só para a defesa das colónias, o orçamento foi de 180 milhões, e em Abril de 1968 esta verba foi oficialmente aumentada em 37 milhões, totalizando 217 milhões de dólares para as guerras coloniais. Estes dados são oficiais, fornecidos por Lisboa, e, visto que Portugal tem boas razões para rebaixar as suas verbas militares por causa da opinião pública interna e mundial, não será precipitação supor que Portugal esteja agora a gastar alguma coisa como 1 milhão de libras por dia para «defender o povo das províncias ultramarinas» contra… o povo das províncias ultra­marinas.

Esta «escalada» da agressão portuguesa corresponde a um aumento das perdas portuguesas. Comparem-se, por exemplo, as perdas sofridas por eles nos primeiros dois meses, Janeiro e Fevereiro, dos anos de 1965, 1966 e 1967:

 

1965

1966

1967

Soldados mortos

258

360

626

Os Portugueses naturalmente anunciavam perdas muito menores do que as avaliadas pela FRELIMO, e a comparação entre ambas poderia levar-nos a muitas considerações. Primeiro, ao mencionar as próprias perdas, os Portugueses atribuem surpreendente número de mortes a «acidentes»*; anunciam as baixas por um período de tempo muito mais longo do que aquele em que ocorreram; omitem mortes de soldados africanos fantoches. Ao declarar as perdas da FRELIMO, porém, contam todos os africanos mortos, e portanto abrangem sempre muitos civis «suspeitos». Isto sem contar com qualquer falsificação directa que possa surgir. Por outro lado, quando a FRELIMO calcula o número de portugueses mortos, apenas o pode fazer por aqueles que caem, sem poder depois verificar os corpos, e assim podem os feridos contar como mortos.

O jornalista americano Stanley Meisler foi testemunha dum desses casos de falsificação.

As estimativas portuguesas oficiais anunciam a perda, em meados de 1967, de 378 soldados – 212 mortos em combate e 166 como resultado de «acidentes e doença» – e 3 500 feridos. A julgar pelos seus comunicados mensais, todavia, estes números são tão baixos que devem referir-se a um período muito mais curto do que o que vinha desde o princípio da guerra. Ainda assim, e apesar destas discrepâncias, os comunicados portugueses confirmam que as perdas têm aumentado à medida do avanço da guerra. O SIFA (Serviço de Informação das Forças Armadas) anunciou que nos primeiros três dias de 1968 treze soldados portugueses, incluindo um oficial, tinham sido mortos em Moçambique.

Muitos factores têm contribuído para o avanço das forças da FRELIMO contra o exército português, mais numeroso e bem equipado.

Nas frentes de combate, os Portugueses encontram-se com todos os problemas dum exército regular em combate com uma força de guerrilha, e dum exército estrangeiro de ocupação com­batendo em território hostil. Primeiro, só uma pequena fracção das forças armadas pode ser utilizada na acção militar. O governo colonial tem que empregar grande número de militares na protecção de cidades, interesses económicos e linhas de comunicação e para guardar a população confinada nas «aldeias protegidas». Assim, dos 65 000 soldados portugueses em Moçambique, só cerca de 30 000 estão em combate contra as nossas forças no Niassa e em Cabo Delgado; e mesmo de entre estes, nem todos estão livres para entrarem em combate, visto que muitos estão a defender pontos estratégicos e centros populacionais da área. Segundo, os Portugueses estão a combater em terreno que não lhes é familiar, contra um inimigo que é dessa terra e a conhece bem. Muita dessa terra das províncias do Norte é densamente arborizada, dando boa cobertura aos guerrilheiros e suas bases. Muitas vezes, o único meio de penetrar na mata é por atalhos estreitos, onde um grupo de homens tem que andar em fila indiana, constituindo um alvo ideal para emboscadas. Em tais condições, de pouco serve equipamento pesado como aviões e carros blindados.

O aspecto político é ainda de maior importância, porque a luta é essencialmente política, e o aspecto militar é apenas parcial. Para justificar a sua presença, os Portugueses afirmam que o seu exército está a defender Moçambique da agressão externa. Todavia, esta posição não consegue persuadir ninguém, porque as forças da FRELIMO são, sem excepção, compostas por moçambicanos, enquanto o exército português é quase totalmente composto por soldados portugueses, tendo pouco mais de um milhar de soldados africanos fantoches entre as suas fileiras. E quando assim acontece, os soldados africanos estão rodeados de soldados portugueses para evitar as deserções.

O próprio povo é, na esmagadora maioria, hostil aos Portugueses. Para impedir a sua cooperação com a FRELIMO, o exército português organiza-o em «aldeias protegidas», rodeadas por arame farpado e guardadas por soldados portugueses, imitação dos centros de repovoamento montados pelos Franceses durante a guerra da Argélia, ou das aldeias estratégicas dos Americanos no Vietname. Tudo isto pode separar temporariamente os aldeões da FRELIMO; mas não contribui em nada para reduzir a hostilidade contra os Portugueses, e logo que surge a oportunidade a população dessas tais «aldeias protegidas» revolta-se.

A guerra está também criando problemas internos ao Governo Português, que enfrenta não só a guerra em Moçambique, mas também a luta em mais duas frentes, Angola e Guiné-Bissau. Ao mesmo tempo, tem que manter forças de repressão em S. Tomé, Cabo Verde, Macau, Timor, assim como no próprio Portugal, onde a oposição ao fascismo, embora enfraquecida por quarenta anos de repressão, nunca foi completamente esmagada. Os recursos do Governo, em homens e em dinheiro, estão esticados quase ao ponto de rebentar, por causa das guerras a milhares de milhas da metrópole, guerras pelas quais a população está pagando, mas das quais a maioria não pode esperar ganhar nada. Isto atiça a oposição interna e ao mesmo tempo enfraquece as defesas do Governo contra ela. Para preencher as vagas militares deixadas na mãe-pátria pela partida de grande número de soldados para o ultramar, o Governo convidou a Alemanha Ocidental a ir estabelecer bases militares em Portugal, uma das quais foi já construída em Beja e aloja 1 500 soldados alemães. Esta medida pode fortalecer a posição militar do Governo, mas politicamente enfraquece-o, pois introduz uma força militar estrangeira para o ajudar a manter-se contra o seu próprio povo.

