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SELO: Carta à musa que desejo ao descer esta cidade, por Eduardo Quive

Quando desço à esta cidade, afago com o dorso da desgraça os olhos cansados. Afago no aconchego da solidão, a vertigem da ovelha enganosa. És vento quando te canto. A voz desencantada dos troços perdidos fornica-se com esta ausência perene. Se Deus é pai, eu sou o príncipe, um padrasto entre as ruas desta cidade, que te perde entre as gentes que se degustam afáveis da velha desgraça.

 

Se Deus é pai, sou padrasto, vizinho distante de Zaus, esse deus homem, porque te quero com o sangue fervescente a trepar acácias até Malhangalene. Se não te encontro entre os rumos e rugidos de pernas arqueadas desta cidade, sacudirei os palmos filtrados na Mafalala até Maxaquene. De perto ou de longe.

 

Onde me abeiro todas as noites, ou deambulo apátrida dos teus encantos, mulher, entre mulheres, minha musa, aquela de olhos castanhos, peito em amadurecimento, corpo a tocar Arpa e, os lábios, essa sinfonia ascética. És mona lisa, os teus dedos renunciam desencantos das coisas pegajosas. A tua pele desafia a cor de uma manhã saciada de nevoeiro. Caminho-te como as estradas lisas, tão raras nesta cidade.

As tuas pernas, por exemplo, são rimas de um poema que está por ser escrito. Aí, se Deus é poeta, à semelhança de Pablo, cantarei os amores, em jeito de dizer que te amo, como nunca soube. Beijo esta cidade, nas costas, na costa, na crosta, na rosta, e entro pela rua das flores onde floresço as avenidas ensopadas de povos.

Beijo-te, ó cidade, como beijo-te, ó musa. Beijo-te com as tuas feridas insaráveis, com a silhueta aquecida do teu umbigo, o néctar esfriado entre os seios, com os rios de desgraça que carregas nas rugas futuras, com os passos latentes para nada, com os teus cabelos mutilados, com tuas mágoas, o âmago entristecido de saudade e partidas.

Beijo-te como beijo as sarjetas desta cidade que fermentam corpos humanos, mal apodrecidos desde as últimas chuvas que coaram o tempo. Beijo-te na altura de Samora estendido ao céu, ou o júnior, esquecido ao pó. Beijo-te como as ruinas da esquina entre 25 de Setembro e Samora Machel em que as crianças perdidas no entardecer dos dias, habitaram e chamaram-na a casa do Escuro.

Beijo-te nessa ilha, casa de pequenos empobrecidos, heróis esquecidos do cotidiano gorduroso dos Pajeros importados ou Land Cruzeres que não aparentam a pobreza desta cidade. Beijo-te, minha musa, como beijo as feridas e os vermes dos velhotes no pêndulo, pedintes de tormentos e misérias que só esta cidade sabe dar.

És a musa que beijo no camarão a retalho estendido à entrada do porto, onde os míseros assalariados, desta cidade, fingem boa vida, espécie coitada essa! Dou-te o beijo tão doce como o mel inesgotável dos candongueiros desta cidade, que pariram abelhas infecundas, tanto quanto dou-te o beijo tão amargo, das bebidas venenosas que Tentam essa juventude amaldiçoada por gentes que não param nos semáforos e nem os vidros abrem com medo desses afeitados Bosses de embriagar juízos.

Beijo-te tão docemente, minha musa, minha princesa, Diana ou Das Dores, nesta cidade amadurecida precocemente, tanto quanto beijo-te, amargamente, minha santa, Izabel, consoladora dos aflitos (rogai por nós), minha guardiã de infortúnios que não acabam quanto os pés deste poema ensanguentado (rogai por nós).

Beijo-te com a saliva das chuvas que hão de vir e solverão gados, galinhas, patos e patas, tanto quanto solverão um dia, as barbas desta cidade, que cai por cima das barbas dos donos das barbas. Beijo-te todos os beijos, amargurecidos, ou adoçados, porque és minha musa, nesta cidade. És o beijo de mulata de pele escura, ou de uma preta em amarelecimento como as mangas violadas em tempos de puberdade.

Beijo-te os beijos que voltarei a beijar-te, mesmo na saudade que sinto de ser mais doce que isto, comparando-me à raízes exorcizados, quando a cidade, esta, voltar a deixar-me habitá-la sem as fornicações empestas que deixam-me constantemente prenhe de ira e desejo exacerbado de tua carne temperada aos sóis de sempre.

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