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Azgo à operação “23/24”

Azgo à operação “23/24”

Embora já se tenha tornado tradição que, anualmente, em cada final de Maio, Maputo acolha o Festival Azgo, as campanhas publicitárias disseminadas pela organização da iniciativa chamam à nossa atenção sobre o tópico. Porque o evento que começa nesta sexta-feira só termina na madrugada de domingo –, cá entre nós – “Azgo à operação ‘23/24’” é a primeira palavra de ordem.

Para os visitantes da nossa terra, a sentença “Azgo à operação ‘23/24’” parece ser desprovida de sentido – o que não é verdade porque, para nós, a palavra inicial tem o sentido de Ir, significando, por conseguinte, Vamos. Esperamos, nesta onda de ideias, que o evento produza uma segunda palavra de ordem. Com um cardápio de artistas já conhecido, tendo em conta que a iniciativa é de cariz internacional, há – no seio de alguma ala de opinião – vozes que deploram a participação de alguns jovens emergentes na música moçambicana, que interpretam um estilo musical muito próprio.

O estimado leitor já deve imaginar – porque é claro – que se trata de nomes como Mr. Kuka, Mr. Bow e Hernâni da Silva, por exemplo. Artistas que, segundo a crítica, em determinadas condições de rigor, teriam de passar por muitos e longos anos, a programar bem a sua carreira, a fim de participarem num festival musical internacional propriamente dito. A verdade é que, se analisado bem o assunto, é possível que se constate que o mérito do Azgo tem a ver com o facto de dar a tais cantores – supostamente inexperientes – oportunidades para actuarem em grandes palcos.

Esta possibilidade tem o condão de colocar o evento a contribuir para a elaboração do seu currículo artístico. Este reconhecimento de que tais cantores também possuem admiradores que, em condições diferentes destas, provavelmente não aceitariam comprar o ingresso para ver o maliano Salif Keita – que conquistou ‘o coração do mundo’ e não o deles – ou da cabo-verdiana, Mayra Andrade. Este arranjo do Festival Azgo permite a formação contínua do público com vista a pô-lo em contacto com produtos, supostamente, não consumidos porque não são conhecidos.

De facto abre-se, com este arranjo, outro mérito, a possibilidade de se activar a sua adormecida sensibilidade musical em relação ao género melódico que estes últimos músicos – Mayra Andrade e Salif Keita, por exemplo – propõem a este público em formação. A outra prática da crítica musical moçambicana – um tremendo pecado – é sancionar negativamente os artistas locais, utilizando apenas o critério do conteúdo das suas composições musicais, em comparação com as dos estrangeiros, sem, no mínimo, antes de mais, ouvir a obra dos que vêm a Moçambique.

É preciso convir que, sem pesquisa sobre o assunto, não há garantias de que os nossos críticos musicais possam avaliar a excelência artística ou performativa, por exemplo, dos artistas japoneses Kiwi And The Papaya Mangoes ou dos espanhóis Fuel Fandango. É urgente ouvir a sua música, ver as suas actuações para elaborar alguma opinião em sentido comparativo. Mas, mais do que isso, é necessário também que se tenha em mente que a música não é, necessariamente, a mensagem ou o conteúdo da composição – o que não isenta os compositores da responsabilidade de se esmerarem na sua área da actuação.

A razão da empolgação

As nossas conversas, travadas com alguns artistas, possibilitam-nos afirmar que a maior empolgação dos artistas participantes no Festival Azgo – o que até pode contribuir para a qualidade da sua actuação – tem a ver com o facto de se tratar de um evento de cariz internacional. “Ao longo dos seus mais de 30 anos da sua existência para a banda Ghorwane, experiências desta natureza eram vividas fora do país. Neste sentido, a realização do Festival Azgo, em Maputo, tem o mérito de criar condições para que nós, os artistas moçambicanos mais experimentados, possamos encontrar-nos com os colegas de outros países com os quais, antigamente, interagimos fora do país”, afirma o intérprete e instrumentista Roberto Chitsondzo. E não lhe faltam argumentos: “Por exemplo, eu já participei em festivais, fora do nosso país, com a banda Eyuphuro.