O Governo Português não tem popularidade alguma; foi estabelecido e tem sido mantido pela força e pela polícia secreta. Mas, ainda assim, exige do povo sacrifícios crescentes. É verdade que alguns portugueses aproveitam imensamente da guerra, e as famílias dos soldados em comissão de serviço nas colónias recebem um pequeno subsídio financeiro. Mas o preço, em sangue, está a aumentar constantemente. Em 1961, foram mortos em Angola 500 soldados portugueses. Nos três primeiros anos da guerra de Moçambique, os Portugueses admitem o total de perto de 4 000 mortos e feridos, enquanto a FRELIMO avalia as perdas portuguesas em mais de 9 000. Em 1967, nas três frentes foram mortos ou feridos cerca de 10 000.

O efeito de tudo isto na população pode ser avaliado pelo facto de o Governo ter julgado necessário promulgar uma lei que proíbe a todos os portugueses do sexo masculino de idade superior a 16 anos a saída do pais sem licença militar. Dentro do próprio Exército, tudo indica estar o moral bastante em baixo. Em 1966 calculava-se que em Portugal, desde o início das guerras coloniais, se tinham dado 7000 casos de deserção e insubordinação no Exército. Em Moçambique, grande número de soldados portugueses desertaram directamente para as forças da FRELIMO. Muitos deles eram impelidos pelo medo e desconforto sofridos no exército colonial e pelo tratamento que recebiam dos superiores, mas alguns desertavam por oposição fundamental ao regime de Salazar e à guerra. Um deles, Afonso Henriques Sacramento do Rio, deu as suas razões:

«Por um lado, discordo do regime do ditador Salazar; por outro lado, porque não obedeci a ordens de incendiar casas, massacrar a população moçambicana e destruir colheitas.»

Outro, José Inácio Bispo Catarino, deu um expressivo relato das condições do exército português ao jornal Mozambique Revolution, revelando não só por que alguns soldados desertam, mas também por que não desertam mais: pela sua ignorância acerca da guerra, acerca da FRELIMO, e por causa da severa vigilância dos oficiais:

«Os nossos oficiais nunca nos dizem nada acerca da guerra. Eu nunca soube directamente que estávamos a combater soldados da FRELIMO. Eu tinha uma ideia do que era a FRELIMO, porque costumava ouvir, às escondidas, a Rádio Moscovo. Eu sabia que os guerrilheiros tinham matado muitos soldados portugueses e sabia que era verdade porque via muitos dos meus camaradas serem mortos… Eu desertei porque nós, os Portugueses, tomámos à força a terra que pertence aos Africanos. Agora os donos da terra querem a sua terra. Por que havíamos de os combater? Eu não posso combater ao lado dos Portugueses porque sei que o que eles estão a fazer é errado. Vi cair muitos dos meus camaradas; o meu sargento morreu na minha frente e muitos outros; todos eles morreram por uma causa que não era a deles. Eu falava muitas vezes aos meus soldados, dizendo-lhes que fingissem estar doentes a fim de serem evacuados para Nampula. Organizava reuniões com alguns daqueles em que eu tinha mais confiança e explicava-lhes que estávamos a sofrer por uma causa que não era a nossa. Dei-lhes o exemplo do nosso sargento que tinha morrido por nada. Encontrávamo-nos em qualquer sítio onde tivéssemos a certeza de não sermos ouvidos e mesmo nas casas de banho.» (Entrevista no jornal Mozambique Revolution).

Se relativamente poucos desertam do serviço activo – é preciso um certo grau de consciência política e de decisão para desertar nessas condições -, muitos fazem o que podem para evitar o combate. Contaram-nos alguns desertores que, muitas vezes, quando os soldados saem em busca da FRELIMO, escondem-se simplesmente na mata durante algum tempo e depois regressam ao acampamento contando aos oficiais uma história suficientemente bem arquitectada. Também houve casos de recusa franca de companhias inteiras à ordem de patrulhar regiões onde se sabia que a FRELIMO estava forte. As observações da população e dos nossos soldados confirmam estas histórias.

Portugal procura ajuda dos seus aliados para vencer os seus muitos problemas, mas mesmo neste esforço encontra dificuldades provenientes das condições e da natureza da guerra. A assistência vem especialmente dos países da NATO e da África do Sul. Porém, as Nações Unidas condenaram a política de Portugal e criticaram a NATO e outros países por lhe darem apoio; é de notar ainda que uma parte substancial da opinião pública doutros países da NATO se opõe às guerras de repressão feitas por Portugal. Como resultado, os Estados Unidos e a Europa Ocidental vêem-se forçados a manter uma certa distância. Portugal recebe auxílio da NATO, financeiramente, em armamento e treino, e não menos em experiência, de países como a França, a Grã-Bretanha e Estados Unidos em processos de guerrilha. A assistência militar, contudo, deve revestir a aparência de que se ajuda Portugal a cumprir os seus deveres de membro da NATO, e oficialmente não devia ser utilizada na África, que está fora da área da NATO. Embora algum armamento da NATO esteja certamente a ser utilizado nas colónias, o principal benefício que Portugal recebe da NATO é ser-lhe assegurado o equipamento militar da metrópole, deixando-lhe livres os seus próprios recursos para actuar nas colónias. Sendo estes ainda insuficientes, seria politicamente difícil para qualquer dos aliados da NATO entrar directamente na luta colonial enviando tropas para combater em África ao lado de Portugal.

A África do Sul, por outro lado, é relativamente impermeável à opinião pública mundial e não mostra qualquer tendência para permitir uma oposição democrática no seu território. Contudo, a sua capacidade de auxílio a Portugal está limitada pelos seus próprios problemas. Já tem um grande exército e força de polícia ocupados em manter o regime branco contra o movimento de libertação indígena. Além disso, está abertamente a enviar soldados e armas para a Rodésia e é provável que estes compromissos aumentem. Os laços tradicionais entre a África do Sul e os Portugueses são menos apertados do que os que existem entre os Sul-Africanos brancos e os Rodesianos brancos, e uma participação grande nas guerras portuguesas só acrescentaria as tensões no exército, sem despertar entusiasmo na população branca.

As próprias condições que a Portugal dificultam a guerra actuam em favor da FRELIMO.

