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Basquetebol: Uma modalidade que clama por “resgate” em Nampula

O basquetebol na província de Nampula conhece, nos últimos dias, uma nova etapa. Se no passado esta modalidade era uma espécie de “tabu”, nos dias que correm já é possível, em lugares onde ela pode ser praticada, constatar a movimentação de atletas, sobretudo das camadas de formação. Todavia, no cômputo geral, ela ainda carece de estruturação visto que, de forma desordenada, é movimentada, essencialmente, por antigos basquetebolistas.

O colapso do basquetebol em Nampula deu-se nos meados de 2010, como consequência do ambiente turvo que caracterizava a Associação Provincial da modalidade neste ponto do país. Os conflitos internos que geraram divisão entre os dirigentes e a falta de fundos para o funcionamento da agremiação estiveram por detrás da extinção da “bola ao cesto” na considerada capital do norte.

Aqueles acontecimentos, que se alastraram até ao ano passado, anteciparam a renúncia de Rui Santos ao cargo de presidente da Associação Provincial de Basquetebol de Nampula (APBN) em Outubro passado. Depois disso, a agremiação passou para uma comissão de gestão que, por sua vez, se encarregou de organizar as eleições no passado mês de Abril que culminaram com a eleição do elenco liderado por Albino Dimene. Nesta semana, o @Verdade conversou com Eurico da Silva, vice-presidente daquela agremiação.

@Verdade – Qual é o actual estágio do basquetebol a nível da província de Nampula?

Eurico da Silva – O basquetebol em Nampula está no bom caminho. Estamos mais encorajados a trabalhar em comparação com os anos anteriores e, para começar, temos um torneio a decorrer sem sobressaltos, o que nos deixa felizes. Mas isto não pode significar, de jeito nenhum, que não passamos por necessidades.

@V – Desde a vossa tomada de posse em Abril, quais são as actividades que já desenvolveram?

ES – Numa primeira fase tratámos de fazer um levantamento exaustivo do número de clubes e núcleos que têm movimentado esta modalidade, das necessidades desta agremiação e traçamos um plano de actividades para a presente época. Na segunda fase organizámos um torneio, que ainda está em curso, com o simples objectivo de preparar os clubes para o Campeonato Provincial de Basquetebol que se avizinha.

Felizmente, garantimos os prémios aos vencedores e já angariámos patrocinadores para que nos possam ajudar, não só na logística da prova, como também no pagamento dos árbitros. Devo dizer que tudo está a decorrer conforme o planificado.

@V – Neste momento, em Nampula existem quantos clubes e atletas?

ES – Temos cerca de quinhentos atletas e um total de dez equipas que movimentam todos os escalões. Em termos de regiões geográficas, temos a destacar a cidade de Nacala-Porto que movimenta cerca de 350 atletas com um clube e um núcleo, nomeadamente o Ferroviário local e a Petromoc. Temos, ainda, a Escola Secundária de Nacala que trabalha na formação de novos talentos. Os restantes atletas por nós registados estão localizados na cidade de Nampula onde temos, também, o Ferroviário local.

@V – As equipas estão apetrechadas em termos de material de trabalho?

ES – Ainda temos problemas sérios nesta componente. E isto parte da própria associação até aos clubes e núcleos, em que muitos são formados por grupos de amigos e antigos basquetebolistas, normalmente sem condições financeiras. Só para dar um exemplo, a nível da província de Nampula temos apenas dois clubes, que por ironia do destino apostam mais no futebol do que no basquetebol. Os núcleos, por sua vez, que se concentram apenas nesta modalidade não têm como levar avante o basquetebol.

@V – E o que a associação fez para prestar apoio aos núcleos, por exemplo?

ES – Depois de termos feito o censo dos clubes e atletas, fizemos a distribuição de cerca de 40 bolas para as equipas que se encontram filiadas na associação, com destaque para as camadas de formação. Prestámos apoio no que diz respeito ao próprio equipamento, ou seja, em sapatilhas, e assegurámos que todas as equipas estejam em pé de igualdade, ainda que seja pouco para os nossos anseios.

Quanto aos árbitros, tudo depende de cada um deles. Mas devo afirmar que há cerca de três anos tivemos o apoio de um árbitro internacional de cá de Nampula (Abreu) que alocou cerca de trinta pares de equipamento completo, apitos e algumas bolas, que até hoje estamos a usar.

@V – De quantos árbitros a APBN dispõe?

ES – Nós temos um défice enorme de árbitros em Nampula. Neste momento dispomos de apenas vinte em toda a província. O ideal para nós seria, no mínimo, ter trinta árbitros, de modo a evitar que uma única pessoa apite quatro jogos num só dia.

@V – E qual é o trabalho que está a ser feito para se ter mais árbitros?

ES – Neste momento estamos no processo de mobilização de mais atletas que terão de passar por um curso de formação de arbitragem. Garantimos todo o apoio necessário, desde o logístico até ao financeiro para tornar possível este projecto. É objectivo principal da nossa agremiação ter mais árbitros de basquetebol em Nampula.

