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Bitonga Blues – Tete no meu coração com Catandica no peito

O título desta crónica pode não estar muito claro, ou até pode parecer confuso, mas quando o ensaiei senti que ele me percorria as veias. E, se penetra por onde escorre o meu sangue, é porque ele está bom. Gilberto Gil, também, numa das suas músicas, dizia assim: o Rio de Janeiro Fevereiro e Março… Mas o que é que a cidade de Rio de Janeiro, no Brasil, tem a ver com os meses de Fevereiro e Março? Aparentemente, não terá nada! Contudo, cantado pela liberdade deste músico com infância passada na Bahia, subverte os parâmetros e fi ca leve como a própria beleza.

Também quis seguir as peugadas do Gil, porque Catandica não terá imediatamente nenhuma ligação com Tete, tanto mais que é um distrito que pertence à província de Manica. Porém, você nunca chegará à terra dos nyungwes, viajando por estrada, a partir da zona sul, sem passar por Catandica. Outro artista que me ajudou a fi car à vontade com o meu título é um louco de que não me lembro o nome. Ele dizia assim: se você é um artista plástico e pinta uma mulher nua no seu quadro e nesse acto não fi car excitado, então o seu quadro não está perfeito, refaça-o, mexa nele até sentir o sangue a correr em direcção ao sexo. Aí sim, quando sentir a loucura, o seu quadro pode ser colocado na montra.

Eu senti isso no meu título: parecia que estava diante de uma mulher nua que se entrega sem limites, para gáudio de todo o meu animal. Este título é uma mulher. Catandica também. Lá no fundo, para o lado onde o sol se põe, estende-se uma cordilheira que começa mais ou menos onde começa Catandica – a noroeste – e vai até o Zimbabwe. Nunca tinha visto uma paisagem tão sedutora, tão arrebatadora, tão interminável. Já tinha ouvido falar da Cordilheira dos Andes e já vi isso em fi lmes.

Mas uma cordilheira ao vivo e ainda por cima no meu país, nunca! Aquilo só pode ser obra de Deus, porque um estendal daquele porte só será construído por mãos Divinas. Tudo aquilo parece o outro lado do paraíso, ou um pedaço do paraíso. Andando de carro, na estrada asfaltada, as montanhas verdes parecem estar a sorrir para nós e a rirem-se da nossa incapacidade de atingi-las: enquanto umas desaparecem em direcção ao Zimbabawe, outras nascem ao noroeste e, quando é assim, a melhor coisa que se deve fazer é entregar-se à sedução. É isso: eu decidi chamar aquele paraíso de Cordilheira de Catandica.

Mas eu vou a Tete, onde uma das primeiras coisas que vou fazer é beber sumo de malambi, meio azedo, mas muito bom para a saúde e para ressuscitar mitos. Fui a Tete vingar-me da Luísa Meneses, essa louca manyungwe que fala aos microfones da Rádio Moçambique como se estivesse a cumprir a doçura do amor, como se nos amasse a todos, como se nos conhecesse e coubéssemos nas suas palavras e nas suas mãos e no seu peito farto de mel. Tete é um ventre sagrado.

É de lá a outra Luísa, a Diogo, uma das mulheres que orgulharão os nyungwes. A Luísa Meneses e a Luísa Diogo, contrastam com o rio Chimadzi, agora com a barriga sáfara. Contrastam porque as duas mulheres estão permanentemente grávidas de sabedoria. Estar com elas é como comer papas de malambi em dias de fome. Lembrei-me delas quando vi o Chimadzi sem água e eu disse: mas a Luísa Meneses e a Luísa Diogo, estão cheias de água para dar a toda a gente. Elas são a própria água.

Pois é: um dia voltarei a Tete para retribuir o amor que aquela cidade me deu. Para rever a Grace, se ela ainda lá estiver e desobedecer, por assim dizer, aos que nos aconselham a não voltar aos locais onde já fomos felizes: “Nunca voltes ao lugar onde já foste feliz, porque vais fi car decepcionado! Mas eu voltarei a Tete.

Por : Alexandre Chaúque 

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