Porque as tropas portuguesas estão aquarteladas em defesa de várias posições estratégicas, as forças de guerrilha têm sempre a iniciativa de escolha do tempo e lugar de ataque. As forças da FRELIMO combatem no seu próprio terreno, que bem conhecem, no meio duma população que os conhece e lhes dá apoio. Cada derrota portuguesa significa que a luta entra numa nova área, e que os Portugueses têm que movimentar mais tropas para o novo local, enfraquecendo um pouco mais a sua posição geral. Uma derrota da FRELIMO é mais facilmente recuperável, porque implica somente uma redução temporária de força numa área.

Qualquer progresso na guerra significa muito mais para a FRELIMO do que uma simples conquista de território. A guerra alterou toda a estrutura interna das áreas profundamente afectadas por ela: nas zonas libertadas, foram abolidos os vários sistemas de exploração humana, desapareceram os impostos pesados, foi destruída a administração repressiva; as populações podem cultivar livremente as terras conforme necessitam, foram iniciadas campanhas de alfabetização, estabeleceram-se escolas e serviços de saúde e o povo entra em debates políticos para tomar as suas próprias decisões. Conquanto todos estes progressos sejam embrionários, a mudança foi sentida dalgum modo por quase todos os habitantes da zona, estimulando-os ainda mais à luta. Cada zona libertada, deste modo, é meio de recrutamento de novos elementos para as forças de combate. Nas aldeias constituem-se milícias populares que logo confirmam o poder do povo e aliviam as forças regulares da FRELIMO de muitas tarefas de defesa; e, em cooperação com o exército, também essas milícias alargam a capacidade ofensiva geral da FRELIMO.

O exército da FRELIMO e a população estão intimamente ligados; o povo é uma fonte constante de informação e abastecimento para a FRELIMO, enquanto constitui para os Portugueses mais uma fonte de perigo. As forças da FRELIMO vivem, na maioria, do que produzem nas áreas de combate, e os artigos de consumo são transportados a pé através da mata, entre os pequenos centros por elas estabelecidos. Assim, a FRELIMO não tem linhas de abastecimento vulneráveis, nenhumas posições estratégicas, militares ou económicas, que necessitem de defesa. Não é, pois, muito grave a perda duma base ou área de colheitas; não tem grande significado para além duma perda imediata de recursos.

Quanto mais se prolonga a luta, mais evidente se torna a sua base popular, mais apoio aflui à FRELIMO, mais confiança há na capacidade de êxito da FRELIMO, enquanto diminui a confiança dos aliados de Portugal nos seus projectos. A medida que se desenvolve a luta, aumenta o auxílio material à FRELIMO, enquanto a própria FRELIMO se torna mais forte. Assim, cada vitória aumenta as nossas possibilidades de conseguir mais vitórias e reduz a capacidade portuguesa de conter as nossas actividades.

O carácter das forças da FRELIMO

Para compreender a verdadeira natureza da guerra, não é suficiente ter em conta estes factores gerais, comuns a todas as lutas populares de guerrilha. É importante considerar pontos mais pormenorizados acerca da composição, organização e comando do exército.

O exército é representativo de grande parte da população, na medida em que a grande maioria dos guerrilheiros são camponeses, inicialmente ignorantes, analfabetos e muitas vezes incapazes de falar português; mas há também, espalhados, elementos que receberam alguma educação dentro do sistema português. A maioria provém naturalmente das áreas actualmente afectadas pela luta, porque é nessas áreas que é possível fazer vastas campanhas de politização e treino. Há, porém, uma corrente continua de povo que vem do Sul, de todo o Moçambique, que foge para se juntar à luta; e, ao princípio, muitos vieram dos campos de refugiados, fugidos de todos os distritos de Moçambique para escaparem à repressão, e integraram-se na luta logo que se formaram as estruturas para os receber. No exército, há povos de diferentes áreas, de modo que cada unidade contém representantes de diferentes tribos e regiões combatendo juntos. Deste modo, o tribalismo é eficazmente combatido adentro das forças de combate, estabelecendo-se assim um exemplo para o resto da população.

Não é este o único ponto em que o exército está na vanguarda da transformação social. Recebendo mulheres nas suas fileiras, revolucionou a posição social feminina. Elas desempenham agora parte muito activa na direcção de milícias populares e há também muitas unidades de guerrilha compostas por mulheres. Por meio do exército, as mulheres começaram a tomar responsabilidades em muitas áreas; aprenderam a comportar-se e a falar em reuniões públicas, a tomar parte activa na política. De facto, realizam trabalho importante na mobilização da população. Quando uma unidade de mulheres chega pela primeira vez a uma aldeia ainda pouco integrada na luta, a vista das mulheres armadas que se levantam e falam em frente dum vasto auditório causa grande espanto, mesmo incredulidade; quando os aldeões se convencem de que os soldados em frente deles são de facto mulheres, o efeito nos homens é tão grande que acorrem recrutas em muito maior número do que o exército pode rapidamente integrar ou que a região pode dispensar.

O exército está promovendo a melhoria do nível de educação, assim como da consciência política geral. Os recrutas são ensinados a ler, escrever e falar português, onde quer que seja possível, e mesmo, onde seja impossível organizar programas de ensino, são estimulados a ajudar-se mutuamente na aprendizagem de conhecimentos básicos. De facto, as autoridades portuguesas desconfiam cada vez mais dos camponeses que falam português, porque sabem que é mais provável que o tenham aprendido no exército da FRELIMO do que nas escolas portuguesas. a exército organiza também vários programas específicos, como treino de operadores de rádio, contabilidade, dactilografia e ainda matérias mais directamente relacionadas com a guerra. Finalmente, o exército cultiva e produz, onde seja possível, os artigos alimentares de que necessita, aliviando assim a população do encargo de lhe fornecer mantimentos e ao mesmo tempo dando exemplos que ensinam.

Nestes aspectos, o exército conduz o povo; mas ainda mais importante é o facto de que o exército é o povo e é o povo que forma o exército. Há membros civis da FRELIMO empenhados em toda a espécie de trabalho no meio da população; mas a cooperação estende-se para além, para toda a massa de camponeses que não são membros da FRELIMO mas que apoiam a luta, procurando a protecção do exército e a ajuda do partido para várias das suas necessidades. E, por sua vez, dão aos militantes todo o apoio que lhes é possível.

