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Cabo da boa música

Cabo da boa música

Na meca do jazz do continente africano, a Cidade do Cabo, na África do Sul, mais de 34 mil pessoas amantes deste estilo musical presenciaram e vibraram com a 12ª edição do Festival Internacional de Jazz. Do sax de Dave Kox à voz inebriante de Naima McLean, passando pelos fenomenais Earth Wind and Fire, pelos sax de Ivan Mazuze e Orlando Venhereque, ou a genialidade do quarteto de Wayne Shorter e o encanto de Esperanza Spalding.

Foram dois dias inesquecíveis que até começam com uma voz a cantar em português: Sandra Cordeiro. Uma jovem angolana, que se estreou num dos cinco palcos do Festival, cantando temas do seu primeiro álbum “Tata N´zambe”, fazendo interessantes misturas de bossa nova e ritmos de afro-jazz. Sandra foi recentemente indicada pela Rádio França Internacional como uma das dez melhores promessas da música do nosso continente.

O trompetista e compositor sul-africano Feya Faku actuou em seguida enquanto num palco exterior o jovem moçambicano Ivan Mazuze, para muitos jazzófilos o futuro do jazz, arrebatava a plateia com a sua flauta e o saxofone. Quem nunca teve a oportunidade de ouvir Ivan ao vivo começa por tentar escutá-lo com atenção mas dá por si a abanar o corpo tentando acompanhar o seu ritmo.

Como o festival é organizado para que várias actuações sucedam em simultâneo, já havia entretanto actuado a Stereotype Record, apresentando Chad Saaimanm Lloyd Jansen e Mathew Moolman.

Depois aconteceu um dos melhores momentos do Festival: a indescritível actuação de Dave Koz. Um multifacetado saxofonista norte-americano que assopra como poucos, salta e faz acrobacias em palco e, como poucos artistas, transporta o público para dentro do seu espectáculo.

Simplesmente inesquecível! Não é por acaso que Dave tem uma estrela com o seu nome no passeio da fama de hollywood. O sul-africano Steve Newman, o “jazzista criolo” das Maurícias Eric Triton e o nigerino Alhousseini Anivolla, apresentaram-se com o projecto conjunto Guitafrika, uma miscelânea de três culturas diferentes ao som de guitarras.

O pianista canadiano Oscar Peterson, falecido em 2007, foi recordado no Festival por um trio que juntou dois holandeses, o pianista Jack Van Poll e o baixista Hein Van de Geyn, e o guitarrista inglês James Schlfield.

A variedade de artistas e de nacionalidades amplificam a internacionalização deste festival. Este ano até um artista chinês esteve presente, Hanji. Com um longa carreira como produtor musical e escritor de músicas para artistas da sua terra, Hanji é conhecido como o Sinatra de Hong Kong, e assenta-lhe bem o apelido.

Funk, reggae, rock e kwaito misturaram-se no mesmo palco quando três jovens sul-africanos, que compõem um dos mais aclamados grupos do país, os GI, ou Gang of Instrumentals, fizeram a sua aparição.

Conversations with Victor Masondo foi uma rara oportunidade – e houve tantos momentos ímpares neste festival – mesmo para o público sul-africano, de ouvir ao vivo o internacionalmente reconhecido contrabaixista sul-africano Victor Masondo, acompanhado pelo trompete de Prince Lengoasa, a bateria de Kevin Gibson, o piano de Mark Fransman e o saxofone de Donvino Prins.

O pai do kwaai-jazz, uma fusão eclética de jazz com uma dança sulafricana, Don Laka apresentou-se quebrando novas barreiras entre o Jazz e ritmos mais contemporâneos para emoção dos milhares de fãs presentes.

A primeira noite do festival já ia alta e os sons começaram a ficar mais clássicos, primeiro o quarteto do genial saxofonista Wayne Shorter, um dos mais importantes compositores de jazz do nosso século. Inovador, Wayne já tocou ao lado das maiores lendas do jazz, ele foi o criativo que guiou o quarteto de Miles Davis nos anos sessenta, mas também ao lado de estrelas da música pop como Carlos Santana ou Joni Mitchell.

À cidade do Cabo trouxe o seu magistral quarteto de estrelas – o contrabaixista John Patitucci, o pianista Danilo Pérez, e o baterista Brian Blade – sem dúvidas o mais criativo, telepático e hipnótico pequeno conjunto de jazz em acção, que encantou os “jazzófilos” mas também deslumbrou os mais leigos. Um deleite!

Outro momento clássico foi a actuação dos The Flames – Ricky Fataar na bateria, Steve Fataar na guitarra, Blonde Chaplin vocalista e guitarrista, Jimi Curve no contrabaixo, Camilo Lombard nas teclas, a vocalista Tara Fataar, Ross McDonald no trombone, Jody Engelbrecht no trompete e Simon Bates no saxofone – que se reuniram especialmente para tocar neste Festival, uma vez que desde 1970 não tocavam juntos.

Poesia misturada com as cordas de um contrabaixo e uma dose de rap agitaram a noite quando os Tumi & The Volume subiram ao palco. Ainda houve uma grande actuação do trompetista norte-americano Christian Scott e uma brilhante performance dos Tortured Soul, que fazem “house music” com bateria, teclado e contrabaixo.

Enquanto a pianista e vocalista Patricia Barber fazia a sua cristalina actuação e a banda norte-americana, que junta o guitarrista Chieli Minucci ao grupo de jazz Special EFX, fazia fusões de jazz e ritmos latinos, a primeira noite aproximava-se do seu término mas ainda faltava actuar aquela que é considerada a melhor e mais bem sucedida banda “Funk” do mundo, os “Earth, Wind & Fire”, que fez uma combinação perfeita na fusão de ritmos e harmonias incorporando elementos como Jazz, Soul, Gospel, Pop & Blues, sob a liderança do baterista “Maurice White”, e posteriormente do vocalista “Philip Bailey”.

