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As Imbatíveis

As Imbatíveis

Já encontrámos mulheres com curativos no braço ou no pé, sem se ignorarem as mazelas que lhes povoam o coração. Elas podiam ter sido vítimas de uma bala, de qualquer arma branca, ou espancadas. No entanto – a dançar, a sorrir, a conviver –, no quotidiano, estas mulheres enfrentam os desafios da vida continuamente. Mulheres desta estirpe são As Imbatíveis, e, através da pintura, Silvério Sitoe resolveu prestar-lhes o seu tributo, uma louvável gota no oceano. Há que se fazer mais…

Gente há que a falar de forma bonita e delicada – a pintura é uma delas –, quer fazer-nos perceber as atrocidades que assolam a nossa sociedade, acometendo algum segmento social ou todos. No entanto, também há pessoas que, por pura ignorância ou por algum propósito, ignoram o cerne da questão, abordando as artes plásticas (sobretudo na interpretação e disseminação da mensagem que contêm) como algo engraçado ou simplesmente decorativo.

Não se está a dizer, de nenhuma forma, aqui, que as obras de Silvério Sitoe – cuja exposição o estimado leitor apreciou na última semana de Agosto – não aglutinam, em si, o lado engraçado e decorativo. Enfatiza-se, porém, que esse não é o aspecto essencial. Senão, para tal, desta vez, o artista não teria escolhido o mote As Imbatíveis. O criador quis explorar os atributos femininos que, diariamente, constata na sociedade, como, por exemplo, o seu sorriso e a dança, a fim de enaltecer a força da mulher moçambicana.

É em resultado disso que, quando lhe solicitam a estabelecer alguma correlação entre a sua criação artística e o contexto social moçambicano – ainda bem que finalmente os beligerantes acordaram a paz – Sitoe recorda-nos de que “já encontrámos mulheres com ligaduras no braço ou no pé (que, no dia anterior, haviam sofrido alguma atrocidade), no entanto, no dia seguinte, enfrentam os desafios da vida continuamente. Não desiste de lutar pela materialização dos seus sonhos e objectivos porque está febril ou ferida. Então, esta mulher é imbatível e é a ela que se homenageia nestas obras”. Entretanto, ainda que esta mostra sirva, efectivamente, para exaltar a mulher – cada pessoa deve-se empenhar em enaltecê-las de diversas formas possíveis, usando ferramentas muito peculiares.

Dada a relevância do seu acto e da necessidade de se multiplicar esta mensagem, Silvério Sitoe afirma “se me for permitido, espero que as obras sejam expostas noutros cantos do país onde, sem dúvida nenhuma, há pessoas interessadas em apreciá-las a fim de absorverem a mensagem aqui veiculada”. Mas porque é que as mulheres são (ou podem ser consideradas) imbatíveis? A resposta é simples: “Ninguém consegue detê-las quando têm algo a realizar”. De qualquer modo, é preocupante notar que nas artes plásticas a presença da mulher “não é expressiva por causa do preconceito social que se atribui às artes desestimulando o seu envolvimento”.

No entanto, há que se reconhecer, “as mulheres que já estão envolvidas naquela forma de arte têm feito um trabalho belíssimo”. Logo, “a mulher exerce um forte papel nas artes plásticas moçambicanas na medida em que discute assuntos de grande relevância social incluindo os seus sentimentos. Então, ainda que numericamente reduzida, é fortíssima a presença da mulher nas artes no país”.

Reagindo em relação à mostra As Imbatíveis, certo apreciador de arte, cujo nome não apurámos, afirma que actualmente é muito difícil encontrar um pintor que saiba associar mulher, música e dança, incluindo os pequenos movimentos e desafios do dia-a-dia numa obra pictórica. É em resultado disso que faz uma crítica favorável: “Este arista moçambicano tem um traço bem firme, bem forte e muito bem feito – é por isso que eu acredito no seu talento”.

Arte

Partindo do princípio de que a arte é a força que nos permite contribuir para que a sociedade tenha um amanhã sempre melhor, Sitoe tem a expectativa de que “as nossas mensagens sejam mais optimistas do que pessimistas”. Por exemplo, havendo pessoas que dizem que “educar a mulher é educar a sociedade, eu também acho que homenagear a mulher é homenagear a sociedade porque todos viemos da mulher”.

Tendo em conta que a maioria das suas obras aglutina cores vivas – amarelo, vermelho, laranja – a aparição do cinzento faz uma diferença que chama a atenção do apreciador. Questionámos o artista sobre a aplicação que faz em relação a esta coloração. Segundo Sitoe, o cinzento está associado à viola, ao som, para significar alguma sonoridade que nasce a partir das cinzas. Da mesma forma podemos visualizar, em certo sentido, a mulher porque “sabemos que há vezes em que elas se debatem com dias difíceis. No entanto, dificilmente, deixam de sorrir porque possuem uma musicalidade que lhes caracteriza”.

Por outro lado, diz o artista que laranja é para si “uma cor que transmite uma energia positiva, a esperança, induzindo as pessoas à alegria e à felicidade. Quando falo da Marrabenta, refiro- me à música, tendo em conta que esta coloração – incluindo a vermelha e a amarela – tem uma vibração complementar à expressão das obras, despertando as pessoas”. Na exposição As Imbatíveis, há uma dualidade de grupo de cores, por um lado, vivas – amarela, laranja e vermelha – e, por outro, apagadas – preta e cinzenta – o que nos faz pensar que a mostra está dividida em duas partes.

Esta realidade é explicada com base no processo da depuração da forma que ocorre naturalmente. É que, diz Silvério Sitoe, “muitas vezes, a depuração consiste em dispensar todos os elementos supérfluos do desenho a fim de registar apenas o essencial, marcando a tela com um traço e, mesmo assim, conseguir reforçar a expressão que se torna simples e bonita. A cor cinzenta, que resulta, é neutra transmitindo a calma, além de combinar com os temas que se discutem na mostra”.

Minibiografia

Silvério Sitoe é profissional de artes plásticas. Nasceu no distrito de Panda, em Inhambane, em 1967. O artista participou em exposições dentro e fora do país, tendo cursado Desenho na Faculdade de Educação da Universidade Eduardo Mondlane, em 1985. Entre 2000 e 2001 foi distinguido com o galardão Pintor do Ano em Moçambique, no Prémio Personalidade.

Sobre a mostra As Imbatíveis, Sitoe afirma que “nas minhas telas a mulher aparece associada à música e à Marrabenta, três armas indispensáveis para libertar um mundo onde o ódio e o pecado não têm lugar. Com o seu passo de dança são capazes de amolecer corações insensíveis e derreter o mais gélido dos glaciares”.

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