Tudo isto é ilustrado pelas palavras dos próprios militantes.

Joaquim Maquival, da Zambézia:

«Venho da Zambézia, sou chuabo, e combati no Niassa, onde a população é composta de nyanjas, que me recebiam como um filho. Trabalhei no meio de ajuas, macuas, que me receberam como se fosse o seu próprio filho.»

Miguel Ambrósio, comandante de companhia em Cabo Delgado:

«Combati na Zambézia e no Niassa, longe da minha própria região e da minha tribo. Combati na terra dos Chuabos e dos Lomes. […] Os chuabos, nyanjas e lomes receberam-me ainda mais calorosamente do que se eu fosse da sua própria região. No Niassa Ocidental, por exemplo, encontrei-me com o camarada Panguene e, embora ele seja do Sul, ninguém o podia distinguir do povo da região; é como um filho da terra. O povo percebe que somos todos moçambicanos. […] O povo está unido e ajuda-nos. Doutro modo, por exemplo, não poderíamos entrar em zonas inimigas; é o povo que nos dá toda a informação acerca dos movimentos do inimigo, sua força e sua posição. Também, quando começamos a trabalhar numa área onde não há mantimentos, porque não tivemos oportunidade de os cultivar, o povo dá-nos de comer. Também nós ajudamos o povo. Até que as milícias se formem numa região, protegemos as populações rurais nos seus campos, contra a acção e represálias dos colonialistas; organizamos novas aldeias quando temos que; evacuar a população duma zona por causa da guerra; protegemo-las contra o inimigo.»

Rita Mulumbua, mulher militante do Niassa:

«Nas nossas unidades há gente de todas as regiões; estou com ajuas, nyanjas, macondes e gente da Zambézia. Creio que isto é bom; antigamente não nos julgávamos uma só nação; a FRELIMO mostrou-nos que somos um só povo. Unimo-nos para destruir o colonialismo e imperialismo português.

A luta transformou-nos. A FRELIMO deu-me a possibilidade de estudar. Os colonialistas não queriam que estudássemos, ao passo que agora que estou neste destacamento onde nos treinamos de manhã, de tarde vou para a escola aprender a ler e escrever. Os Portugueses não queriam que estudássemos porque se o fizéssemos compreenderíamos, saberíamos coisas. Por esta razão a FRELIMO quer que estudemos para sabermos e sabendo compreendermos melhor, combatermos melhor e servirmos melhor o nosso país.»

Natacha Deolinda, mulher militante de Manica e Sofala: «Quando entrei para o exército, a FRELIMO mandou-me para um curso sobre organização de juventude e também me deu treino militar. Depois fui trabalhar para a província de Cabo Delgado. O nosso destacamento fazia reuniões em toda a parte explicando a política do nosso partido, as razões da luta e também o papel da mulher moçambicana na revolução.

A mulher moçambicana participa em todas as actividades revolucionárias; ajuda os combatentes, tem um importante papel na produção, cultiva os campos, tem treino militar e toma parte nos combates e faz parte das milícias que protegem o povo e os campos.»

Destes comentários se depreende claramente que o papel do exército vai muito mais longe do que simplesmente combater os Portugueses. Como o partido, é uma força construtora da nação. Prepara não somente soldados, mas futuros cidadãos que transmitem o que aprendem ao povo no meio do qual trabalham.

A chefia não se baseia em postos, mas no conceito de responsabilidade; o chefe de determinado grupo é chamado o homem «responsável» por ele. Muitos destes agora «responsáveis» nunca tinham ido à escola antes de entrarem para o exército; eram analfabetos sem instrução formal quando se incorporaram perto do início da guerra. Tornaram-se aptos para a chefia através da sua experiência prática de trabalho combatente e político e através dos programas de educação do exército. Alguns tinham um pouco de frequência da escola; mas muito poucos, mesmo entre os que hoje estão em posições importantes, tinham passado além da escola primária.

A nossa experiência, a dos militantes e chefes, desenvolveu-se com a luta. Em 1964, o exército compreendia pequenos grupos de homens, frequentemente mal armados e mal abastecidos, somente capazes de montar emboscadas e incursões de pequena escala. O exército lutava contra tremendas dificuldades. O relato seguinte, dum homem que é hoje comissário político nacional e membro do Comité Central, dá indicação do que era a guerra, no princípio, da população que nela estava empenhada e de como desenvolviam as suas actividades. Algumas das primeiras lutas deste homem contra as estruturas educacionais e económicas portuguesas foram relatadas em capitulas anteriores. O presente relato começa imediatamente após a sua fuga forçada de Moçambique.

Raul Casal Ribeiro:

«Alguns camaradas da FRELIMO encontraram-me e educaram-me. […] Três meses mais tarde pedi para entrar para a FRELIMO. A partir desse momento comecei a trabalhar como membro da FRELIMO. Fui para uma das bases de treino do nosso partido para me preparar, e desde então tenho estado a combater. Tínhamos que enfrentar muitas dificuldades. Ao princípio, havia ocasiões em que nem tínhamos que comer. Havia momentos de hesitação, mas o trabalho de educação política tinha-me ensinado como aceitar os sacrifícios e continuar a lutar.

O partido tinha confiança em mim e deu-me responsabilidade. Estudei muito. Fui encarregado da educação doutros camaradas nas unidades. Depois entregaram-me a sabotagem dos caminhos-de- ferro de Tete-Maturara e outras operações. O nosso destacamento era pequeno e tínhamos pouco equipamento; o inimigo mandou um batalhão inteiro para nos destruir, mas não o conseguiu. Atacavam-nos, mas sofriam sempre grandes baixas. Uma vez cercaram-nos e nós só tínhamos cinco balas entre nós todos. Dispararam sobre nós, mas tínhamo-nos abrigado. Pensando que nos tinham matado, uma vez que não respondíamos ao fogo, avançaram. Quando chegaram a três ou quatro metros de nós, os camaradas que tinham as balas abriram fogo e mataram um deles. Os portugueses assustaram-se e retiraram, dando-nos a oportunidade de escapar sem eles saberem. De longe, continuaram a disparar durante uma hora e por vezes atiravam uns aos outros. Mais tarde encontrámos o corpo de um boer sul-africano que tinha estado com os portugueses e tinha sido morto por eles.

