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Bibi já pode sorrir

Quando o rosto da jovem afegã Bibi Aisha, de 18 anos, apareceu na capa da edição da revista americana “Time” de 9 de Agosto, chamou a atenção de muitas das pessoas que em todo o mundo tiveram contacto com a imagem, pois tratava-se duma mutilação. O nariz de Bibi havia sido cortado à faca, assim como as duas orelhas, ocultas pelo cabelo. Ela era mais uma vítima da violência contra as mulheres no Afeganistão.

A 8 de Outubro, Aisha começou a vencer a barbárie. Ela fez a sua primeira aparição pública com uma prótese de nariz, num evento em Beverly Hills, o bairro mais elegante de Los Angeles. A jovem afegã está desde Agosto nos Estados Unidos sob a protecção da Fundação Grossman para Queimados.

A instituição trouxe Aisha do Afeganistão, tem custeado a sua estada nos EUA e vai pagar as cirurgias de reconstrução do rosto a que ela se vai submeter no futuro. A jovem vem sendo acompanhada por psicólogos e médicos, que dirão quando ela estará pronta para a plástica. “Ela sentiu- se óptima com a prótese e está muito feliz”, afirma Esther Hyneman, da ONG Mulheres pelas Mulheres Afegãs, que abrigou Aisha por nove meses no Afeganistão. Muitos dos detalhes que cercam a história de Aisha ainda são obscuros.

Numa tentativa de protegê- la, não se diz exactamente de que cidade vem e qual é o sobrenome da sua família. Sabe-se que ela foi levada a uma base militar americana em Tarin Kowt, na província de Uruzgan. Os detalhes são imprecisos, mas Aisha ter-se-ia arrastado das montanhas, onde fora deixada para morrer depois da mutilação. Mesmo a sangrar muito, ela teria conseguido chegar a uma aldeia próxima, de onde foi levada aos médicos americanos. Por falta de documentos e informações familiares, não se tem conhecimeto da sua verdadeira idade.

O drama de Aisha começou mais ou menos em 2001, na mesma época em que os americanos invadiram o Afeganistão em busca de Bin Laden, o responsável pelo ataque às Torres Gémeas em 11 de Setembro. Com cerca de 10 anos, ela foi dada a outra família como “baad”, uma espécie de indemnização.

O seu tio havia matado um parente do homem que viria a ser seu marido. Ela foi o presente que selou a paz entre as famílias. Segundo a ONG que protege Aisha, uma das suas irmãs também foi parte do pacote. Como se trata de uma região controlada pelos talibans, à qual a ONG não tem acesso, não se sabe da situação dessa segunda menina.

Aisha conta que nessa família ela dormiu num estábulo até menstruar e ser desposada por um dos homens da casa. Mas a sua situação não melhorou. Diz que era espancada frequentemente. Depois de uma surra especialmente brutal, ela fugiu. Teria entre 16 e 17 anos. Com a suposta ajuda de um vizinho, ela chegou a Kandahar, uma das principais cidades do país, dominada pelos talibans.

Como ela não estava sob a guarda de nenhum homem, foi detida na rua e levada a uma prisão feminina, onde fi cou quatro meses. De alguma forma o pai conseguiu localizá-la e libertá-la. Mas, como mandam os costumes, devolveu-a ao marido. Possesso com a desobediência, este mandou que os irmãos a segurassem e, pessoalmente, cortou o nariz e as orelhas de Aisha.

Depois fez com que a levassem às montanhas para morrer. A ONG que cuida da jovem e a revista Time dizem que o marido dela é taliban. Uma jornalista da revista Nation, que também entrevistou Aisha, ouviu dela que o marido não fazia parte do grupo. A questão é importante por ter sido usada como uma justifi cativa política para prolongar a presença americana no Afeganistão.

Analfabeta e com conhecimentos mínimos da realidade externa aos muros da casa onde vivia, a própria Aisha é uma fonte precária de informações. Esther Hyneman, que estava com ela na semana passada, diz, porém, que presenciou um ataque nervoso de Aisha à simples menção da palavra taliban.

“Ela é muito esperta, mas cresceu num vilarejo e nunca frequentou a escola”, diz Esther. A activista conta que comprou um mapa-múndi para mostrar a Aisha onde fica o Afeganistão e a cidade de Los Angeles, onde ela está agora. O que o futuro reserva à jovem afegã é uma incógnita.

Depois das cirurgias, ela certamente passará por um período de recuperação nos EUA, mas não se sabe para onde irá depois. Presentemente, exibe sintomas de stress pós-traumático natural em quem passou por graus elevados de abandono, maus tratos e violência física e psicológica. Ela terá condições de voltar a viver no Afeganistão? “É muito cedo para pensar nisso”, diz Esther. “Aisha é uma sobrevivente e está a enfrentar um dia de cada vez.” Agora, com um sorriso nos lábios.

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