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“Bebemos água dos poços e não tratada com cloro, porque nesta zona não há torneiras”

“Bebemos água dos poços e não tratada com cloro

Moçambique celebra 40 anos de independência nacional com mais de metade dos moçambicanos ainda sem acesso a fontes melhoradas de abastecimento de água, mesmo nas grandes cidades. “Bebemos água dos poços e não tratada com cloro, porque nesta zona não há torneiras e nos fontenários que existem não jorra água” afirma Ababy Rachide residente do bairro de Mutava Rex, na cidade de Nampula, a chamada capital do norte, que acredita que dois menores, membros da sua família, perderam a vida devido ao consumo de água imprópria.

Na cidade de Nampula água potável na torneira é um luxo usufruído por cerca de 30 mil munícipes, dos perto de 500 mil que residem na capital da província. Eugénia Gonçalves, moradora do bairro de Murrapania desde 1993, é uma das desafortunadas que todos os dias tem de acordar cedo e caminhar vários quilómetros para encontrar água para o consumo da sua família, constituída por oito pessoas, no único fontenário onde o precioso líquido jorra, dos nove existentes no seu bairro.

“Sou obrigada a acordar por volta das quatro horas da manhã para conseguir pelo menos água para beber e confecção de alimentos” lamenta Eugénia que acrescenta também recorrer ao rio Napipine como fonte de água para as limpezas e lavagem da roupa.

Ancha Antinane é residente no bairro mais populoso da cidade de Nampula, Namicopo, onde existe “um único fontenário que funciona de forma irregular e, nos dias em que jorra água, tem havido longas filas o que obriga a madrugar e a correr os riscos daí decorrentes, sobretudo os assaltos e violações sexuais que têm sido frequentes”.

Este facto é corroborado pelas estatísticas do UNICEF, que estimam que só em África “as pessoas gastam 40 000 000 000 de horas por ano a caminhar apenas para colectar água, as mulheres e meninas, a colecta de água subtrai-lhes o tempo que elas poderiam usar a cuidar de famílias e a estudar. Em zonas inseguras, esse fenómeno coloca-as em risco de violência e ataques.”

Mas há alturas em que a água dos poucos fontenários também fica inacessível e a alternativa tem sido a dos poços particulares, muitos construídos nas proximidades de latrinas e locais de acumulação de lixo.

“Muitas crianças ainda não têm acesso a água segura”

O drama do acesso a fontes melhoradas de abastecimento de água não é uma novidade em Moçambique. Momade Assane, secretário de uma das unidades comunais da cidade de Nampula, refere que a crise no abastecimento de água é um assunto de domínio público e arrasta-se há mais de vinte anos. A problemática também é do conhecimento dos governos locais e da província, mas nunca chega a regularizar-se.

“Habitualmente bebemos água dos poços e não tratada. Quando eclodiu a cólera na cidade, fizemos uma carta ao município relatando o consumo de água imprópria, como sendo a principal causa e, em jeito de resposta, forneciam-nos a água através de tanques móveis, mas foi apenas durante um mês”, afirmou o nosso interlocutor que acrescentou que têm sido também reportadas na região doenças de pele e diarreias agudas.

“Ao longo deste ano perdemos mais de dez pessoas, devido à cólera. Ficámos surpreendidos com informações do sector que dão conta de que o número de mortes por esta doença não chega a dez”, lamentou.

De acordo com um comunicado do UNICEF, por ocasião do Dia Mundial da Água, comemorado no passado domingo (22), “as condições precárias de água e saneamento geram sérias consequências à saúde da criança, muitas vezes provocando diarreias e outras doenças facilmente evitáveis. Em Moçambique e em vários outros países, crianças, especialmente meninas, muitas vezes não frequentam a escola porque são responsáveis pela colecta de água para as suas famílias, o que pode exigir muitas horas do seu tempo.”

Apesar da consciência dos riscos de consumir água imprópria Ababy Rachide é um dos vários moçambicanos que não permite que os activistas do Ministério da Saúde e da Cruz Vermelha de Moçambique façam o tratamento dos poços, que consiste na colocação de cloro nos poços. Contudo, os populares acreditam que o que em vez de tornarem a água mais segura os activistas estão a propagar a doença.

Para o representante do UNICEF em Moçambique, Dr. Koenraad Vanormelingen, “apesar dos progressos realizados, a epidemia de cólera que o país enfrenta mostra que muitas crianças ainda não têm acesso a água segura.”

Fora dos centros urbanos o drama de acesso a fontes melhoradas de abastecimento de água é muito mais dramático. De acordo com o Inquérito de Indicadores Múltiplos 2008, apenas 30 porcento das zonas rurais tinham acesso a água potável em Moçambique.

O direito a beneficiar do precioso líquido foi declarado pela Assembleia Geral da ONU como um direito humano fundamental. Porém, apesar dos investimentos feitos pelo Governo e parceiros de Cooperação desde 1990, no âmbito dos Objectivo de Desenvolvimento do Milénio, Moçambique não conseguiu garantir o acesso de água potável para a maioria dos cidadãos.

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