É assim que o inimigo semeia ventos e colhe tempestades. Nesta batalha apanhámos uma MG 3, seis carregadores cheios, uma granada ofensiva e duas defensivas e uma faca.»

Foi nestas pequenas operações, com coragem e iniciativa em face de condições difíceis, que a presente dimensão e força do exército se tornou possível. Como indicação do rápido crescimento da acção de guerrilha, eis um comunicado relativo a uma acção realizada em 2 de Agosto de 1967, subsequentemente confirmada pela rádio portuguesa:

«Três aviões e um depósito de munições completamente destruídos; depósito de combustível incendiado; quase todas as casas perto do aeródromo, destruídas; dúzias de soldados portugueses mortos ou feridos. Isto aconteceu em Mueda num ataque com morteiros lançado pelas tropas da FRELIMO em 2 de Agosto. O fogo continuou intenso durante dois dias.» (Comunicado da FRELIMO.)

Organização do exército

Depois de começarem os combates, o exército foi muitíssimo reforçado com novos recrutas das áreas de acção; e, a fim de utilizar eficazmente esta força crescente, tinha de se aperfeiçoar rapidamente a organização. O próprio exército era organizado em batalhões, subdivididos em destacamentos, companhias e unidades. Isto significa que, enquanto se podem levar a cabo operações de pequena escala numa vasta área, temos também forças disponíveis muito mais consideráveis para acções mais importantes, tais como ataques a postos portugueses ou à base aérea de Mueda.

O sistema de chefia tem também que ser ajustado às condições variáveis da guerra. Ao princípio, as áreas de combate eram divididas em regiões militares, cada uma com um comando regional; mas, durante os primeiros dois anos de guerra, não havia comando central além do Departamento de Defesa e Segurança, chefiado por um secretário, tal como qualquer outro departamento da organização. O secretário tratava de todos os pormenores do trabalho militar, e, embora de vez em quando delegasse a sua autoridade num ou noutro dos seus camaradas do exército, não existia rigorosa divisão de responsabilidade. O sistema funcionava bem enquanto as forças de guerrilha eram ainda pouco numerosas, e a sua acção fraca e limitada; mas logo que aumentou o número de guerrilheiros em acção, e se alargaram as áreas de combate, foi necessário aperfeiçoar o sistema. Foi preciso montar um comando central efectivo, porque, nos primeiros anos de luta, descobrimos que, sem autoridade central, é impossível coordenar e abastecer as diferentes forças que operam em lugares distantes do país.

Em reunião do Comité Central em 1966, foi decidido que o exército fosse reorganizado, com um alto comando que operasse a partir dum quartel-general fixo. Esta decisão conduziu à formação do Conselho Nacional de Comando, actualmente encabeçado pelo secretário do Departamento da Defesa (DD), pelo seu assistente, que é comissário político do exército, e outros doze chefes responsáveis pelas diferentes secções do exército. O exército foi dividido em doze secções:

  1. Operações;
  2. Recrutamento, treino e formação de quadros;
  3. Logística (abastecimentos);
  4. Reconhecimento;
  5. Transmissão e comunicação;
  6. Informação e publicações militares (que também edita o jornal policopiado «25 de Setembro», redigido por militantes da FRELIMO);
  7. Administração;
  8. Finanças;
  9. Saúde;
  10. Comissariado político;
  11. Pessoal;
  12. Segurança militar.

Assim, o exército tem o seu próprio sistema de administração nacional, nas mesmas linhas da administração civil e em paralelo com esta. No plano local, o exército tem também uma estrutura claramente definida. Em cada província há:

  1. Um chefe provincial, que também é subsecretário da província;
  2. Um chefe provincial-adjunto;
  3. Um comissário político
  4. Um chefe operacional

Por este novo método de organização, cada responsável tem uma área de responsabilidade definida, na qual tem que exercer a sua iniciativa, mas tem também um canal de contacto estabelecido com o alto comando. Entrou em vigor nos princípios de 1967 e quase imediatamente as coisas começaram a funcionar com maior eficiência; comunicações entre as províncias e os quartéis-generais estabeleceram-se com maior regularidade; armas e equipamento começaram a chegar mais rapidamente às áreas de combate; o recrutamento intensificou-se; e os planos de novas e mais extensas campanhas contra o inimigo entraram em fase operacional.

Numa situação como esta, em que um país está em estado de guerra e o exército tem inevitavelmente poderes muito extensos, há a possibilidade de perigo de conflito entre as organizações civis e militares. Todavia, no nosso sistema, isto é reduzido ao mínimo pelo facto de que ambos estão enquadrados no corpo político da FRELIMO, que é constituído por elementos militares e civis. A relação entre os corpos políticos, militares e civis não se pode descrever como uma hierarquia em que um poder está subordinado ao outro. As decisões políticas têm que ser tomadas pelo corpo político, cujo órgão supremo é o Comité Central. O exército, como os vários departamentos, funciona em conformidade com as decisões do Comité Central; mas os dirigentes do exército, como membros do Comité Central, também ajudam a elaborar estas decisões politicas. As reuniões dos comandos militares, que se realizam quinzenalmente, são normalmente presididas pelo presidente ou vice-presidente da FRELIMO, o que assegura e mantém coordenação íntima nas reuniões do Comité Central entre as decisões politicas e as militares.

Localmente, as milícias populares desempenham parte importante na ligação entre as populações civis e o exército. Estas milícias são constituídas por membros militantes da população civil, que desempenham as suas ocupações normais e, ao mesmo tempo, embora não incorporados no exército de guerrilha, empreendem certas tarefas militares. A sua função principal é a defesa da sua região. Se houver perigo de ataque das forças portuguesas, podem ser mobilizadas como uma força armada adicional. Enquanto há combates na região, essas milícias coordenam a sua actividade com a das forças de guerrilha, reforçam-nas quando é necessário e fornecem informação acerca da própria localidade. Quando os guerrilheiros libertam uma área, as milícias podem então tomar conta da organização da defesa, produção e abastecimentos, deixando as forças principais livres para se moverem em direcção a novas áreas de combate. Em regiões onde não há ainda uma luta armada activa, formam-se milícias secretas para preparar o terreno para a guerrilha; para mobilizar o povo; para observar as forças portuguesas; para conseguir abastecimentos e assistência aos guerrilheiros à medida que estes entram na região.
Num sentido, estas milícias populares são a espinha dorsal da luta armada. Os guerrilheiros desenvolvem as principais ofensivas e a maior parte do combate directo, mas é função das milícias tornar possível a sua acção.