@V – A nível de infra-estruturas, como é que está a província de Nampula?

ES – Infelizmente, a questão das infra-estruturas desportivas nesta província nortenha do país ainda é um problema generalizado e longe de ser resolvido. Mas, também, devo dizer que na cidade de Nampula temos dois campos em condições, ambos do clube Ferroviário de Nampula; em Nacala-Porto temos também dois campos, o do Ferroviário local e o da Escola Secundária. Nas cidades de Monapo e da Ilha de Moçambique temos dois campos que carecem de obras de reabilitação.

Mas é preciso realçar que dos campos disponíveis nem todos podem ser utilizados em função do nosso calendário. Pelo contrário, somos sempre obrigados a perguntar sobre a disponibilidade dos mesmos visto que, para os proprietários, é prioritário acolher eventos rentáveis visto que nós usamos a custo zero, ainda que ajudemos no pagamento da iluminação.

@V – A associação tem sede própria?

ES – Não temos. Os documentos da nossa associação ficam na residência do vice-presidente e outros na casa do secretário-geral. Por vezes, usamos as instalações da Associação Provincial de Futebol em Nampula.

@V – Qual é a relação entre a APBN e a Federação Moçambicana Basquetebol (FMB)?

ES – Se dissesse que temos boas relações estaria a mentir a mim mesmo. O nosso relacionamento com FMB é apenas de troca de expedientes, ou seja, eles têm solicitado a nós o envio dos nossos planos, dos nossos relatórios, entre outros documentos. Mas em termos de apoio nunca tivemos. Diria mais: estamos agastados com esta federação. Em Abril último, dois atletas daqui de Nampula saíram a Maputo para integrar a selecção nacional sub-16. Tratando-se de dois menores, a federação obrigou-os a viajar de avião na ida e de autocarro na volta. Os pais desses dois atletas ficaram agastados e pediram para que não voltassem mais à selecção nacional, arruinando o sonho de duas crianças que podiam despontar neste país.

@V – Sabe da existência de um fundo alocado pelo Governo à FMB?

ES – Sabemos, sim. E temos acompanhado a par e passo tudo o que está relacionado com esse fundo. Mas, infelizmente, nunca recebemos nada da federação. Tudo fica na sede. Aliás, o Fundo de Promoção Desportiva para nós é um “tabu”.

@V – E como é que funciona a agremiação sem o apoio da FMB?

ES – Neste momento estamos a finalizar o processo do nosso reconhecimento jurídico para, a partir daí, passarmos a procurar apoio localmente. O nosso governo mostrou-se disponível mas, infelizmente, ainda não estamos reconhecidos juridicamente.

@V – Qual é o vosso orçamento anual?

ES – Trabalhamos com base num orçamento inferior a 50 mil meticais. E nunca é constante. Esse orçamento provém das inscrições, das filiações e de algumas comparticipações das equipas.

@V – Esse orçamento chega a cobrir todas as vossas necessidades?

ES – Obviamente que não. De acordo com o nosso plano operacional, só neste ano precisaríamos de um total de 400 mil meticais. Com este valor seria possível movimentar esta modalidade como deve ser em Nampula.

@V – A APBN tem dívidas?

ES – Felizmente não temos dívidas.

@V – Há notícias de que a província de Nampula é pioneira na falsificação de idades de atletas de várias modalidades desportivas. Isto acontece também no basquetebol?

ES – Num passado recente tivemos quatro casos relacionados com a falsificação de idades de jogadores. Todos nos escalões de juniores. Tomámos medidas duras contra os infractores, como forma de desencorajar esta prática e servir de exemplo para as restantes modalidades. Neste momento os quatro atletas estão suspensos e decorrem, ainda, investigações para apurar os verdadeiros rostos destes casos. Por este motivo cancelámos o Campeonato Provincial em juniores masculinos em Nampula.

@V – Mas, para além de castigar, quais são as acções de prevenção desenvolvidas pela APBN?

ES – Neste momento estamos a trabalhar com a Escola de Basquetebol Ntsay, no registo gratuito dos atletas que não dispõem de bilhetes de identidade na esperança de, caso surta o efeito desejado, expandir a iniciativa para os demais clubes. Assim, estaremos a prevenir eventuais casos de falsificação de idades. Nampula é palco do Campeonato Nacional de Basquetebol em juniores masculinos.

A cidade de Nampula será palco, em Novembro próximo, do Campeonato Nacional de Basquetebol em juniores masculinos. Segundo Eurico Silva, vice-presidente da Associação Provincial de Basquetebol de Nampula, o seu organismo está preparado para organizar o certame que se prevê ser disputado nos dois pavilhões do Ferroviário de Nampula. No campeonato, a Associação Provincial de Basquetebol de Nampula espera acolher cerca de 400 pessoas, entre elas atletas, treinadores e dirigentes desportivos.

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