O segundo dia

O Festival de Jazz da cidade do Cabo não vive só de grandes estrelas, tem aberto espaço ao longo dos anos à actuação de jovens talentos que daqui voam para o estrelato. E a tarde do segundo dia do festival começou com uma banda de jovens saídos dos bairros de lata da cidade, os Sekunjalo Edujazz.

A rainha do afro-soul, a sul africana Simphiwe Dana, actuou de seguida. A sua performance teve que ser mudada de local pela organização tal foi a demanda dos fãs pela sua sua apresentação. Depois aconteceu a mais aguardada actuação do festival: Esperanza Spalding.

Numa sala espremida de fãs as luzes apagaram-se, fezse silêncio e ela subiu ao palco. Sentou-se numa poltrona, cenário criado especialmente para a actuação, e bebericou uma taça de vinho tinto. Desfez-se do casaco, ajustou a sua farta cabeleira, natural, tirou a sandália e encostou-se ao contrabaixo, bem mais largo do que ela e vários centímetros mais alto, e com os seus delicados dedos começou a tocá-lo para êxtase da pequena plateia. Vencedora do Grammy para Melhor Artista Revelação, a norte-americana cantou até em português. Fenomenal!

O guitarrista, pianista, vocalista e compositor sul-africano Dave Ledbetter actou com a sua nova banda, os Clearing, que integra o saxofonista Buddy Wells, o baterista Kesivan Naidoo, o pianista Andrew Lilley, o baixista Shane Cooper e o trompetista Lee Thompson.

Ntsholeng “Citie” Seetso, baixista, teve a honra de se estrear no festival, também como o primeiro artista do Botswana a marcar presença no evento.

Depois do pai e do avó haverem actuado em festivais anteriores, foi a vez de Naima McLean deixar a sua marca no maior festival de jazz de África, uma marca que ficou na mente de quem ouviu a sua linda voz e, para quem conhece o trabalho dos seus progenitores, fica a confirmação que de que filha de peixe sabe nadar.

Os Earth, Wind and Fire voltaram ao palco e contagiaram novamente a plateia, o tempo passa mas só faz bem a esta banda que em palco dança… salta… num ritmo de fazer inveja a muitos jovens.

O quarteto de Wayne Shorter fez também uma segunda actuação, onde Brian Blade deu novo show na bateria enquanto Danilo mantinha o seu piano ao ritmo do saxofone de Wayne e John acompanhava- os no contrabaixo.

O jovem de 25 anos Lwanda Gogwana apareceu neste festival já com a sua banda, depois de haver participado em ocasiões anteriores como integrante de outros grupos. Depois a voz inebriante da norte-americana Monique Bingham foi outra agradável surpresa. Quem conhece a sua carreira pôde confirmar o porquê da sua ascensão.

O guitarrista Chuck Loeb trouxe para o festival uma convidada, a vocalista e compositora espanhola Carmen Cuesta, uma dupla inovadora que apresentou um toque latino.

Depois subiu ao palco o flautista norte-americano Hubert Laws, trazendo para o jazz um pouco de música clássica – Bach, Stravinsky e Rachmaninov foram algumas das adaptações que tocou.

A vocalista e compositora sul-africana Lisa Bauer, uma das mais promissoras vozes do país, também marcou a sua presença, acompanhada pelo seu quarteto.

O flautista, tenor, soprano e saxofonista moçambicano Orlando Venhereque estreou-se num dos maiores palcos do festival e pôs a vibrar o público com temas que farão parte do seu primeiro álbum que em breve será lançado.

Uma verdadeira miscelânea artística foi apresentada pelos Gazelle, uma banda que mistura música, dança, arte, fotografia e moda. Numa altura que a África do Sul passa por momentos de tensão social o olhar crítico deste jovens liderados por Nick Matthews, que em palco veste como um verdadeiro ditador à africana, soa como a voz dos mais oprimidos com muita classe e música de qualidade.

A noite começava a cair, e aproximava-se o fim do festival quando a norte-americana Cindy Blackman se fez à bateria e começou a irradiar a sua energia, sentida pelos espectadores que terão ficado com o coração aos pulos.

Mas ainda havia mais momentos de emoção no festival. Hugh Masekela e o seu irmão camarada norte-americano, o pianista Larry Wills, subiram ao palco, acompanhados pelo baixista Victor Masondo e o baterista Lee Roy Sauls, e encantaram quem teve a oportunidade de estar na sala apresentando o álbum “Almost Like Being in Jazz”. Um projecto que os dois, Hugh e Larry, tinham por realizar há quase quatro décadas. Quem viu e ouviu ficou sem palavras! A honra de encerrar o festival coube ao cantor senegalês, rei do mbalax, Youssou N´Dour.

O festival, que hoje é um dos quatro mais importantes do género no mundo, terminou deixando os fãs encantados e já a fazerem planos para a edição do próximo ano. Próximo ano? Exacto aqui planeia-se com esta antecedência pois o Cabo fica, nesta semana já tradicional do jazz, literalmente lotado. Parafraseando o Presidente sulafricano, Jacob Zuma “o Festival Internacional de Jazz da Cidade do Cabo tem crescido e é mais do que apenas um festival de música. Ele tornou-se um retiro anual, no qual pessoas de todas as classes sociais se unem para alimentar a sua alma”.

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