O desenrolar da luta

Terminada a fase inicial da nossa ofensiva e retiradas as nossas forças para as duas províncias do Norte, seguiu-se um período de aparente impasse, que durou de 1965 a 1966. Durante este período, a FRELIMO controlou a maior parte do terreno e das aldeias da zona do Norte; os Portugueses controlavam as cidades e bastantes bases fortificadas onde estavam relativamente seguros. As estradas principais eram disputadas, visto que os Portugueses continuavam a querer utilizá-las para o transporte de soldados e mantimentos, enquanto a FRELIMO as minava e nelas montava emboscadas constantemente. Os Portugueses eram incapazes de organizar uma ofensiva eficaz, porque, quando saiam das bases para irem para a mata em busca das nossas forças, caiam em emboscadas. Por outro lado, a FRELIMO ainda não tinha força suficiente para lançar ataques maciços contra as posições portuguesas. Todavia, a FRELIMO ia sempre aumentando a sua força, consolidando a sua posição militar e política, treinando novos recrutas e gradualmente desgastando a força dos Portugueses por meio de pequenas acções. Pela segunda metade de 1966, tornava-se visível o poder crescente da FRELIMO e as nossas forças eram já capazes de começar a atacar as próprias bases dos Portugueses. Entre Setembro de 1966 e Agosto de 1967 foram atacadas mais de trinta bases militares portuguesas; e pelo menos mais dez, nos últimos três meses de 1967. Muitas destas bases ficavam muito danificadas e algumas eram evacuadas depois dos ataques. Por exemplo, o posto de Maniamba (Niassa Ocidental) foi atacado a 15 de Agosto, e evacuado; foi reocupado, mas de novo abandonado depois dum segundo ataque em 31 de Agosto; dez dias depois chegou um forte destacamento de fuzileiros para o reocupar. A 13 de Setembro foi atacado o posto de Nambude (Cabo Delgado), e os edifícios, três veículos e o equipamento de rádio ficaram destruídos. A base aérea de Mueda, alvo extremamente importante, e bem defendido pelos Portugueses, foi duas vezes bombardeada e cinco aviões estacionados ficaram totalmente destruídos.

Durante o ano de 1967, a área de combate alargou-se em todas as regiões. Em Cabo Delgado as nossas forças avançaram para o rio Lúrio e cercaram Porto Amélia, a capital, consolidando ao mesmo tempo as suas posições no resto da província, que está agora quase totalmente nas nossas mãos. No Niassa, as nossas forças avançaram para a linha de Marrupa-Maula e aproximam-se das fronteiras das províncias de Moçambique e da Zambézia. Para sul, ganharam o controlo da zona Catur, entre as províncias da Zambézia e Tete; enquanto, a ocidente, criaram as condições necessárias para recomeçar a luta em Tete e na Zambézia, região muito importante em recursos agrícolas e minerais.

Os Portugueses têm procurado melhorar as suas tácticas de contraguerrilha, e em particular têm tentado aproveitar da experiência dos seus aliados da NA TO: Grã-Bretanha, na Malásia; Estados Unidos, no Vietname, e França, na Argélia.

Afonso Henriques do Sacramento relata:

«Esta instrução é dada aos soldados portugueses na primeira parte dos seis meses de treino. Os soldados aprendem a base teórica da táctica contraguerrilha em cursos concluídos por exames. Estes cursos são dados por oficiais que passaram por treino especial teórico e prático. Durante a guerra da Argélia, vários oficiais portugueses receberam treino de especialistas franceses em ‘guerra subversiva’. Muitos outros oficiais foram enviados para os Estados Unidos, onde estiveram em cursos de comandos e fuzileiros e estudaram todas as técnicas usadas pelos Americanos contra o povo vietnamita.»
Resulta daqui que o exército português opera agora raramente em unidades inferiores a uma companhia, para que, quando são atacados, mesmo que sofram pesadas baixas, tenham força numérica suficiente para evitar que os guerrilheiros consigam um dos seus principais objectivos: apreensão de armas e munições.

Ainda assim, os Portugueses continuam a sofrer pesadas baixas quando tentam sair das suas bases e pouco avançam sobre as forças de guerrilha, que simplesmente se retiram até ao momento em que podem atacar com vantagem. Os Portugueses passaram cada vez mais à utilização da arma aérea, sabendo que não nos é fácil adquirir e transportar o equipamento pesado necessário para combater os ataques aéreos.
Assim, têm feito incursões contra bases, aldeias, escolas clinicas; têm bombardeado áreas de cultura, e feito tentativas para destruir a mata que dá abrigo aos nossos guerrilheiros. As baixas causadas por estas incursões são principalmente das populações civis, e tem sido dada prioridade à organização da defesa dos aldeões. Estamos a desenvolver a nossa força antiaérea; em Outubro de 1967, um dos três aviões que bombardeavam Marrupa foi abatido e os outros foram forçados a retirar.

Confrontadas com· uma série de reveses militares, as autoridades portuguesas têm feito várias experiências de táctica antiguerrilha paramilitar, misto de terrorismo e guerra psicológica, com a principal finalidade de persuadir a população a retirar o seu apoio à FRELIMO. Pelo lado psicológico montaram em 1966 e 1967 campanhas de propaganda na rádio e fizeram larga distribuição de folhetos. Estes eram atraentes, impressos em papel de cores vivas, com textos paralelos em português e língua africana, descrevendo as condições de fome e miséria das regiões da FRELIMO e a vida próspera e confortável dos Portugueses. Mostravam grandes cartazes ilustrando estes contrastes ou caricaturas da FRELIMO «vivendo bem» no exílio à custa do resto da população. Nesta propaganda também tentavam explorar as divisões naturais da população acusando a FRELIMO de apadrinhar as ambições duma tribo contra a tribo vizinha.