A característica de um festival internacional tem que ser esta – pôr a cidade em festa e abrir as possibilidades de reencontro entre amigos”. Alinhando na mesma corrente de opinião, o DJ Damost diz: “Tratando-se de um evento internacional, como o Festival Azgo, eu e a minha equipa pretendemos apresentar muita música moçambicana. Dos 72 minutos da nossa atuação, apenas dois serão dedicados à música estrangeira”. A questão que se coloca a Damost tem a ver com o factor de diferenciação que a sua performance terá.

“Queremos exibir um DJ Damost diferente, que ainda não foi exposto porque – desta vez – vamos levar para o palco uma equipa composta por entre 15 e 16 pessoas, incluindo bailarinas, saxofonistas, timbileiros e percussionistas. Vamos fazer um concerto em que as pessoas não se concentrarão unicamente em mim como DJ, mas no conjunto”. Entretanto, no seu comentário, Mr. Kuka é menos específico. Diz ele que “vou trabalhar a fim de que se produzam os resultados do que irá aparecer na foto bonita do próximo ano”. O que é facto, porém, é que temos entre estes artistas fazedores de música de gerações diferentes.

“A interacção musical entre artistas de gerações diferentes é algo salutar e contínuo. Eu também já fui jovem, porque há sempre um dia em que as pessoas começam a sua carreira. Portanto, se hoje se assinala o começo de alguns é tempo de nós, os mais velhos, dizermos que já somos maduros passando a nossa experiência aos mais novos ao mesmo tempo que recebemos a deles. Por isso, penso que se trata de um debate útil, necessário e prestativo para cada uma das partes”, diz Chitsondzo.

Há gente para quem ver o espectáculo da banda Ghorwane é uma experiência nostálgica, da mesma forma que existem pessoas para as quais tal evento é uma autêntica novidade. Para muitos, deste último grupo, a vontade de vê-los tem a ver com as informações difundidas sobre os mesmos. Roberto tem a consciência disso. Ou, pelo menos, o seu comentário deixa transparecer tal realidade. “A nossa actuação representa a possibilidade da nossa aparição, pela primeira vez, para as pessoas que quando começámos a fazer música, em Moçambique, ainda não existiam, por um lado. Por outro, há-de ser interessante na medida em que propicia o reencontro com os nossos fãs a quem dizemos que ainda existimos”.

De todos os modos, há muitos aspectos envolvidos nesta aparição pública da banda Ghorwane. “Vamos com muito respeito ao palco porque temos a consciência de que já não somos novos”. Além do mais “desde que os nossos colegadas Zeca Alage e Pedro Langa desapareceram física e tragicamente, a nossa banda tem tido o cuidado de cantar as suas composições a fim de garantir que as suas vozes e obras não se percam. Vamos continuar a actuar acompanhando a dinâmica do público e a levar para o palco algumas novidades musicais”.

Nesta sexta-feira, 23 de Maio, o Festival Azgo arranca com a actuação do músico maliano, Salif Keita, marcada para as 22horas. De uma ou de outra forma, o cardápio produzido diz-nos que, no Complexo Matchi-tchiki, em Maputo, estarão em palco muitos outros artistas: Projecto Trânsito, Ghorwane, Oliver Mtukudzi, Tlale Makhene, Akale Wube, Mokoomba, Imperial Tiger Orchestra, DJ Damost e Kiwi And The Papaya Mangoes, a partir das 18 horas. De todo os modos, o director da iniciativa, Paulo Chibanga, fala sobre um dos elementos que tornam este evento diferente dos demais: “Nós somos o único evento em que as pessoas se podem cruzar e dialogar com os artistas no espaço do festival. Isso também possibilita algum intercâmbio”.

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