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Bares de alterne caseiros – Convívios íntimos

Bares de alterne caseiros - Convívios íntimos

      Vistas do exterior parecem casas vulgares. Contudo, o seu interior esconde os dois mais antigos vícios do homem: o álcool e a prostituição. Em Maputo a “moda” está a pegar e a clientela, constituída por homens de todas as idades, não pára de aumentar.

 

 

     Norberto, Osvaldo e Romão possuem emprego precário. Amândio é estudante universitário. Nélson é bancário.Os cinco encontram-se à porta de uma modesta “flat” de um segundo andar num pequeno prédio na Avenida Ahmed Sékou Touré, em Maputo. Ao toque da campainha, do outro lado da porta, surge a vovó Gina, uma idosa de sorriso largo e fala fácil.

    Conhecedores do espaço, os utentes entram sem cerimónias para a pequena sala de visitas. Uns sofás de napa de um vermelho corroído pelo tempo e pelo uso dominam o espaço. “Três médias e cinco copos!”, ordena Norberto. Uma menina, que aparenta ter 20 anos, carrega o pedido e deixa-o na mesinha colocada ao centro. Volta à cozinha donde sai com um copo. Enche-o e proclama: “À nossa saúde…estava com muita babalaza!…”

     Uma semana antes, não resistimos ao convite que nos levou também a uma “flat” sombria de um quinto andar de um prédio da Avenida Emília Daússe, na Malhangalene. Aqui, à volta de uma grande mesa de madeira, estavam sentadas mais de dez pessoas. Pouco a pouco, foram chegando mais convivas, o que ampliava o espaço da roda, aumentando também a quantidade de cervejas e copos transportados por uma moça dona de um rosto que em nada envergonhava a capa de uma revista. Para cada novo membro que ia chegando, repetiam-se os brindes: “tchin-tchin à nossa saúde!”

     Bairro T-3, Matola. Estamos numa moradia térrea pertencente a uma senhora carinhosamente chamada “vovó” Fina. Nos diferentes cantos do quintal há grupos de quatro ou cinco convivas sentados em redor de mesas de plástico. Os pedidos de rodadas de cervejas sucedem-se. As conversas giram tanto em torno de assuntos sérios como de banais, sempre alimentadas pelo “bem gelado” líquido dourado com espuma que sabe a amargo-doce.

As iscas e os alvos

     Estes convívios descritos nos três cenários anteriores estão longe de ser “mahala”. Será por isso que Norberto afirma: “Só quando tenho bastante dinheiro, é que venho beber aqui à vovó Gina.”Um indivíduo desempregado, com cerca de 30 anos e morador do bairro “Central-B”, remata: “Também quando estou com bolsos rotos venho porque aqui, ao contrário das barracas, onde os donos são demasiado rudes, na vovó posso beber a crédito. Pago depois!”

     Mais do que isso, esses jovens são impulsionados por ilusões e falsas declarações das meninas “armadas de`tchuna-babes`”. Muitos destes frequentadores não pensam duas vezes antes de gastar dinheiro que muitas vezes nem sequer têm. É vulgar passarem umas notas por baixo da mesa em troca de uma simples promessa de beijo.

     É no prolongamento dessa ilusão, sobretudo depois de uns copos a mais, que mandam comprar e assar frangos, carne e quejandos. E, como querem passar por ricos, as garotas aproveitampara sofisticar os gostos, pedindo a substituição da cerveja pelo vinho verde ou pelo whisky velho.

     Perto da meia-noite, a juventude já terá bebido mais do que o recomendável. Mesmo assim, a sede de consumo não cessa. “Esta é a última rodada”, atira Amândio, justificando que “não é por mal: amanhã tenho teste na faculdade!”

     Mas este fenómeno não é exclusivo da juventude descomprometida. Os chamados “kotas”, chefes de família, também procuram este tipo de casas. “Na minha idade já tenho direito a ter amantes”, refere o editor de um semanário. O jornalista sénior defende que opta por estes “bares domésticos” para não ser surpreendido pela sua a “primeira-dama” numa barraca qualquer em companhias publicamente reprováveis.

Quando o lucro é uma miragem

     Vovó Gina é católica praticante e reconhece que a bebida faz mal. Sobretudo aos jovens. Talvez por isso diz que nunca “tocou a trompeta” para convidar seja quem for. “Este negócio não dá lucro”, afirma. Explica que compra a 23 Meticais a cerveja média no retalhista da esquina para revender a 25 em casa. A média preta sai-lhe a 25 e revende a 27 Meticais. “Só ganho dois Meticais por cerveja”. Se nesses 2 meticais se deduzir a energia que alimenta a geleira, o lucro é uma miragem. Além disso, muitos dos clientes, já bêbados, fazem muito barrulho. Recitam cantigas indecentes. Sujam a casa. Sobretudo, “perdem o respeito ao meu marido que é obrigado a refugiar-se no quarto mesmo que não queira.” A isto acrescente-se mais um contra, provavelmente o mais desagrável: as dívidas não honradas. “Tenho um caderno cheio de devedores. No total podem chegar a cinco mil Meticais”, esclarece. Nada de somenos importância para quem tem o marido na reforma há mais de dez anos. Por isso, lamenta que haja “muitos que nunca voltaram para pagar as contas.” O maridodiz que tentou combater o negócio. Debalde.

     No reverso da medalha, tal como muitos outros jovens, encontra-se Norberto. Esteconta que num dia que tinha muito dinheiro para gastar com as “menininhas-iscas”, o seu grupo perdeu a noção do tempo. O festival alcoólico prolongou-se e quando deram conta, já tinha amanhecido. Nessa noite, gastou 5 mil Meticais, ficando sem um tostão para satisfazer as necessidades básicas da sua casa. “Quando voltei para casa o meu filho pediu-me para comprar um iorgurte que custa 10 Meticais. Quando reparei que nem isso tinha fiquei frustrado!” E continua: “Também um dia acordei numa vala de drenagem porque estava a conduzir completamente bêbado.”

“Lobby” poderoso

Sabe-se que o álcool é a droga mais perigosa para os jovens. Mais do que qualquer droga ilegal, o álcool está relacionado com as três principais causas de morte dos adolescentes: acidentes de viação, assassinatos e suicídios. Em Moçambique, não há estudos pormenorizados sobre a problemática, mas um trabalho de pesquisa efectuado recentemente nos Estados Unidos da América e publicado no jornal “The Washington Post” revela que o álcool mata 6,5 vezes mais jovens do que todas as outras drogas ilícitas juntas. “Então, porque é que temos uma campanha nacional de combate à droga e não temos nenhuma contra a ingestão de bebidas alcoólicas por menores de idade?”, questionou o jovem sociólogo Shareef Malundah ao @ VERDADE, para depois concluir: o “lobby” do álcool é mais poderoso.

 

 

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