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Caçadores furtivos abatem 2.500 elefantes em dois anos na Reserva do Niassa

Em dois anos (2011-2012), a Reserva do Niassa perdeu cerca de 2.500 elefantes devido à caça furtiva. Este mal afectou igualmente o Parque Nacional das Quirimbas, em Cabo Delgado, onde se estima que em média são ilegalmente abatidos 120 elefantes por ano.

“O que vi e conheci no Niassa e nas Quirimbas indica um caminhar para a total destruição do património faunístico do país, se não tomarmos medidas firmes para impedir esta catástrofe”, disse ao Notícias o director de conservação do Parque Nacional da Gorongosa, o conceituado médico veterinário, Carlos Pereira.

Segundo ele, a caça furtiva na Reserva do Niassa, em particular, não somente gera impactos negativos sobre a biodiversidade como também no turismo.

“O facto de, nos últimos anos, nenhum operador faunístico da província do Niassa ter conseguido abater um elefante, com pontas de marfim pesando o mínimo de 50 libras, (aproximadamente 23 quilogramas), conforme o estabelecido na Lei de Florestas e Fauna Bravia, é por si um indicador claro do abate indiscriminado daqueles animais.”

Lopes Pereira advertiu que se o país continuar a registar os actuais índices de caça furtiva, em cinco anos, populações de elefantes, búfalos e de outros grandes antílopes, poderão atingir níveis de extinção.

O uso massivo de trincheiras e laços com a ajuda de vedações que se prolongam por mais de um quilómetro de extensão, prova que a caça furtiva não é motivada pelas necessidades de subsistência das populações, mas sim por objectivos comerciais, sublinhou Pereira, para quem o mais correcto seria banir totalmente a caça ao elefante, nas coutadas e nas reservas de caça.

A medida, de acordo com ele, levaria os operadores faunísticos a explorarem outras atracções turísticas nas suas concessões e não teriam que inventar desculpas de última hora para os clientes, a quem tenham prometido o abate de elefantes com pontas pesando mais de 50 libras.

Nas palavras do veterinário, face à escassez de elefantes adultos na Reserva do Niassa e no Parque Nacional das Quirimbas, com pontas pesando o mínimo de 50 libras, operadores faunísticos há que solicitaram às autoridades competentes, autorização para abater animais daquela espécie, com o marfim abaixo do peso exigido por lei.

Pela mesma razão, caçadores furtivos abatem elefantes com menos de quatro anos de idade, no Parque Nacional das Quirimbas. Este interlocutor mostrou-se preocupado ainda com o envolvimento de alguns elementos das autoridades da província do Niassa na caça furtiva, directa ou indirectamente, de forma aberta ou a pretexto do conflito Homem/fauna bravia.

“Há meses que me diziam que elementos da guarda fronteira, na província do Niassa, estavam envolvidos nesta prática ilegal. Pedi aos colegas que trouxessem provas inequívocas do seu envolvimento e eles trouxeram. Hoje o próprio comandante da Polícia em Mecula já não consegue negar o envolvimento dos seus homens, porque pudemos demonstrar inequivocamente o seu envolvimento recente, através da entrega de armas de fogo a caçadores furtivos”, revelou.

O estabelecimento de comandos conjuntos, constituídos por elementos da Guarda Fronteira e da Direcção Nacional das Áreas de Conservação, para a protecção de espécies faunísticas e florestais, nas províncias do Niassa e de Cabo Delgado, embora bem-intencionado não constitui um mecanismo viável para conter a caça furtiva no terreno, defendeu Pereira.

Na sua opinião, o fracasso deve-se à ausência de métodos claros de trabalho e da fraca preparação dos elementos da Guarda Fronteira em matérias de fauna e flora, em relação aos fiscais ajuramentados.

“O envolvimento de militares (especializados) é uma opção, mas tem que ser devidamente enquadrado para se alcançar resultados consistentes. É necessário que eles encontrem no terreno a serenidade e profissionalismo necessários para poderem ser bem enquadrados, encaminhados e sucedidos”, concluiu o conservacionista.


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