A distância entre as populações portuguesa e africana, porém, diminui muito o efeito destas campanhas; dado o alto grau de analfabetismo e o baixo nível de vida, os folhetos e a rádio não atingem vastos auditórios. Além disso, a falsidade do seu conteúdo não é difícil de notar; o povo lembra-se bem de que não havia prosperidade sob o domínio português e onde a FRELIMO exerce actividade as populações viram que os seus membros e chefes provêm de diferentes tribos e vários grupos religiosos. A FRELIMO tem a grande vantagem de realizar o seu trabalho político por meio de contactos pessoais, de viva voz, com reuniões, exemplos, persuasivamente empreendidos por membros da população. Além disso, não há qualquer tentativa de torcer a verdade com promessas de coisas impossíveis: nós admitimos que a guerra pode ser longa; que será certamente difícil; que não trará prosperidade e felicidade como por encanto; mas já está a realizar alguns progressos e é o único modo de eventualmente melhorar a qualidade da vida. Na mensagem do Comité Central de 25 de Setembro de 1967 ao povo moçambicano declarava-se:

«[…] Há muitas dificuldades. Os guerrilheiros têm por vezes de passar dias inteiros sem comer, têm que dormir ao relento e, às vezes, têm que marchar dias ou mesmo semanas para fazer um ataque ou uma emboscada… O povo também sofre nesta fase da luta de libertação, porque o inimigo intensifica a sua repressão para tentar aterrorizar a população e impedi-la de apoiar os guerrilheiros. Há muitas dificuldades. A batalha pela liberdade não é fácil. Mas a liberdade que queremos vale todos esses sacrifícios.»

O trabalho de mobilização é feito essencialmente através do contacto directo, mas é apoiado pela literatura e pela rádio. Comunicados e mensagens como a anterior são policopiados e distribuídos nos acampamentos e durante as reuniões. Circulam também folhetos policopiados, descrevendo, por exemplo, um «patrão» explorador a ser expulso pela FRELIMO. Há também regularmente programas de rádio, emitidos através da Rádio Tanzânia, que, desde 1967, tem sido suficientemente poderosa para chegar além da fronteira sul de Moçambique. Nas zonas libertadas, distribuímos aparelhos de rádio para ajudar o povo a ouvir estas emissões. Os programas constam de: noticias em português e em línguas africanas; relatos da luta; mensagens e· esclarecimento político; programas educativos sobre higiene e saúde pública; canções revolucionárias, música tradicional e popular.

Tendo obtido poucos resultados com a propaganda directa, os Portugueses têm tentado métodos mais complicados. Em 1967, por exemplo, instalaram na província de Tete um fantoche africano como chefe dum partido «nacionalista» e organizaram comícios onde ele apareceu ao lado de funcionários portugueses, afirmando que os Portugueses estavam dispostos a dar pacificamente a independência ao seu partido, mas não aos «bandidos da FRELIMO». Esta campanha teve inicialmente algum sucesso; mas, como os esclarecimentos dados por militantes da FRELIMO eram confirmados pela ausência de quaisquer indícios de boa-fé da parte dos Portugueses, o povo foi ficando descrente e deixou de aparecer nos comícios.

Confrontados com o fracasso da acção militar e de «persuasão», os Portugueses foram recorrendo cada vez mais ao terror, numa tentativa de amedrontar aqueles que ajudavam a FRELIMO. Vendo que as forças de libertação viviam entre o povo como o peixe na água, eles queriam aquecer a água até cozer o peixe.

Desde o inicio da guerra, em todo o território de Moçambique – e não só nas áreas de combate – houve incursões para cercar os simpatizantes nacionalistas e foram presos milhares de «suspeitos». A maioria destes eram camponeses e operários manuais, «nativos» segundo a terminologia portuguesa. Não foram julgados nem condenados, mas presos, interrogados, torturados e, não raras vezes, executados em completo segredo. Mesmo as famílias não sabem nada de definido: tudo o que sabem é que a pessoa desapareceu.

Entre estes «suspeitos» houve alguns intelectuais, pessoas demasiado conhecidas fora de Moçambique para desaparecerem sem provocar protestos internacionais. Assim aconteceu com os poetas José Craveirinha e Rui Nogar; Malangatana Valente, pintor; Luís Bernardo Honwana, contista. As autoridades portuguesas levaram a tribunal estes homens eminentes, tornando públicos os seus processos e tentando dar a impressão de que procediam contra os nacionalistas e sabotadores, etc., da mesma maneira, legalmente. Mas mesmo estes julgamentos-espectáculo não estavam de acordo com os padrões de legalidade estabelecidos nos países não fascistas. O primeiro destes julgamentos, em Março de 1966, terminou com a absolvição de nove dos treze acusados, por falta de provas; mas o Governo recusou este veredicto e ordenou novo julgamento em tribunal militar. Este, agindo por instruções precisas do Governo, condenou os que tinham sido absolvidos e prolongou as sentenças dos outros quatro. As próprias sentenças não tinham qualquer sentido, porque incluíam «medidas de segurança», o que significa que o fim da sentença de prisão pode ser prorrogado indefinidamente. Uma delegação de juristas internacionais e os jornalistas estrangeiros foram proibidos de assistir a este segundo julgamento.

Todavia, os Portugueses conseguiram dalgum modo atingir os seus fins, porque o protesto internacional dirigido especificamente contra este julgamento e contra a sorte destes treze intelectuais contribuiu para desviar a atenção do principal: a muito pior sorte de muitos moçambicanos obscuros, que não passaram sequer por um simulacro de julgamento, mas foram mortos ou presos em condições ainda muito piores.
Nas zonas de combate a campanha de terror é mais alargada e mais indiscriminada, com represálias dirigi das contra o conjunto da população. E onde a campanha não chega às aldeias os Portugueses recorrem a ataques aéreos; mas onde os soldados podem atingir o povo, utilizam formas de terror e tortura pessoais. Estes métodos são bem conhecidos de quem quer que tenha estudado os métodos dos exércitos fascistas em qualquer parte do Mundo.

