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Apagada a memória dos CFM em Inhambane

Já temos uma geração que não sabe que a cidade de Inhambane esteve ligada à vila de Inhaharrime por linha férrea. Foram retirados todos os carris – de aço – num percurso de cerca de 100 quilómetros e levados para destinos incertos. No lugar por onde passava a via foram erguidas casas e, em alguns troços, abriram-se ruas para a passagem de carros. Já não se vê por onde é que as máquinas a vapor circulavam.

No sábado, 01 de Junho, a Reportagem do @Verdade testemunhou, surpreendida, a retirada de uma velha locomotiva, uma carruagem e um tanque-cisterna, dos antigos hangares para a cidade de Maputo. Perguntámos aos homens que estavam envolvidos na acção, qual era o destino daquele património pertencente à cidade de Inhambane e disseram-nos que era para um museu em Maputo.

Ficámos admirados, contactámos, telefonicamente, o presidente do Conselho Municipal de Inhambane, Benedito Guimino, para lhe pôr ao corrente da situação e ele respondeu-nos que desconhecia o assunto. “Não tenho conhecimento de nada, mas vou ligar para o director dos CFM para perceber melhor o que está a aontecer”.

Enquanto falávamos com Guimino, os camiões e as gruas da empresa de transportes “Lalgy” movimentavam-se no seu trabalho que parecia irreversível. A questão que nós colocámos ao edil é se aquela herança histórico-cultural, pertencendo à cidade de Inhambane, porque era levada para ornamentar museus de outras paragens.

“Eu penso que tens razão, aquelas máquinas fazem parte do nosso património”. E tudo indica que as ordens passaram por cima do presidente da edilidade.Os Caminhos-de-Ferro de Moçambique (CFM) em Inhambane têm um espaço de tremenda inveja.

Olhando-se para os altivos hangares, para a sugestão artística que eles nos oferecem, somos completamente arrebatados e obrigados a propor que aqueles edifícios deviam ser reabilitados e mantidos ali os respectivos equipamentos que agora se encontram em Maputo.

Ainda no mesmo espaço temos a infra-estrutura da estação, que entra em bela harmonia com tudo aquilo e a cidade de Inhambane só ficaria a ganhar com a instalação, ali mesmo, de um museu que simultaneamente funcionaria como um centro cultural. Mas alguém pensou de forma diferente, e retirou aos manhambanas esse inalienável direito e privilégio de ter uma obra arquitectónica daquele nível.

Antes da retirada da velha locomotiva, da carruagem e do tanque-cisterna, o lugar em si já estava abandonado, e agora, sem essas as máquinas, vai ficar mais sombrio ainda. Era belo ver o comboio circular, nas manhãs e nos fins de tarde, ou à noite, entre Inhambane e Inharrime. A circulação da composição com várias carruagens desempenhava um lado social muito importante, pelos baixos custos que representava para o utente.

Também havia o lado turístico a assinalar, porque ao viajar-se de locomotiva a sensação que se tem é outra, mas tudo isso foi esquartejado, já não haverá memória dessa história rica. Os que quiserem saber mais sobre os CFM de Inhambane terão, a partir de agora em diante, de ir a Maputo.

A estação de Inharrime, onde estivera instalada a terminal das locomotivas, era de uma beleza única, mas hoje está transformada em prostíbulo, com poucas possibilidades de voltar, pelo menos a breve trecho, a ostentar a sua postura. Isso faz-nos lembrar que vivemos num país em que as pessoas se preocupam muito pouco com as memórias, com os locais históricos, impedindo as gerações vindouras de saber de onde vieram.

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