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Artistas do mundo em Trânsito no Modaskavalu!

Na estreia do Projecto Trânsito, protagonizado por Chico António, Edmundo Matsielane e Chude Mondlane, no último domingo, 17 de Fevereiro, o público foi diminuto. No entanto, as pessoas que estiveram no local viveram uma experiência única: a produção e o consumo de música, em tempo real…

Há um grande orgulho em ser o primeiro e, por via disso, também ser o privilegiado. Quem, muito recentemente, pela primeira vez, teve a oportunidade de assistir ao ritual do nascimento da arte musical foram alguns cidadãos que, no domingo, testemunharam o primeiro show do Projecto Trânsito.

A iniciativa artístico-musical – em que cantores com vivências internacionais na música se mesclam a fim de gerar um resultado aurífico – é dinamizada pelos conceituados Chico António, Chude Mondlane e Edmundo Matsielane.

Entre as poucas pessoas presentes no espaço Modaskavalu – anexo ao Teatro Avenida – encontravam-se cidadãos de várias nacionalidades cuja reacção, em termos de sincronismo, às sonoridades que se lhes chegavam ao ouvido apagou a sua heterogeneidade. A música, apesar de nunca ter reivindicado esse estatuto, ali, provou-nos que é uma linguagem universal.

Percepções criam-se e consolidam-se sobre a música. Nós, também, como quaisquer outros cidadãos, tínhamos as nossas. A verdade é que aquele trio de artistas moçambicanos, ao qual se associou o percussionista francês, M’Sagarra Nicolas, formando um quarteto inspirado e inspirador, conseguiu desconstruir a nossa noção de música, ao mesmo tempo que propôs outra que apesar de ser de difícil percepção – por ser nova – nos agradou. Essa música invade as entranhas.

É provável que não existam palavras para adjectivar a relação que estes músicos – com destaque para Chico António – travam com a música: uma conexão em que todos os instrumentos de percussão, a bateria, o xigovia, a mbira e a flauta, se deixam auxiliar por uma gargalhada, um berro masculino e, porque não, um grito inocente de uma criança. No Projecto Trânsito, uma experiência de colaboração artística oportuna, a música e a musicalidade tornam-se conceitos ténues.

Neles, as imagens de música, as sonoridades, por vezes, as mensagens são emitidas de forma bruta – empregando-se palavras objectivas –, enquanto noutras, talvez por se estar diante de sons abstractos, mesmo os produzidos pelas vozes, o ouvinte é que tem de reconstruir a informação em função da sua percepção, incluindo as idiossincrasias habituais.

“Vamos amadurecer continuamente”, Edmundo Matsielane

Como é que foi o processo dos ensaios até que se colocasse o produto final diante do público? É interessante porque desde o princípio, o nosso ensaio consiste em fazer uma parte do trabalho e deixar uns 30 porcento para ser completada pelo público que partilha experiências connosco. Essa é a ideia do projecto. Diríamos que é como se os nossos concertos fossem um caso organizado.

Acho que em resultado das experiências que faremos aqui, quando chegar a vez de actuarmos no Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Março, o projecto terá um grande amadurecimento. Haverá muito mais complementos – a luz, mais público, mais espaço – que irão enriquecer o concerto.

Como está a ser a experiência do primeiro concerto do Projecto Trânsito?

Temos a fé de que o intercâmbio artístico entre mim, Edmundo Matsielane, a Chude, o Chico António e o M’Sagarra Nicolas – incluindo a possibilidade de estar em contacto directo com o público – será algo muito mais interessante ainda. O projecto está aberto a receber outros artistas que, no futuro, irão querer compartilhar as suas experiências no âmbito da iniciativa.

Para que a iniciativa não sofra um interregno – como impacto da minha saída e da Chude – pensamos em criar uma alavanca que consiste na integração de outros artistas. O Chico irá ficar com o Nico, mas quando eu regressar o projecto irá continuar.

Para que não se pare é necessário que alguns músicos – ou cidadãos que apreciam a música – se associem a nós para tornar o projecto robusto. Precisamos do público para que juntos possamos fazer o Trânsito que é uma matiné em que as pessoas têm a possibilidade de passar as tardes de domingo a escutar (boa) música ao vivo, reforçando a visibilidade da nossa cultura.

“Encontrámos um espaço de união”, Chude Mondlane

“O projecto chama-se Trânsito porque os artistas que o constituem são amigos que pretendem transmitir as suas experiências como pessoas e como músicos. Juntamo-nos num espaço de trânsito, onde nos iremos encontrar por algum tempo de modo que, mais adiante, possamos continuar os nossos trajectos pessoais”.

“Somos artistas do mundo porque temos inspirações musicais de diferentes partes da terra. Consumimos diversos estilos de canto e dança – como, por exemplo, makwaela, xingonama, de música russa e clássica – que enriquecem as nossas experiências. O mais importante é que, ainda que tenhamos personalidades muito diferentes, encontramos um espaço comum de união. Um espaço em que podemos confiar um no outro e criar uma base de música”.

“É como se estivéssemos a construir um barco que nos possibilitará viajar para qualquer lugar na música. Por isso temos a certeza de que cada um de nós irá aportar num sítio interessante. E, dessa maneira, a música irá desenvolver. Todos os domingos, vamos realizar estes concertos, até acumularmos todos os trabalhos de modo que os resultados sejam apresentados num show a ser realizado no “Franco-Moçambicano”, num dia ainda a anunciar”.

“As coisas que, na música através da minha voz, pretendo partilhar com o público são as minhas ideias que às vezes saem em forma de melodia, memórias de interacção como, por exemplo, uma criança a chorar, uma mãe a cuidar dela, incluindo as palavras meigas e outras grossas, marcantes e cheias de força para mudar e transformar a realidade. Então, trata-se de uma mistura de experiências”.

“Neste processo de actuações, aqui, no Modaskavalu, queremos explorar novas experiências com o público presente. Penso que improvisar e criar a música na ausência do público é muito diferente de quando o mesmo pode participar. Ou seja, o público dá-nos algo que nos inspira a trilhar por um caminho em que descobrimos novas maneiras de interpretar a música”.

“No Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo, estaremos um pouco mais distante do público, o que não acontece no Modaskavalu, onde os concertos são intimistas. Outra diferença é que, o último show será o resumo do nosso quotidiano aqui, em Maputo, como cidadãos moçambicanos e/ou pessoas do mundo”.

“As pessoas devem explorar outras propostas de música”, Chico António

“Como se viu, o público que assistiu ao concerto é homogéneo. Não é diversificado. Eu gostaria que os moçambicanos não tivessem medo de investir algum tempo do domingo para assistirem aos espectáculos do projecto Trânsito, a fim de escutarem outro tipo de música”.

“Eu sei que as pessoas estão acostumadas a ouvir música com muito barulho, mas existem outras propostas que devem ser exploradas, a fim de que se percebam as sonoridades de outro tipo de instrumentos musicais. O Projecto Trânsito confere essa possibilidade aos cidadãos”

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