A extrema brutalidade, contudo, não tem por vezes o resultado desejado, antes determina o povo na sua hostilidade contra os Portugueses, e de facto leva-o a actos desesperados de desafio.
Esta política não é só cruel; é tacticamente insensata. O exército da FRELIMO, pelo contrário, é firme e constantemente instruído no sentido de atacar somente os objectivos militares e económicas. As declarações dos militantes indicam bem como eles compreendem esta política:

Joaquim Maquival:

«[ … ] Nas nossas unidades e nas nossas missões encontrámos muitas vezes civis portugueses desarmados. Não lhes fazíamos mal. Perguntávamos-lhes donde vinham; explicávamos-lhes a nossa luta e os nossos sofrimentos; recebíamo-los bem. Fazemos assim porque a nossa luta, a nossa guerra, não é contra o povo português; lutamos contra o Governo Português, contra aqueles que voltam armas contra o povo moçambicano; estamos em guerra contra aqueles que ferem o povo. [ … ] Sabemos que não somos explorados por todo o povo de Portugal, mas apenas por uma minoria que está também a explorar o próprio povo português. Entre os Portugueses também há povo explorado. A FRELIMO não pode combater contra o povo, não pode combater contra os explorados.»
Miguel Ambrósio Cunumoshuvi (comandante de companhia):

«Nunca pensámos em assassinar civis portugueses; nunca aterrorizámos as populações civis portuguesas, porque sabemos contra quem e por que combatemos. Por esta razão, nunca planeámos um ataque contra civis portugueses. Se quiséssemos, podíamos fazê-lo; os civis vivem perto de nós, temos oportunidades de o fazer; mas o nosso objectivo, o nosso alvo, é o exército, a polícia, a administração.
O nosso programa, as nossas ordens, dizem claramente que não devemos atacar civis, mas só aqueles que estão com o exército, isto é, aqueles que o acompanham e o servem. Os únicos terroristas em Moçambique são os colonialistas.»

Esta política é importante para o futuro, quando chegar o momento de tentarmos formar uma sociedade capaz de absorver os diferentes povos que vivem em Moçambique sem ressentimento racial; mas tem também vantagens práticas imediatas. Por exemplo, no princípio da guerra, as autoridades portuguesas distribuíam armas nos e aos comerciantes em certas áreas para serem utilizadas contra a FRELIMO. Esta gente compreendia então que os civis desarmados não seriam maltratados, mas que aqueles que eram portadores de armas seriam tratados como auxiliares do exército; e o resultado era que muitos civis se recusavam a aceitar armas. O facto de as forças portuguesas não aceitarem esta atitude levantou por vezes contra elas os próprios civis portugueses: certo dia as forças portuguesas entraram numa aldeia onde sabiam que a FRELIMO tinha passado e, quando viram que os civis portugueses nada tinham sofrido, acusaram estes de colaboração com a FRELIMO, prenderam e castigaram os seus próprios colonos.

Tete e a nova ofensiva

Quando as forças militares da FRELIMO saíram da província de Tete, depois da primeira fase da guerra, ficaram membros secretos para dirigir a mobilização política e preparar condições para uma futura reabertura desta frente. Pelos fins de 1967, consolidadas as vitórias em Cabo Delgado e no Niassa, e estando já as nossas forças a dirigir-se para o sul, estavam criadas as condições para um alargamento da guerra em direcção a Tete. Finalmente, em Março de 1968, começaram as primeiras operações militares.

Esta nova fase da guerra é especialmente importante, pelos planos militares e económicos que os Portugueses tinham feito para esta área. Tete é uma região chave de Moçambique: o grande rio Zambeze passa pelo centro dessa região; a província possui consideráveis recursos económicos e é atravessada por importantes vias de comunicação, incluindo a estrada principal de Salisbury a Blantyre; num eixo norte-sul, ela atravessa mais ou menos o centro do país.

Os Portugueses tinham inicialmente planeado duas linhas de defesa. A primeira era a de Nacala-Maniamba, que as nossas tropas romperam quando estenderam as operações para Macanhelas, no extremo sul do Niassa. A segunda linha de defesa é o rio Zambeze. Há grande concentração de tropas ao longo do rio e, além disso, os Portugueses planeiam instalar um milhão de colonos no vale, para constituírem uma barreira às nossas forças. Assim, do ponto de vista militar, todo o vale do Zambeze é extremamente importante.

A área de Tete tem adquirido também considerável importância como resultado do recente plano de desenvolvimento ligado com a barragem de Cabora Bassa. Tete tem das terras mais ricas de Moçambique e a agro-pecuária está razoavelmente desenvolvida, em especial a criação de gado. Há importantes jazigos de minerais que até agora foram pouco explorados. O plano prevê o desenvolvimento de todos estes recursos, em grande parte pela instalação de colonos ao longo da linha defensiva. A própria barragem fornecerá energia para várias indústrias com base nos produtos da região, assim como água para irrigação dos novos projectos agrícolas. O local de Cabora Bassa é portanto um dos alvos mais importantes nesta fase da guerra.

Esta área é também crucial no vasto contexto da aliança sul-africana. Ao sul, Tete faz fronteira com a Rodésia, e assim o progresso da nossa luta aqui é de grande interesse para as forças de libertação do Zimbabwe. De mais imediata importância, porém, é o compromisso da própria África do Sul. Esta está a assumir grande parte da despesa da construção da barragem e espera absorver considerável proporção da energia produzida. Portanto, em Tete estamos a entrar em conflito directo com a África do Sul, que está tão preocupada com os seus interesses que já mandou tropas para proteger o local da barragem. As nossas forças observaram um batalhão de soldados sul­-africanos em Chioco e várias companhias em Chicoa, Mague e Zumbo.

O exército sul-africano está extremamente bem equipado com o mais moderno material do Ocidente e a presença dessas tropas tornará sem dúvida a luta mais dura. Mas tem-se visto claramente nos últimos dois anos que os Portugueses desejavam ansiosamente obter assistência directa da África do Sul e sabíamos que, eventualmente, à medida que avançássemos para o sul, cresceria a ameaça da África do Sul. O facto de já estarmos a encontrar soldados sul-africanos é um sinal de como a guerra tem evoluído rapidamente; isto indica a nossa força e a fraqueza dos Portugueses.

Além disso, a presença dos sul-africanos não nos impediu de tomar a ofensiva em Tete. A 8 de Março montámos várias operações simultâneas: uma emboscada perto da aldeia de Kassuenda; emboscadas na zona de Furancungo, Fíngue e vila Vasco da Gama; um ataque contra o posto inimigo de Malavela. Nestas operações foram mortos pelo menos doze soldados portugueses, incluindo um sargento; e em Malavela foram destruídas quatro casas, um camião e o depósito da água.

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