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ASCHA: a escola para a vida

ASCHA: a escola para a vida

Nestes dias em que o mundo celebra o mês da criança, fomos ao bairro de Maxaquene “A”, na cidade de Maputo, falar com a “Associação Sociocultural Horizonte Azul” (ASCHA). No terreno, ouvimos histórias tristes envolvendo duzentas crianças na sua maioria órfãs e vulneráveis. Dizer que Alberto é órfão é repetir um lugar comum. Desde cedo viu-se obrigado a viver sem os pais.

Divide a casa com o avô, as tias e os primos que poucas vezes se dão conta da sua presença. É na ASCHA onde o petiz encontra paz e muitos ombros amigos com que esquece os dissabores da vida. Antes sobrevivia dos circuitos do comércio informal, muitas vezes dominados por gente adulta, facto que o fazia correr riscos de sofrer abusos sexuais, tráfico, entre outros males.

Entretanto, hoje frequenta a sétima classe e sonha vir a ser dirigente deste país. Como Alberto, naquela zona vive Olga, uma jovem que estuda na sétima classe. É a filha mais velha da casa. Entrou na Associação em 2005. Conta-se que nessa época era tão magra, doentia e, ao invés da escola, frequentava as casas de pasto. Hoje com incentivos da ASCHA, já vai à escola e participa afincadamente nas actividades de apoio psicossocial, do reforço escolar e ainda aconselha as amigas a mudarem de conduta. Januário Numaio é da casa. Provém de uma família de 13 pessoas, onde vive com os seus pais e os sobrinhos, numa casa de dois quartos e em construção. Segundo as suas palavras, entrou na ASCHA através do convite de uma amiga.

“Quando cheguei fui encaminhado a uma sala onde estavam as outras crianças e logo a professora mandou-me sentar a seguir deu-me uma folha e lápis para eu fazer um desenho livre,” conta. “Nesse dia desenhei um artista Rock de óculos escuros empunhando uma magnífica guitarra. Sentia-me mais em casa do que na minha própria moradia”. A seguir, o mancebo passou a participar nas actividades da Associação e, através dela, conheceu muita gente, em que destacou Graça Machel, viúva do primeiro Presidente de Moçambique e Dalila Macuácua, pela qual diz nutrir muito respeito e consideração, dada a forma carinhosa com que lhe tratou. Actualmente, Januário frequenta o terceiro ano na escola de artes visuais, onde alimenta o sonho de, no futuro, ser um grande pintor.

E O QUE EH ASCHA?

ASCHA significa Associação Sociocultural Horizonte Azul. Foi constituída em Abril e lançada em Junho de 2005 na cidade de Maputo. Segundo consta nos seus arquivos, trata-se de um agregado de âmbito provincial resultante de uma iniciativa de jovens residentes no bairro Maxaquene “A”, Distrito Municipal n°3, que se destina à reabilitação infantojuvenil através de promoção e protecção dos direitos da criança em situação difícil. A associação “pretende levar as crianças a atingir o seu horizonte de uma maneira brilhante e pacífica, sem confrontos de identidade, tal como o mar azul que é calmo e o céu azul sem nuvens negras, independentemente dos vários problemas que assolam a criança órfã e vulnerável no bairro”, defendeu Dalila Macuácua presidente da associação.

A instituição tem sob sua responsabilidade duzentas crianças e adolescentes, dos quais 60 porcento do sexo feminino, com idades compreendidas entre um e 18 anos, sendo 40 porcento rapazes. A maior parte dos petizes vive na comunidade em situação difícil. Muitos deles têm os parentes infectados pelo HIV/SIDA e sem possibilidades de garantir os serviços básicos para os seus rebentos. Intervindo nas áreas da educação, saúde, segurança alimentar, apoio psicossocial, protecção legal, prevenção, sensibilização pública, advocacia e saneamento, a ASCHA integra e matricula crianças nos estabelecimentos de ensino, acompanha os serviços de saúde, proporciona apoio alimentar, promove debates, apoia na saúde reprodutiva, educação sanitária, entre outras actividades.

DALILA MACUACUA

É membro fundador da Associação e actualmente exerce funções de presidente. Até 2005 Dalila Macuácua era uma actriz do grupo teatral Girassol. Fez a décima segunda classe em 1998 e passou, não apenas a colaborar com o “Girassol” como actriz, mas também na dança e outras actividades. Segundo nos contou, a sua vida mudou num ápice desde Abril de 2005 quando a irmã foi cruelmente assassinada naquele bairro, deixando três crianças, sendo uma de nove anos, outra de três e a última de oito meses. A partir dali a jovem actriz assumiu a responsabilidade de cuidar dos sobrinhos passando a exercer o papel de mãe até aos dias que correm. Dessa experiência, foi-se habituando a lidar com crianças.

Mais tarde, inspirando-se na situação precária em que muitos petizes da sua comunidade vivem, decidiu então, na companhia de alguns amigos, criar a Associação Horizonte Azul, corria o mês de Abril de 2005. Numa primeira fase, segundo ela, começaram com 50 crianças que passaram a aprender teatro, poesia, desenho e dança tradicional. Passado algum tempo, outros miúdos vulneráveis da zona começaram a entrar e assim o número cresceu. A partir de Janeiro de 2006 passaram a trabalhar seriamente, começando por solicitar algumas vagas nas escolas da cidade. O primeiro estabelecimento de ensino a aceitar foi a Escola Primária Unidade 24. Ali foram integradas 35 crianças da primeira à quinta classe.

A segunda fase foi em 2007 quando integraram 20 crianças no ensino secundário e passaram a sensibilizar as famílias para colaborar no processo. Dalila sublinhou que o acesso das crianças ao ensino contou com a colaboração da Direcção da Mulher e Acção Social que facilitava na atribuição do atestado de pobreza. Apesar das dificuldades que a associação enfrenta, ficámos a saber que o número de crianças não pára de crescer.

A presidente da agremiação sustenta que tal é motivado pelo facto de muitos meninos estarem a ficar órfãos. Além do apoio moral do Governo e das várias ONG´s, a ASCHA conta com alguns parceiros nacionais tais como a FDC, Actionaid Moçambique, Meninos de Moçambique, Matsoni e a Associação para o Desenvolvimento Sustentável AMDEC. A nível internacional destacam-se as organizações Engenharia sem Fronteiras e o Clube das Mulheres Internacionais de Maputo.

Neste momento tem 23 colaboradores (dos quais a maior é constituída por mulheres) distribuídos nas várias áreas servindo 200 crianças divididas em 65 famílias duas delas do Maxaquene B e a outra parte no Maxaquene A. De acordo com a presidente, neste momento os maiores desafios consistem em garantir alimentação para as crianças, adquirir um estabelecimento razoável para trabalhar, integrar os petizes no ensino secundário e lutar para a sua permanência na escola.

Portanto, até aos 18 anos, período em que os petizes atingem a fase adulta, deixam de receber o acompanhamento da ASCHA, ficando para trás a gratidão dos momentos de aprendizagem, bem como a preparação para a vida, como afirmou Januário Numaio antigo beneficiário do projecto.“Elas ensinaram- me a ser feliz, dentro da pobreza. Deram-me apoio escolar, alimentação e também me aconselharam a olhar sempre em frente e sonhar com o meu futuro”, afirmou.

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