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Cabritos no palácio do governador e mangais na baía de Inhambane

Cabritos no palácio do governador e mangais na baía de Inhambane

O palácio do governador de Inhambane é um monumento. Um património cultural da cidade. Está erguido no ponto mais alto da urbe. E a história diz-nos que é ali onde vivia o régulo Nhapossa. Que os colonos ostracizaram para construírem a residência oficial do chefe máximo do distrito. Mas não será sobre esse passado que vamos falar. O que nos move neste texto é o esplendor da construção e a sua localização. Quando se está na ponte-cais, o edifício ganha uma imensa elevação arquitectónica. E, a partir da Maxixe, a visão que se tem é de uma espectacularidade única. Não se pode calcorrear a marginal, bela e sedudora, sem se lançar a vista para o palácio. É como estar em Washington DC e não resistir à contemplação da “Casa Branca”, o edifício mais protegido do mundo.

É claro que este discurso vai contrastar com aquilo que se passa lá dentro. Actualmente. Há cerca de três semanas, aquando da morte do menino Artur, cujo corpo foi encontrado na arrecadação em estado de putrefação, num caso reportado pelo nosso Jornal, passámos rente ao palácio a caminho do Infantário Provincial de Inhambane e, ao lançarmos a vista para aquilo que deviam ser os jardins, fomos feridos na vista: dois cabritos pastavam, amarrados, no capim ressequido, que ontem já foi relva. “Caímos de cangalha”. Quer dizer, os espaços verdes do palácio do governador servem de pasto para rebanhos. E essa é a pura verdade, não se trata de nenhum filme de ficção.

Mas isto não é tudo. Não sabemos se é o governador Agostinho Trinta ou outro dos seus antecessores que mandou erguer um muro – inacabado –, para limitar a contemplação dos mirones que passam por ali. Os quais teriam um imenso prazer em apreciar um dos edifícios mais bonitos da cidade. E muito privilegiado pela sua localização. Para nós, esta é a maior manifestação da tacanhez cultural de quem mandou erguer uma vedação à volta de um edifício que é uma autêntica obra de arte que deve ser apreciada por todos.

O arquitecto que projectou o palácio do governador fê-lo com todo o esmero para não ferir a natureza. Do lado onde era necessário construir-se o muro alto, fê-lo, mas da parte da marginal bastava a duna, estável, e uma protecção a meia altura, para deixar a nu todo o esplendor da obra. Quer dizer, da forma como foi planeado o edifício, foi tomada em consideração toda a segurança para os seus ocupantes, para além de que existem lá homens armados e em permanente vigia. Mas há quem não percebeu isso, e matou toda aquela beleza.

Para além do muro, os jardins à volta estão a precisar de cuidados mais delicados, porque o palácio do governador pertence à cidade. Se o ilustríssimo Trinta quer privacidade, tem-na sem precisar de erguer muros, porque está numa zona alta e protegida por seguranças armados. Nós já estivemos por várias vezes naquele lugar cobiçado, e a vista que se tem da baía a partir dali é arrebatadora. E não vemos necessidade, absolutamente nenhuma, de se construir um muro que nos empresta uma feiura repelente. Os citadinos e os visitantes que chagam diariamente a Inhambane não merecem essa violência espiritual.

Não sabemos com que motivações alguém mandou – como se o muro não bastasse – amanhar uma horta no palácio do governador. Essa é a pior aberração, para além de que as folhas das coves ali plantadas estão ressequidas, num terreno descuidado. E toda a gente que passa por ali assiste a esse espectáculo que não dignifica o nosso governdor. E não é tudo, temos ainda, para debruar neste cenário todo, um alpendre usado pelos guardas que garantem a segurança do governante, construído em material local e que entra em perfeita desconsonância com aquela imponente obra. De arte.

O palácio do governador é do povo. É da cidade de Inhambane. É uma peça de museu. E os governantes que por ali passarem têm a obrigação de cuidar meticulosamente do lugar, como forma de dignificá-lo e darem prestígio a esta urbe, que é uma das mais mais belas do mundo. E nunca vamos perceber que se deixem pastar, nos jardins deste palácio que é do povo, quadrúpedes que, mesmo assim, não deixam de ser apetitosos.

Os mangais da revolta

As conversas são desenvolvidas em surdina. Revoltando-se contra a proliferação de mangais em toda a baía de Inhambane. Mas ninguém quer falar disso abertamente. Porém, nós já viemos a terreiro em oposição à situação. Colocámos inclusivamente a questão ao presidente do Município de Inhambane, o ilustre Benedito Guimino, e até aqui não vimos qualquer reacção.

O caso mais “doloroso” está no troço que fica entre o Hotel Capitão e a mesquita. Foram colocados bancos virados para o mar, com o propósito de dar aos citadinos o prazer de contemplar a baía e a irresistível paisagem que se estende desde Chicuque a Mucucune. Paradoxalmente, em frente a esses mesmos bancos, erguem-se enormes mangais que nos tapam a vista. Que nos impedem de ver toda aquela púrpura que veste a nossa urbe.

Na cidade de Inhambane nunca foi permitido o alastramento de mangais. E há pessoas aqui preparadas para justificar isso de forma científica. Houve sempre um controlo com vista a manter a baía limpa. E bela. Mas veio alguém para nos dizer que precisamos dessas plantas para a procriação das espécies marinhas. Os especialistas em meio ambiente deviam intervir neste caso porque – pensamos – eles sabem onde é que devem ser preservados os mangais. Não é na cidade. Aquela marginal é um lugar de veraneio. Em tempos de barcos de recreio as embarcações passeavam pela zona onde crescem hoje essas plantas, e as autoridades sempre se preocuparam em manter a orla livre. O que nos dava uma beleza única. Mas hoje a sensação que temos é de que a cidade é “beijada” pelo mato. E alguns citadinos que nos abordaram colocam a possibilidade de promover uma manifestação pacífica, de repúdio aos mangais.

Se alguém saiu daqui antes deste espectáculo negativo que a baía nos oferece, quando volta fica decepcionado. Há quem diz que parecemos primitivos. Que não temos o sentido do belo. E, na verdade, pela forma como as coisas estão expostas, parecemos, de facto, pessoas do mato. Ou que viemos do mato e não conseguimos tirar esse mato das nossas cabeças. Ou seja, ainda, não sabemos colocar as coisas nos seus devidos lugares, porque a baía de Inhambane é um lugar de recreio, e a sua vocação não se compadece, de forma alguma, com a existência de mangais.

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